Ivor Prickett/The New York Times
Ivor Prickett/The New York Times

A cidade iraquiana que virou o cemitério do Estado Islâmico

Com poucos funcionários municipais, Mossul usa lixeiros para recolher corpos que infestam a cidade, um ano depois da batalha por sua retomada

Ivor Prickett, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

06 Maio 2018 | 21h26

MOSSUL, IRAQUE - Os lixeiros estenderam e abriram cada saco plástico para que o supervisor pudesse fotografar os restos ali dentro, para o caso de algum parente perguntar sobre uma pessoa desaparecida. Parecia improvável que alguém fosse capaz de identificar seus entes queridos a partir dos instantâneos dos celulares, considerando o avançado grau de decomposição dos cadáveres.

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Nenhum DNA foi coletado para identificação futura antes que os corpos fossem enterrados em um buraco à beira de um depósito de lixo nos arredores de Mossul, no Iraque. Funcionários municipais dizem que, desde agosto do ano passado, enterraram 950 corpos fragmentados.

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Desde que foi retomada, a cidade tem lutado para voltar ao ritmo após a volta dos moradores e da expulsão do Estado Islâmico, há quase um ano. Mas Mossul não tem funcionários nem recursos para recolher os cadáveres e desarmar os explosivos espalhados pela cidade. A solução foi alistar lixeiros para ajudar nessa tarefa sombria, um serviço para o qual eles nunca foram treinados.

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No principal depósito de lixo municipal, na periferia leste da cidade, as coisas parecem ter voltado ao normal, apesar do nível de destruição e morte nos últimos anos. Parte dessa normalidade se deve à coleta de lixo. Enquanto os moradores voltam para uma cidade que há menos de um ano se envolveu em intensa guerra, o lixo se acumula e depósitos informais surgem em toda a cidade.

Os corpos que os coletores de lixo recuperam também acabam em um aterro municipal, enterrados em buracos não marcados. Se eles encontram um corpo que pode ser de um civil, e não de um combatente do EI, eles o entregam ao necrotério.

Uma equipe de garis foi destacada para percorrer a parte mais devastada da Cidade Velha, onde os militantes fizeram sua última barricada. O distrito de Maidan, onde os jihadistas do EI foram encurralados e mortos, é agora marcado por uma placa que diz, em árabe: “Aqui está o cemitério do Estado Islâmico”.

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Depois de mais de seis meses em decomposição, é difícil dizer algo sobre os restos mortais. Com cada corpo, no entanto, os garis encontram um sinal revelador que, segundo eles, pode indicar se é ou não um integrante do EI. Uma roupa, uma barba comprida, tênis novos, que, segundo eles, só os combatentes tinham naquele momento na cidade. 

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Numa casa em ruínas, às margens do Rio Tigre, uma sala de difícil acesso estava cheia com mais de 30 corpos empilhados. Ou foram executados enquanto estavam deitados ou foram mortos em outro lugar e jogados lá dentro. Mas não havia ninguém qualificado ou interessado em averiguar o que havia ocorrido com essas pessoas.

Uma vez que os homens encheram o caminhão com quase 20 corpos, era hora de levá-los para o enterro. A menos de 20 minutos de carro do lixão Al-Sahaji, oeste de Mossul, uma escavadeira trabalhava na abertura das valas comuns, onde os corpos seriam enterrados. Um dos cadáveres, o mais intacto, parecia estar segurando os braços à frente do rosto, como se tentasse se proteger. Houve um riso abafado. Os garis brincaram, dizendo que esse militante do EI deveria estar morrendo de medo.

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