A China pode ascender pacificamente

Ascensão de potências costuma trazer risco de guerra, mas Ash aponta caminhos sem conflito

Timothy Garton Ash *, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Para marcar o 30º aniversário do início das reformas econômicas promovidas por Deng Xiaoping, volto à questão da ascensão pacífica da China. Começo com o possível desfecho ruim.Quando grandes potências ascendem e entram em declínio, há um risco maior de ocorrer uma guerra. Essa proposição não implica um prejulgamento da cultura chinesa, ela apenas reflete um padrão histórico. A guerra pode não ser iniciada pela potência em ascensão, mas pela potência em declínio, e pode até ser contra um terceiro. A transferência hegemônica da Grã-Bretanha para os EUA deu-se enquanto ambos combatiam a Alemanha nazista.É esse o risco no longo prazo: uma guerra. Mas a oportunidade no longo prazo é igualmente grande. Imagine um quinto da humanidade organizado num único Estado, próspero e moderno, desempenhando um papel construtivo no sistema internacional e enfrentando os desafios transnacionais, como o aquecimento global, que nos ameaçam a todos. Há algo que precisa ficar claro. O que vai acontecer com a China, se ela prosseguirá em sua ascensão e de que maneira, é algo que depende sobretudo dos chineses - seja do ponto de vista legal, já que a China é um país soberano, do ponto de vista moral, já que os povos têm o direito de moldar seu destino, ou do ponto de vista prático, já que é limitada a capacidade de alguma força influenciar a evolução de um país tão grande e tão restrito às próprias referências. Limitada, mas não insignificante. Afinal, não estamos no século 17. As perspectivas para a economia chinesa em 2009 dependem diretamente dos mercados americano e europeus. Assim, os não-chineses também desempenham um papel importante nesta história.Portanto, estabeleci quatro pontos-chave para uma possível ascensão pacífica da China, associando a cada item uma estimativa da divisão da responsabilidade (DDR) entre nós. Nos limites de uma coluna, minha lista é necessariamente seletiva e de uma brevidade telegráfica.1) Evolução Doméstica (DDR - China 90%, restante do mundo 10%): Eruditos chineses compartilham a noção de que o sistema político chinês está numa longa jornada rumo ao desconhecido. O respeito à lei, a melhor governabilidade e a presença de elementos democráticos (mas não do aparato completo da democracia ocidental) são sempre mencionados. Em 30 anos o sistema político chinês deve estar bem diferente do que é hoje.Sugiro que aqueles de nós no restante do mundo que acreditam nas virtudes da democracia respondam de uma maneira semelhante a esta: "Desejamos sorte na sua jornada. Se acharem nossa experiência útil, ficaremos lisonjeados em ajudar. Achamos que vocês descobrirão, afinal, que a democracia é a melhor maneira de administrar um país, mas recebemos a concorrência ideológica de braços abertos. Se vocês forem capazes de propor um sistema diferente que satisfaça as aspirações do seu povo, ele será recebido com respeito. Caso contrário, nós também sofreremos as conseqüências negativas."2) O relacionamento especial entre China e EUA (DDR - EUA 65%; China 35%): Venho dizendo que o relacionamento entre União Européia e China deve ser fortalecido para se equiparar ao relacionamento China-EUA. Mas tanto chineses quanto americanos acreditam que o seu relacionamento é único. Muito bem: é hora de mostrarem o que isso significa.A maior parcela de responsabilidade deve ficar com o Estado atualmente mais poderoso. Obama deveria fazer a Pequim uma oferta de parceria estratégica, começando com alguns temas como a mudança climática e proliferação nuclear. E a China precisa ir além do seu paradigma atual, que seria, numa discreta paródia, "aquilo que importa para nós no mundo é aquilo que é bom para o nosso desenvolvimento doméstico; e aquilo que é bom para o nosso desenvolvimento doméstico será bom para o mundo".3) De G-8 para G-14 (DDR - Ocidente 70%; China 30%): Apesar de tentadora, a diarquia sino-americana não vai funcionar. A decisão de passar de um G-8 para um G-14 (ou mais) deveria ser tomada já no encontro do G-8 na Itália em 2009. Precisamos atribuir à China um papel de maior importância nas estruturas globais de governabilidade, incluindo as instituições financeiras mundiais.Aparentemente o Ocidente quer que a China assuma mais responsabilidades sem dar a ela mais poder, enquanto a China quer mais poder sem mais responsabilidades. Temos de encontrar um ponto de acordo.4) Engajamento sociocultural (DDR - 50% China, 50% restante do mundo): A transição de poder da Grã-Bretanha para os EUA foi facilitada pelo fato de os dois países serem tão próximos culturalmente quanto podem ser dois países distintos. Ocidente e China são muito diferentes culturalmente.A compreensão mútua, portanto, exige um esforço proporcionalmente maior. A China está usando parte de suas reservas para mandar seus estudantes a universidades americanas e britânicas; nós deveríamos empregar nossos recursos para recebê-los bem e mandar mais dos nossos próprios estudantes para lá. Nossos jornais deveriam dar à China o mesmo destaque dado aos EUA. Devemos encorajar trocas diretas entre indivíduos na maior escala possível. * Timothy Garton Ash é professor de Estudos Europeus na Universidade Oxford

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