Mike Segar/Reuters-15/9/2001
Mike Segar/Reuters-15/9/2001

'A cidade tinha planos para tudo, mas não para algo como aquilo'

Segundo o ex-prefeito, os atentados do 11 de Setembro pegaram Nova York de surpresa e as autoridades tiveram de usar parte dos 23 projetos de segurança para responder à emergência

Jamil Chade / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

Entrevista

Rudolph Giuliani

Nova York não tinha um plano de emergência preparado para um ataque terrorista do porte do 11 de Setembro e a resposta teve de ser montada em meio ao caos e enquanto pessoas morriam. A revelação é do ex-prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, que acabou se transformando em um dos "heróis" daquele dia. Giuliani decidiu que não ficaria em seu escritório tomando decisões. Colocou um capacete e foi para a rua. A caminho do local dos atentados, a primeira torre do World Trade Center desmoronaria. "Isso é a prova do caos no qual estávamos. Eu mesmo estava indo para lá", disse. Nos dias que se seguiram, a popularidade de Giuliani atingiu nível recorde e o ex-prefeito foi eleito personalidade do ano pela Time Magazine e ganhou título de cavaleiro da rainha Elisabeth em Londres. Giuliani havia assumido a prefeitura de Nova York sob o lema de reduzir a violência. Hoje ele admite que não descarta a possibilidade de se candidatar para concorrer à presidência dos Estados Unidos, em 2012.

Giuliani acredita que, apesar dos esforços da luta contra o terrorismo, a ameaça é ainda "muito real" e não se pode imaginar que ela terminou.

Em entrevista ao Estado enquanto visitava Genebra para um recente encontro internacional sobre a África, o ex-prefeito ainda alertou para o risco de um atentado durante os eventos esportivos no Brasil em 2014 e 2016. Sua empresa de consultoria de segurança colabora com a cidade do Rio de Janeiro na preparação dos eventos. A seguir os principais trechos da entrevista:

O sr. acabou se tornando um dos principais protagonistas no dia 11 de setembro de 2001. O que o marcou mais naquele dia?

Lembro-me como se fosse hoje. Foi um caos. Não tinha tempo para entrar em choque. Tínhamos de agir. Sabe, sendo prefeito de Nova York desde 1993, você acha que está acostumado com emergências numa cidade desse tamanho. Mas o que ocorreu no 11 de Setembro foi totalmente diferente.

De que forma?

A realidade é que não tínhamos um plano. A cidade de Nova York achava que estava pronta para tudo. De fato, tínhamos planos para todas as emergências possíveis. Eu mesmo contei. Tínhamos 23 planos de emergência para a cidade. Mas nenhum dava conta de um ataque terrorista de grandes proporções. Tínhamos para incêndio, inundações e tantos outros. Mas não para o que vimos.

E o que o sr. fez?

Primeiro era mostrar que havia uma liderança. Que as autoridades não estavam imobilizadas pelo evento, ainda que tivesse sido de um impacto incrível. Outra coisa que começamos a fazer foi recolher de cada um dos 23 planos o que nos interessava para aquele momento. Tudo foi feito na hora, à medida que as coisas ocorriam.

Onde o sr. estava na hora do atentado?

Na parte sul de Manhattan. Minha primeira reação foi a de mobilizar minha gente para irmos para lá. Isso é a prova do caos no qual estávamos. Eu mesmo estava indo para lá, antes de as torres caírem.

Mas dizem que o sr. ficou sabendo que ela desabaria momentos antes?

Isso foi com a segunda torre. Ficamos sabendo apenas poucos minutos antes.

Dez anos depois, o sr. ainda acredita que sente a repercussão emocional dos atentados?

Certamente. Todos os dias. Obviamente que sinto de diferentes maneiras. Sou uma pessoa mais complexa hoje.

O sentimento dos cidadãos de Nova York mudou depois dos atentados?

Acho que a cidade mudou. O que os bombeiros fizeram naquele dia jamais poderá ser esquecido, ao tentar salvar vidas. Mas devo dizer honestamente que os sentimentos de solidariedade que vimos nos dias depois dos ataques foram de certa forma perdidos hoje.

Muito se fala na reconstrução do Marco Zero, mas até hoje nada foi feito. O que o sr. gostaria de ver naquele local?

Apenas um memorial. Não tem cabimento colocar mais um prédio de escritório lá. Seria um insulto.

Em 2008, o sr. causou polêmica ao indicar que gostaria que investigadores usassem todos os métodos possíveis para obter informações sobre terroristas. Dez anos após aquele atentado, o sr. acredita que a luta contra o terror funcionou e a ameaça é hoje menor?

A ameaça não é menor. Essa é a realidade. Ela continua muito presente. Nova York não foi a única cidade a ser afetada. Madri, Londres e tantas outras conheceram desde então o que é ser atingida por um atentado terrorista. A ameaça não acabou, de nenhuma forma.

O sr. é o consultor do Rio de Janeiro para a segurança da Olimpíada de 2016. Existem riscos também para o Brasil nesse sentido, seja em 2016 ou na Copa de 2014?

Como eu já disse, é necessário assumir que um ataque terrorista que tenha como alvo um dos dois eventos poderia ocorrer. Quando um país vai sediar os Jogos Olímpicos ou a Copa do Mundo, os problemas do mundo são importados para a nação e é isso que vai acontecer no Brasil. Vejo a Olimpíada com um risco maior, já que tem uma imagem de maior universalismo. Organizar esses eventos trará benefícios para a reputação do Brasil. Mas se algo de errado ocorrer, como um ataque terrorista ou um crime, então todo o bom trabalho será destruído. Por isso, a preparação é fundamental.

O sr. será candidato à presidência dos Estados Unidos em 2012?

Vou certamente querer anunciar ao povo americano primeiro.

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