A China e o possível fim da 'ascensão pacífica'

Apesar de especulações, ainda não há nenhuma clareza sobre que tipo de potência global o país asiático se tornará ao longo da próxima década

Elizabeth Economy / FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2010 | 00h00

A despeito de todas as manchetes bombásticas, não há nenhuma clareza sobre que tipo de potência global a China se tornará ao longo da próxima e crítica década. Mas, se a comunidade internacional está no escuro sobre a trajetória da China no século 21, isso provavelmente se deve ao fato de que não existe um verdadeiro consenso entre os próprios chineses a esse respeito.

Nas primeiras décadas da era das reformas, a China, sob o comando de Deng Xiaoping, procurou silenciosa e gradualmente associar-se a um amplo leque de organizações e regimes internacionais. Consultores políticos reconhecidos como o economista Wu Jinglian - que já mereceu o apelido de "Mr. Market" (Sr. Mercado) - defenderam abertamente a reforma do mercado e a integração com a economia global. Ao mesmo tempo, Deng conservou elementos anteriores da estratégia chinesa, como as "Quatro Modernizações" (agricultura, indústria, defesa nacional, e ciência e tecnologia) para transformar a China numa potência autoconfiante em princípios do século 21; e estrategistas militares, como o almirante Liu Huaqing, que chefiou a Marinha chinesa durante os anos 80, estabeleciam uma visão de uma força naval que se igualaria à dos Estados Unidos em meados do século 21.

O resultado da mistura do velho e do novo de Deng foi o surgimento de uma potência global que manteve, contudo, um baixo perfil político e militar. A política externa chinesa conformou-se estreitamente a um dos princípios diretores de Deng - "oculte o brilho e cultive a obscuridade".

No entanto, o consenso da era Deng começou a se desgastar na última década. À medida em que a economia chinesa continuava crescendo e a presença do país no exterior se expandia para o Sudeste Asiático, América Latina e África, a máxima de Deng ia ficando fora de sincronia com a realidade.

Quando alguns estrangeiros começaram a vislumbrar uma China recém-fortalecida como uma ameaça ao Ocidente, o veterano dirigente do Partido Comunista Zheng Bijian procurou explicar o poder e influência crescentes da China para o restante do mundo, chegando à noção de "ascensão pacífica", que ele começou a usar em 2003 e popularizou num artigo de 2005 na Foreign Affairs. Zheng argumentou que, diferentemente de outras grandes potências anteriores, a ascensão da China não teria como base a exploração alheia. A teoria - alguns diriam o slogan de marketing - ressaltava que a ascensão da China beneficiaria o povo chinês e o restante do mundo.

Desenvolvimento pacífico. A maior parte dos membros de alto escalão da China rapidamente saiu em apoio ao lema. O debate sobre ela, porém, foi instrutivo: alguns acadêmicos chineses temiam que a palavra "ascensão" parecesse demasiado provocativa para estrangeiros, enquanto outros não gostavam da palavra "paz", argumentando que ela não permitia que a China fosse agressiva se a necessidade surgisse, por exemplo, se Taiwan de repente declarasse a independência.

Como argumentou na época Yan Xuetong, professor da Universidade Tsinghua: "Todas as estratégias de paz que impeçam a ascensão da China devem ser excluídas." Em círculos oficiais, o termo logo se transformou num mais soporífero "desenvolvimento pacífico".

Hoje, sem uma orientação clara de Pequim, surgiu um grande debate na intelligentsia chinesa sobre o papel do país no mundo.

Alguns estão nitidamente prontos para ver a China afirmar-se como uma potência global. No auge da crise financeira, por exemplo, o presidente do Banco Central chinês, Zhou Xiaochuan, sugeriu que o tempo estava maduro para o mundo abandonar o dólar como moeda de reserva.

Estudiosos das relações internacionais como Shen Dingli, da Universidade de Fudan, alardeiam abertamente o direito da China de estabelecer bases militares para proteger seus interesses no exterior. No entanto, outras autoridades e pensadores chineses sentem claramente um perigo nessa ousadia. "Não acho que a China deva se tornar outros Estados Unidos na política global, e ela não poderia mesmo que quisesse", opinou o estudioso Wang Jisi.

Esse debate sobre como a China pode promover seus interesses no mundo não é simplesmente uma escolha entre agarrar o momento e manter o curso. Algumas autoridades chinesas conclamaram seu governo a assumir mais responsabilidades internacionais. O premiê Wen Jiabao, por exemplo, disse num pronunciamento em abril que a China aumentaria suas contribuições aos esforços internacionais em áreas como educação, assistência médica e redução da dívida porque "essas são aspirações da comunidade internacional e do próprio interesse da China também".

Outros, como o jornalista Wang Di, escreveram sobre a necessidade de as grandes companhias chinesas que operam no exterior considerarem a responsabilidade social corporativa se não quiserem ser rotuladas como forças de "expansão arrogante do capital".

O desafio mais profundo talvez seja, como vários pensadores chineses agora articulam, não uma ameaça externa, mas a transformação da cultura política dentro da China. "Três décadas de reformas provocaram um rápido aumento da riqueza na China, e esta, por sua vez, também tornou o povo chinês arrogante", escreveu Ye Hailin, pesquisador bolsista na Academia de Ciências Sociais chinesa, numa crítica contundente às sensibilidades chinesas atuais. "O povo chinês não é mais tolerante a críticas."

Continua em aberto como esse debate moldará o futuro da China. No entanto, o ponto mais importante talvez seja o fato de ele estar ocorrendo - e não simplesmente por trás das portas famosamente fechadas do Zhongnanhai (o complexo que abriga a sede do Partido Comunista e os principais órgãos de poder na China), mas diante do povo chinês e do restante do mundo. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É DIRETORA DO DEPARTAMENTO DE ESTUDOS DA ÁSIA NO CONSELHO DE RELAÇÕES EXTERIORES

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