Dado Ruvic/Reuters
Dado Ruvic/Reuters

A China queria exibir suas vacinas, mas o plano está dando errado

Divulgação sobre imunizantes tem sido lenta e irregular, e países reclamam de atraso na entrega

Sui-Lee Wee / The New York Times , O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2021 | 10h00
Atualizado 29 de janeiro de 2021 | 22h27

A ideia era que as vacinas chinesas contra o coronavírus dessem ao país uma vitória geopolítica que destacaria suas proezas científicas e sua generosidade. Em vez disso, porém, elas provocaram uma reação contrária em alguns países.

Autoridades do Brasil e da Turquia reclamam que empresas chinesas estão atrasando a entrega de insumos e doses das vacinas. A divulgação de informações sobre os imunizantes tem sido lenta e irregular. Os poucos anúncios que saem sugerem que as vacinas chinesas, embora sejam vistas como eficazes, não barram o vírus tão bem quanto as desenvolvidas pela Pfizer e a Moderna, empresas farmacêuticas americanas.

Nas Filipinas, alguns legisladores criticam a decisão do governo de comprar uma vacina fabricada pela chinesa Sinovac. Autoridades da Malásia e de Cingapura, que encomendaram doses da Sinovac, vêm tendo que tranquilizar seus cidadãos, declarando que só vão aprovar uma vacina se sua segurança e eficácia forem comprovadas.

"Neste momento eu não tomaria nenhuma vacina chinesa, porque os dados são insuficientes", disse Bilahari Kausikan, influente ex-funcionário do Ministério de Relações Exteriores de Cingapura. Ele disse que só vai considerar essa possibilidade com "um relatório válido".

Pelo menos 24 países, quase todos de baixa e média renda, firmaram acordos com as empresas chinesas produtoras de vacinas porque estas lhes ofereceram acesso em um momento quando países mais ricos haviam comprado a maioria das doses produzidas pela Pfizer e a Moderna. Mas os atrasos nas entregas das vacinas chinesas e o fato de elas serem menos eficazes significam que esses países podem levar mais tempo para derrotar o vírus.

As autoridades de Pequim que esperavam que as vacinas promovessem a reputação global da China agora estão na defensiva. 

A mídia estatal lançou uma campanha de desinformação contra as vacinas americanas, questionando a segurança das vacinas da Pfizer e Moderna e promovendo as vacinas chinesas como uma alternativa melhor. 

Ela também vem distribuindo vídeos online que estão sendo compartilhados pelo movimento antivacinas nos Estados Unidos.

Liu Xin, âncora da emissora pública CGTN, indagou no Twitter por que a mídia estrangeira não vêm “investigando” as mortes de pessoas na Alemanha que receberam uma vacina —apesar de cientistas já terem dito que as pessoas em questão já estavam gravemente doentes. O tuite de Liu foi compartilhado por Zhao Lijian, principal porta-voz do Ministério do Exterior chinês.

George Cao, diretor do Centro Chinês de Controle e Prevenção de Doenãs, questionou a segurança das vacinas americanas por seus desenvolvedores terem usado técnicas novas, em lugar do método tradicional seguido pelos fabricantes chineses.

A China esperava que suas vacinas viessem provar que ela se tornou uma potência científica e diplomática. O país continua em pé de igualdade com os Estados Unidos em termos do número de vacinas aprovadas para uso emergencial ou que estão com ensaios clínicos em estágio final. 

A Sinopharm, fabricante de vacinas pertencente ao Estado, e a Sinovac disseram que juntas podem produzir até 2 bilhões de doses neste ano, o que as torna essenciais no combate global ao coronavírus.

Diferentemente das vacinas da Pfizer e Moderna, suas doses podem ser mantidas em temperatura normal de geladeira e são transportadas mais facilmente, características que as tornam atraentes para o mundo em desenvolvimento. Elas vêm sendo distribuídas como assistência humanitária em países como Paquistão e Filipinas.

Mas a campanha da China é cercada de dúvidas. O problema mais recente vem sendo o atraso no envio de vacinas a países como o Brasil e a Turquia.

Na Turquia, o governo prometeu inicialmente que 10 milhões de doses da vacina Sinovac chegariam em dezembro. Chegaram apenas 3 milhões de doses e no início de janeiro, segundo o ministro da saúde, Fahrettin Koca. 

