A China tem de expurgar Mao

O culto à ao líder comunista, morto em 1976, é um dos maiores obstáculos às transformações sociais no país

GAO , WENQIAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2013 | 02h01

O dia 23 de dezembro de 2013 marcou o 120.º aniversário de Mao Tsé-tung, fundador da República Popular da China, mas as celebrações de seu legado são um alarmante lembrete de que o país ainda tem um longo caminho a percorrer para entrar na liga das nações modernas.

O presidente Xi Jinping ordenou que as comemorações fossem "solenes, austeras e práticas". O Grande Salão do Povo, em Pequim, sede do Poder Legislativo, organizou um concerto de canções revolucionárias para 10 mil pessoas. Essas exibições calorosas ocorreram em todo o país.

A terra natal de Mao, Xiangtan, na Província de Hunan, gastou US$ 2,5 bilhões em eventos públicos para celebrar o líder. Na cidade meridional de Shenzhen, uma estátua de ouro de Mao sobre um pedestal de jade, que custou US$ 16,5 milhões, acabou de ser inaugurada.

Não surpreende que os líderes chineses tenham resolvido homenagear Mao com tanta pompa. Nas décadas que se seguiram ao estabelecimento da República Popularda China, em 1949, o culto à personalidade de Mao foi a pedra fundamental do sistema de partido único. Sob o comando do poderoso sucessor, Deng Xiaoping, o culto a Mao arrefeceu - e foram permitidas críticas limitadas aos seus piores desastres. O regime chinês começou a ter como base o consenso: não democrático, com certeza, mas guiado pelo Comitê Permanente do Politburo e não pelos caprichos de uma única pessoa.

Agora que a economia está se desacelerando, porém, os líderes chineses consideraram necessário defender o monopólio de poder do Partido Comunista invocando a história "gloriosa" do país - usando a memória de Mao como sua mais poderosa ferramenta. Mas, com um legado encharcado de sangue, por que Mao continua a ter tanta influência sobre boa parte da população? Por que seu retrato ainda adorna o Portão da Paz Celestial, na Praça Tiananmen?

A principal razão, ironicamente, é econômica. Mao foi um ideólogo comprometido com a transformação social e política, mas não entendia nada dos fatores que contribuem para o crescimento econômico. A "reforma e abertura" que Deng começou, no fim dos anos 70, após a morte de Mao, trouxe um crescimento econômico sem precedentes, mas também ampliou desequilíbrios na distribuição da riqueza e uma desigualdade crescente. Isso, combinado com um desrespeito ao direito à terra, fez muitos camponeses e operários se sentirem impotentes em meio à transformação econômica vertiginosa, à migração interna e à poluição sufocante.

Tudo isso fez muitos chineses sentirem saudade do esquerdismo da era de Mao - quando a "tigela de arroz de ferro" (garantia de emprego, renda e benefícios sociais), um cargo numa empresa estatal ou numa agência do governo - garantia emprego vitalício. Hoje, as proteções sociais, do seguro-saúde às aposentadorias por idade, erodiram, deixando os idosos cada vez mais desamparados.

A taxa de crescimento da China ainda é motivo de inveja, mas está caindo. Isso se manifesta na forma de insatisfação: cerca de 180 mil "protestos de massa" foram registrados na China em 2010. Os chineses comuns tentam ir para Pequim entregar petições buscando a correção de injustiças e corrupção. Querem equidade econômica e estado de direito.

Bo Xilai, o político de alto escalão preso por corrupção, mostrou a extensão do apelo atual do maoismo. Antes de sua queda, ele liderou uma campanha de renascimento maoista na cidade de Chongqing, no sudoeste do país, conclamando o público a cantar canções da era Mao e prometendo políticas sociais populistas, como o aumento de moradias públicas. Xi e os líderes atuais podem ter expurgado Bo, mas, em vez de desautorizar suas táticas maoistas, eles as absorveram.

Xi não tem a menor intenção de seguir o modelo econômico de Mao. Uma recente conferência de alto nível do partido afirmou a primazia das forças de mercado sobre a economia. Ao mesmo tempo, ele não deixou de invocar o legado de Mao para fins políticos. Em um discurso em janeiro aos membros escolhidos recentemente para o Comitê Central do partido, ele disse que a era revolucionária, de 1949 a 1979, não deve ser contraposta à era de reforma depois de Mao. Xi começou uma campanha de "retificação" contra a corrupção e chegou a reviver a prática maoista da "autocrítica" - por enquanto, com limitado sucesso.

No entanto, invocar Mao é um caminho não recomendável para Xi - e para toda a China. E se surgir outro político carismático e conturbador como Bo dentro do partido? Xi seria obrigado a se colocar à esquerda desse político? Poderia haver uma nova Revolução Cultural?

Deng, que foi autoritário na política, mas liberal na economia, comandou a avaliação oficial do legado de Mao, culpando-o pelo "erro" da Revolução Cultural, mas ressaltando que suas contribuições "imortais" para a China se sobrepunham aos seus equívocos. Apesar de Deng alterar radicalmente as políticas de Mao, ele permitiu que o mito persistisse.

Foi uma tentativa constrangedora de deixar o passado para trás, mas chegou a hora de abalar o mito. O culto a Mao é o maior obstáculo atual à transformação social na China. Olhar para trás afastará o país do que ela hoje precisa: uma verdadeira reforma política. A China precisa adotar o estado de direito, não a ilegalidade capaz de conduzir a uma Revolução Cultural moderna. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É ANALISTA POLÍTICO CHINÊS,

INVESTIGA DIREITOS HUMANOS NA

CHINA E EMIGROU PARA OS EUA EM 1993

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