A China progride e dá xeque-mates

Paixão pela educação e o aprimoramento pessoal são lição de Pequim para o Ocidente

Nicholas D. Kristof, The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de janeiro de 2011 | 00h00

Se existe uma face humana da China em ascensão, ela não pertence ao chefe do Politburo nem a um magnata da internet, mas a uma adolescente de modos gentis, chamada Hou Yifan.

Hou é um fenômeno extraordinário: aos 16 anos, é a nova campeã mundial de xadrez, a pessoa mais jovem a vencer um campeonato mundial. E ela é o reflexo de como a China - investindo pesado na educação e em capital humano, particularmente nos jovens - está cada vez mais provocando um impacto enorme em cada aspecto do mundo.

A famosa frase de Napoleão, "Quando a China despertar, sacudirá o mundo", tornou-se uma verdade mesmo em áreas com as quais Pequim tem pouca afinidade, como xadrez, basquete, guerra cibernética, exploração espacial e pesquisa nuclear. É um processo do qual Hou Yifan é exemplo. Somente 1% dos chineses joga xadrez e o país nunca foi potência nessa modalidade.

Desde 1991, a China teve quatro campeãs mundiais de xadrez e Hou é a maior promessa. É a mais jovem mestre de xadrez do mundo. E é ainda tão jovem que não dá para prever o quão extraordinária ela se tornará.

As mulheres em geral não têm se mostrado tão boas no xadrez quanto os homens, e as consideradas melhores no mundo estão classificadas bem abaixo do que os melhores do sexo masculino. Mas Hou pode ser uma exceção. Ela é a única jogadora de xadrez da atualidade com chance de se tornar um dos principais jogadores de xadrez no mundo, seja homem ou mulher.

Céticos sugerem que a ascensão da China como potência mundial tem relação com a manipulação pelo governo das taxas de câmbio e das regras comerciais, que com certeza há muita manipulação e trapaças em cada esfera. Mas a China fez um trabalho extraordinariamente bom no investimento em sua população e estendeu as oportunidades para todo o país. Além disso, e talvez seja um legado do confucionismo, seus cidadãos demonstram uma paixão pela educação e o aprimoramento pessoal - juntamente com a formidável disciplina e trabalho duro, e o que os chineses chamam de "chi ku", suportando o sofrimento, físico ou intelectual, para atingir um resultado.

A China era uma das sociedades mais sexistas do mundo - com infanticídios femininos, o enfaixe dos pés das meninas e o concubinato -, mas deu uma reviravolta e hoje o país dá oportunidades tanto às meninas quanto aos meninos. Quando os pais de Hou perceberam seu interesse por um tabuleiro de xadrez numa loja, imediatamente compraram o jogo e contrataram um treinador para ela.

Serão necessárias muitas décadas até que a China possa desafiar os EUA na posição de número 1 do mundo, pois os americanos têm uma enorme liderança e os chineses precisam mostrar que conseguirão fazer uma transição para uma sociedade mais aberta e democrática. Em áreas discretas - como o setor automobilístico, das emissões de carbono, e hoje o xadrez feminino -, a China emerge como número 1, e o processo vai continuar.

O compromisso da China com a educação, a oportunidade, a tradição de suportar o sofrimento ou um trabalho difícil, são qualidades que o Ocidente deveria imitar. É possível entender isso depois de um xeque-mate de Hou Yifan. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA E REPÓRTER ESPECIAL

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