Ele não explicou os motivos do déficit, que suscitou críticas de políticos da oposição. As doses remanescentes chegaram finalmente na segunda-feira, segundo a agência de notícias estatal Anadolu.

Em comunicado à imprensa, o Ministério do Exterior chinês citou as necessidades do próprio país, onde o coronavírus reemergiu.

"A demanda doméstica por vacinas está enorme na China no momento", disse o comunicado. "Ao mesmo tempo em que atendemos a demanda interna, estamos superando dificuldades, analisando e experimentando maneiras de desenvolver cooperações internacionais com outros países para a produção de vacinas, especialmente cooperações de diferentes tipos com países em desenvolvimento, oferecendo suporte e assistência conforme as necessidades deles e dentro de nossa capacidade."

Às vezes os surtos esporádicos do vírus também dificultam a produção. A Sinovac disse online na sexta-feira que está procurando pessoal para trabalhar em uma fábrica na região de Pequim onde um surto do coronavírus afastou potenciais funcionários.

Países como Turquia e Brasil estão lançando seus programas de imunização com a vacina da Sinovac porque as empresas ocidentais não conseguem entregar vacinas tão prontamente. Mas os esforços no Brasil também estão atrasados. O ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, disse que a China não está processando com rapidez suficiente os documentos necessários para exportar matérias-primas ao Brasil.

Outras vacinas estão começando a preencher a lacuna. O Ministério da Saúde brasileiro anunciou na quinta-feira, 21, que uma carga previamente atrasada de 2 milhões da vacina Oxford-AstraZeneca chegaria da Índia no dia seguinte.

O mundo foi pego de surpresa com a revelação de que a vacina Sinovac pode não ser tão eficaz quanto se pensava anteriormente. Autoridades turcas haviam dito inicialmente que os ensaios realizados no país indicavam índice de eficácia de 91% da vacina. Na Indonésia, o resultado foi 68%. No Brasil, pesquisadores atribuíram eficácia de 78% à vacina da Sinovac.

Mas em 12 de janeiro, depois de serem incluídas pessoas que apresentaram sintomas leves, cientistas disseram que a vacina tem índice de eficácia de pouco mais de 50%. Esse nível é apenas um triz acima do limiar definido pela Organização Mundial de Saúde para que uma vacina seja considerada eficaz.

Em entrevista coletiva à imprensa na semana passada o executivo-chefe da Sinovac, Yin Weidong, reiterou que a vacina é 100% eficaz na prevenção de casos graves de covid-19. Disse que o índice de eficácia mais baixo é fruto do fato de o ensaio ter enfocado profissionais de saúde, que têm uma probabilidade mais alta que a população geral de contrair a covid.

Em Hong Kong, região administrativa especial da China que encomendou 7,5 milhões de doses da vacina Sinovac, as autoridades não receberam um pedido de distribuição emergencial nem dados da empresa chinesa.

“Ainda não sei se é porque a empresa não está produzindo doses suficientes ou se ela não tem planos de enviar as vacinas a Hong Kong por enquanto”, disse Lau Chak Sing, que dirige um painel de assessoria do governo de Hong Kong sobre as vacinas contra a covid-19.

A divulgação de dados também vem sendo um problema nas Filipinas, que obteve 25 milhões de doses da vacina Sinovac. A deputada oposicionista Risa Hontiveros disse que o governo de Rodrigo Duterte “continua a enfiar sua preferência por vacinas chinesas goela abaixo da população, sem aprovação para uso emergencial e com dados inconsistentes”.

A senadora e líder oposicionista Leila de Lima, que está na prisão, se disse indignada com o fato de o governo estar pagando US$ 61 por dose, mais do dobro do que a sócia da Sinovac na Indonésia está pagando. O palácio presidencial disse que o preço foi exagerado, mas que um acordo de sigilo não lhe permite divulgar o preço real.

Apesar das incertezas, muitas pessoas talvez tenham pouca escolha. “Eu tomarei a vacina”, disse Kayihan Pala, membro do conselho de monitoramento da covid-19 do Conselho de Medicina da Turquia. “Estou esperando minha vez. Não há outra opção.”

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