A China e seus novos interesses

Enquanto EUA não definem qual diplomacia adotar, Pequim usa seu poder e joga duro com vizinhos asiáticos

David E.Sanger / The New York Times, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2010 | 00h00

Os americanos foram surpreendidos por como a China está usando seu poder. Pequim surgiu como valentão do pedaço, ameaçando cortar o acesso do Japão a minerais a menos que Tóquio cedesse numa disputa territorial antiga. Os japoneses cederam. A China surgiu conciliadora, com seu premiê, Wen Jiabao, dando tudo para desviar a pressão do presidente Barack Obama sobre o valor da moeda chinesa - na verdade, uma batalha sobre se os empregos vão para trabalhadores de Seattle ou Shenzhen. Os dois líderes conversaram por duas horas na ONU. O resultado não ficou claro.

E a China surgiu como a realista clássica, optando pela conveniente inconsistência sobre as sanções contra Coreia do Norte e Irã num esforço para equilibrar seus interesses. De certa maneira, não há nada de surpreendente em uma potência ascendente encontrar maneiras sutis de lidar com problemas complexos.

Antes, porém, de a China emergir da pobreza para uma a condição de segunda economia do mundo, sua posição sobre política externa era reafirmar o princípio de não ingerência em assuntos de outros países e se concentrar em sua vizinhança. Isso foi antes de ela ter os recursos militares e o incentivo para pensar em como assegurar e defender interesses por todo o globo. Hoje, eles incluem o acesso ao petróleo em lugares como Sudão e Irã, navegação segura no Índico e capacidade de manipular sua moeda.

Pela primeira vez, o mundo está vendo um conjunto de comportamentos distintos em lugares sobre os quais os chineses dificilmente pensariam 20 anos atrás. Agora, o que diplomatas e analistas americanos precisam imaginar é o que move as ações da China, como tentar moldá-las e quais limites estabelecer.

Crescimento. "A China que o presidente Obama esperava receber um ano atrás, a grande potência cooperativa, não é a China com a qual ele tem de lidar hoje", disse David Shambaugh, diretor do programa de política chinesa da Universidade George Washington. "Na medida em que eles começam a administrar suas muitas clientelas, suas políticas estão ficando mais parecidas com a nossas", afirmou um funcionário de alto escalão do governo americano.

Há décadas que países da Ásia estão atentos ao ressurgimento da China - monitorando quantos navios e mísseis ela estava adquirindo e como usa sua influência como investidora. Uma década atrás, quando o presidente George W. Bush chegou ao poder, alguns neoconservadores insistiram que ele deveria "conter" as ambições da China.

Uma contenção provavelmente teria sido impossível e se provou desnecessária. Até agora, Pequim não reivindicou novas pretensões territoriais, apenas começou a defender antigas. Os japoneses se envolveram em um delas quando detiveram o capitão de uma traineira chinesa em um grupo de ilhas chamado Senkaku, pelos japoneses, e Diaoyu, pela China. Tóquio disse que a traineira havia abalroado um barco da guarda costeira japonesa. Alguns anos atrás, isso seria uma questão consular. Não desta vez.

Os chineses exigiram a libertação do capitão. O Japão recusou. Movida por uma onda nacionalista, a China bloqueou o envio de minerais conhecidos como "terras raras", colocando em risco a indústria eletrônica japonesa. Sem ânimo para reagir, os japoneses liberaram o capitão.

Se a estratégia da China com a Ásia é de atrito, com os EUA é diplomática. Quando Obama se encontrou pela primeira vez com Hu Jintao, presidente do país, um incêndio ameaçava consumir as duas economias, mas eles adotaram uma estratégia comum de estímulos. Em 2009, como observou um assessor de Obama, "tudo foi posto de lado".

Depois, eles se esquivaram de embates sobre a política ambiental em Copenhague e realizaram um ataque virtual ao Google. Mas, foi o corpo mole da China sobre sua política monetária que deixou tensas as relações. No Congresso, a China é acusada de manipular o yuan para manter suas fábricas zumbindo às custas de trabalhadores americanos. Democratas e republicanos pedem tarifas.

Por enquanto, a estratégia da China parece ser a manutenção da diplomacia enquanto prossegue o corpo mole. Wen usou a palavra "cooperação" seis vezes quando esteve com Obama nos EUA. Mas, quando as portas se fecharam, Washington pressionou por uma ação imediata, e, de acordo com uma testemunha, Wen "se esquivou", reafirmando que são necessárias gerações para construir uma potência econômica.

Casos especiais. Coreia do Norte e Irã são questões em que colidem os imperativos locais e os interesses de grande potência da China. Se o objetivo dos EUA é uma Coreia do Norte sem armas nucleares, o da China é mantê-la estável. Os chineses suspeitam que se ela implodir, a Coreia do Sul (e seus aliados americanos) chegarão até a fronteira chinesa.

Como disse um agente de inteligência americano, "se a escolha é entre viver com um Norte nuclear meio doido ou conosco em cima deles, os chineses preferem a primeira opção." Isso não significa que estejam felizes. Assim, em 2009 após, o segundo teste nuclear do Norte, serviu aos interesses da China apoiar as sanções contra Pyongyang.

Neste ano, quando os EUA tentaram novamente aprovar novas sanções por causa do afundamento de uma corveta sul-coreana, a situação havia mudado. Kim Jong-il, o ditador do Norte, estava doente e a China precisava ganhar a confiança de seu filho e herdeiro, Kim Jong-un. Pequim minou as sanção na ONU.

O Irã é outro caso especial - 12% do petróleo da China vem de lá. Embora Pequim tenha apoiado sanções, tratou também de garantir que as importações e exportações fossem deixadas fora da lista. Circulam comentários sobre novos investimentos de longo prazo em energia pelos chineses no Irã. Até agora, contudo, poucos acordos foram concretizados. É esse o supremo tabuleiro tridimensional de xadrez, jogado ao estilo chinês. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É COLUNISTA E GANHADOR DO

PRÊMIO PULITZER

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