A China precisa de seu próprio sonho

Para alcançar o dos americanos seria necessário outro planeta

É COLUNISTA, ESCRITOR, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ESCRITOR, THOMAS L., FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2012 | 03h05

No dia 8 de novembro, a China realizará o 18.º Congresso Nacional do Partido Comunista. Já sabemos quem será o próximo líder do partido: o vice-presidente Xi Jinping. Não sabemos o que é mais importante: será que Xi tem um sonho chinês diferente do sonho americano? Porque, se o sonho de Xi de uma classe média emergente da China - 300 milhões de pessoas que até 2025 chegarão a 800 milhões - for igual ao sonho americano (um carro grande, uma casa grande e Big Macs para todos), então precisaremos de um outro planeta.

Passem uma semana na China e verão o porquê. Aqui está a manchete do Shanghai Daily de 7 de setembro: "Prefeitura alerta para escassez de água". O artigo diz: "Xangai poderá sofrer de falta de água se a população continuar crescendo. ... A atual capacidade do abastecimento de água da cidade era de cerca de 16 milhões de toneladas ao dia, o que atende à demanda de 26 milhões de pessoas. Entretanto, quando a população chegar a 30 milhões, a demanda subirá para 18 milhões de toneladas diárias, superando a capacidade atual." Xangai chegará a 30 milhões de habitantes dentro de sete anos!

"O sucesso do sonho americano", observa Peggy Liu, fundadora da Colaboração EUA-China para a Energia Limpa (Juccce na sigla em inglês), "significava uma casa, uma família de quatro pessoas e dois carros, mas ultimamente houve uma expansão evidente do consumo, como mostra Kim Kardashian. A China simplesmente não pode seguir este caminho - do contrário, o planeta acabará sem os recursos naturais que permitem produzir tudo o que os consumidores chineses querem consumir".

Liu, formada no Massachusetts Institute of Technology, MIT, e ex-consultora da McKinsey, afirma que hoje os chineses anseiam por criar uma nova identidade nacional, na qual os valores chineses tradicionais, como o equilíbrio e o respeito, se fundem à sua moderna realidade urbana. Ela acredita que a criação de um sonho chinês sustentável, que rompa o vínculo histórico entre o crescimento da renda e o crescente consumo de recursos, poderá ser parte desta nova identidade - uma identidade que repercuta no mundo inteiro.

Por isso, a Juccce trabalha com prefeitos e redes sociais chinesas, especialistas em sustentabilidade e agências de publicidade ocidentais para estimular hábitos sustentáveis nas classes consumidoras emergentes redefinindo o conceito de prosperidade pessoal - à qual um número cada vez maior de chineses vem tendo acesso pela primeira vez - como "mais acesso a produtos e serviços melhores, não necessariamente tornando-se proprietários deles, mas também compartilhando-os - a fim de que cada um tenha uma fatia de um bolo melhor".

Isso significa, entre outras coisas, melhores transportes públicos, melhores espaços públicos e uma habitação melhor que encoraje as construções verticais densamente povoadas, mais econômicos em termos de energia facilitando a distribuição de serviços compartilhados, e maiores oportunidades de educação à distância e de transações comerciais pela internet, a fim de reduzir a necessidade de deslocamento da população. Dar mais ênfase ao acesso do que à propriedade não é apenas uma maneira de viver de modo mais sustentável, mas ajuda a reduzir o antagonismo em razão das diferenças entre ricos e pobres. Na realidade, o Juccce traduz o sonho chinês como sonho harmonioso e feliz, em mandarim ('verde' não é um termo que venda na China.) Os chineses estão mais abertos a esta nova visão do que nunca. Há dez anos, a atitude predominante era: "Ei, vocês americanos cresceram poluindo por 150 anos. Agora é nossa vez". Mas, há duas semanas, participei da inauguração do Instituto de Planejamento e Projeto Urbano na Universidade Tongji de Xangai e perguntei aos estudantes se eles ainda pensavam assim.

Recebi uma resposta muito diferente. Zhou Lin, que estuda sistemas de energia, levantou-se e declarou, entre sinais de aprovação dos colegas: "O senhor pode levar esta questão para o lado político quanto quiser, mas isso não terá a menor utilidade para nós". Não se trata mais de uma questão de justiça, ele disse. "O mais fundamental para a China é encontrar o caminho de um crescimento mais limpo."

Dizer que a China precisa do próprio sonho não significa que os americanos ou os europeus não devam redefinir o seu. Todos nós precisamos repensar como sustentar a crescente classe média com rendas cada vez mais elevadas em um mundo cada vez mais quente, do contrário a combinação de aquecimento do clima, aumento do consumo e da população significará que cresceremos para a morte.

O último plano quinquenal da China - 2011-15 - estabeleceu impressionantes metas de sustentabilidade para a redução de energia e de água por unidade do Produto Interno Bruto, PIB. Todas essas metas são cruciais para que a China consiga se sustentar, mas não são suficientes, afirma Liu. Com o aumento de 17% ao ano das vendas no varejo desde 2005, e o crescimento de 150% das rendas urbanas na última década, "o governo precisa também de um plano a fim de orientar o comportamento dos consumidores num caminho sustentável", acrescenta Liu. "Mas ainda não tem este plano."

Portanto, Xi Jinping tem dois desafios muito diferentes em relação a seu predecessor. Ele precisa garantir que o Partido Comunista continue governando - apesar das pressões dos cidadãos pelas reformas - e isso exige um crescimento maior para que a população se sinta satisfeita com o controle do partido. Mas também necessita administrar as desvantagens desse crescimento - das crescentes discrepâncias em termos de renda à ampla migração das áreas rurais para as urbanas e à sufocante poluição e destruição do meio ambiente. A única maneira de coordenar todos esses problemas é um novo sonho chinês que concilie as expectativas de prosperidade das pessoas com uma China mais sustentável. Será quer Xi sabe, e, se sabe, poderá conduzir o sistema para que caminhe até esse ponto? Muitas coisas dependem das respostas a estas perguntas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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