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A cisão sunita e o Irã

Catar depende de um depósito de gás submarinoque divide com Teerã

Gilles Lapouge, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2017 | 05h00

Não é fácil decifrar os mistérios do Oriente Médio. No imbróglio das paixões, interesses, ódios e religiões que fazem dessa região um labirinto em movimento perpétuo, existem algumas verdades perenes. Uma delas é que os árabes se dividem em países sunitas e xiitas.

E repentinamente se desencadeia uma disputa áspera entre dois países árabes sunitas: a Arábia Saudita se opõe ao minúsculo, riquíssimo e ativo Catar. Outras nações árabes - Emirados Árabes Unidos, o Bahrein e Egito - se unem aos sauditas e também condenam o emirado.

Portanto dentro do próprio Islã sunita surge uma fissura. Como a Arábia sunita se põe a bramir contra outro Estado sunita, o Catar? O fato é que há anos as duas capitais têm desavenças. O dinamismo em todas as direções e quase sempre obscuro do Catar irrita os senhores de Riad. Mas só isso não seria razão para uma decisão tão drástica. O comunicado oficial saudita é claro: afirma que a diplomacia do Catar “apoia o terrorismo". 

A acusação de Riad faz rir. Se é verdade que o Catar apoia alguns grupos terroristas, como esquecer que é a ideologia wahabita, que cresceu na Arábia Saudita, que inflama as comunidades mais retrógradas dos países do Golfo e incentiva o terror?Portanto, devemos imaginar que uma circunstância nova explicaria o endurecimento dos sauditas.

Há alguns dias, em 24 de maio, a agência de notícias do Catar divulgou algumas declarações estranhas atribuídas ao emir e referiam-se ao Irã, ou seja, o país líder dos xiitas em toda a região. Segundo declarações do emir, “o Irã é uma potência islâmica regional que não pode ser ignorada”, considerando o Hamas e o Hezbollah “movimentos legítimos de resistência”. O Hezbollah luta ao lado das forças pró-governamentais sírias.

Declarações como essa só poderiam escandalizar os sauditas, que odeiam o Irã, pois sua força ofusca a Arábia Saudita na região. Portanto não foi surpresa o fato de horas depois, o Catar desmentiu as declarações atribuídas ao emir, afirmando que tratava-se de uma provocação. Na verdade, porém, mesmo desmentidas, aquelas observações feitas dizem a verdade, Há anos o Catar trata o Irã, inimigo número um da Arábia Saudita, com muita complacência.

Essa complacência já provocava o furor dos sauditas, mas o país não se manifestava. Por que? Porque Barack Obama estava na presidência em Washington e sua política na direção do Oriente Médio baseava-se numa reaproximação com Teerã, no âmbito do desarmamento nuclear iraniano. A presença de Obama condenava ao silêncio a Arábia Saudita e os emirados árabes. Os países resmungavam, mas não podiam atacar de frente o Catar por ser tão indulgente com o Irã.

Obama foi substituído por Donald Trump e a diplomacia americana para o Oriente Médio mudou. Em 21 de maio, quando de uma reunião de cúpula em Riad, Trump exortou o mundo árabe a se unir contra o extremismo. E para Trump o extremismo é uma noção que engloba tanto o Irã, quanto o Estado Islâmico ou o Hamas.

E como explicar que um país sunita como o Catar se mostre benevolente para com um país que lidera o movimento xiita no Oriente Médio? Tem a ver com a economia: a fabulosa fortuna do Catar depende quase que exclusivamente de um depósito de gás submarino que divide com outro país, o Irã.

Hoje, Trump escolheu Teerã e os aiatolás como principais inimigos no Oriente Médio. Riad portanto não tem mais razões para poupar esses “insuportáveis” cataris. E rompendo as relações com o Catar, a Arábia Saudita na realidade atinge seu velho inimigo, o Irã. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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