A China trapaceia, e o endurecimento de Trump pode ser a saída

Relatório enviado ao Congresso americano mostra como a China deixou de implementar reformas econômicas prometidas e usa meio formais e informais para impedir empresas estrangeiras de competir no mercado chinês

Fareed Zakaria / W. Post, O Estado de S. Paulo, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2018 | 05h00

Desde a saída recente de dois altos assessores, a Casa Branca parece ter ficado mais caótica. Mas, em meio ao tumulto, aí incluídos ensandecidos tuítes sobre a Amazon e o México, sejamos francos: Donald Trump está certo – a China trapaceia. Muitos documentos do governo Trump são ridículos e amadorísticos. Mas um relatório do US Trade Representative (USTR) ao Congresso, sobre o comprometimento da China com as regras de comércio, é uma exceção que vale a leitura. 

Numa linguagem comedida e com detalhes, mostra como a China deixou de implementar reformas econômicas, recuou em outras e usa meios formais e informais para impedir empresas estrangeiras de competir no mercado chinês. O relatório aponta que o governo chinês aumentou a intervenção na economia, visando particularmente a empresas de fora – contradizendo os compromissos que assumiu ao ingressar na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 2001.

A ser aceita a conclusão do USTR de que “os EUA erraram ao apoiar a entrada da China na OMC”, fica claro que a expectativa de que Pequim continuaria a liberar seu mercado comprovou ser enganosa. Washington abordou a entrada da China no sistema de comércio do mesmo modo que abordou a de outros países que ingressaram em meados do século 20. À medida que eram admitidos, o mundo livre (especialmente os EUA) abria seus mercados para os novatos, que, em contrapartida, reduziam as barreiras para o ingresso dos outros nos seus. Foi o que aconteceu com Japão, Coreia do Sul e Cingapura. Esses países, porém, tinham duas características que os distinguiam: eram relativamente pequenos no quadro da economia mundial e viviam sob a proteção do guarda-chuva de segurança americano.

Os dois fatores significavam que Washington e o Ocidente exerciam um poder considerável sobre os novos parceiros. Cingapura tinha 2,2 milhões de habitantes e um PIB de US$ 19 milhões quando se uniu ao Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt, precursor da OMC), enquanto a Coreia do Sul, com 30 milhões de habitantes, tinha um PIB de US$ 41 bilhões. O Japão era maior, com 90 milhões de habitantes e um PIB acima de US$ 800 bilhões (todos os PIBs corrigidos pela inflação).

Então veio a China. Tinha 1,3 bilhão de habitantes e um PIB de quase US$ 2,4 trilhões ao entrar para a OMC. Era quase um quinto da economia dos EUA. Os chineses pareciam calcular que o tamanho de seu mercado garantiria acesso aos outros e permitiria trapacear. A segurança chinesa nunca dependeu de Washington. A China entrou em guerra contra forças americanas nos anos 1950, com relativo sucesso, e tornou-se potência militar.

A escala e a velocidade da integração da China no sistema mundial tiveram força de um terremoto. O conceituado economista David Autor publicou, com dois colegas, estudos sobre o chamado “choque chinês”. Concluíram que a perda de um quarto de todos os empregos na indústria manufatureira americana entre 1990 e 2007 podia ser explicada pelo dilúvio de importações chinesas. Nada nessa escala havia ocorrido até então. 

Hoje, a China conseguiu bloquear ou enquadrar as empresas de tecnologia mais bem-sucedidas do mundo – do Google ao Facebook e à Amazon.

Bancos estrangeiros operam com parceiros locais que não entram praticamente com nada. Industriais estrangeiros são forçados a compartilhar tecnologia com sócios chineses, que então, usando engenharia reversa, fabricam os mesmos produtos e competem com os parceiros. E há a pirataria cibernética. A maior guerra cibernética de uma potência estrangeira contra os EUA não é movida pela Rússia, mas pela China. O alvo são as empresas americanas, cujos segredos e propriedade intelectual vão para concorrentes chineses.

A China não está sozinha. Países como Índia e Brasil também trapaceiam. Na verdade, a última série de negociações mundiais, a rodada Doha, morreu por obstrução do Brasil e da Índia, em sintonia com a China. A maior ameaça hoje à economia mundial aberta vem desses países grandes, que optaram por manter economias mistas, recusam-se a liberar mais e têm poder suficiente para resistir a pressões. 

Trump pode não ter escolhido o caminho mais inteligente – focando-se no aço, aumentando tarifas, afastando aliados e atuando fora da OMC –, mas sua frustração é compreensível. Administrações anteriores pressionaram privadamente, trabalharam dentro do sistema e mantiveram aliados a bordo, com resultados limitados. O endurecimento com a China é um caso em que estou pronto a dar crédito aos métodos não convencionais de Trump. Nada mais funcionou. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

* É COLUNISTA

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.