‘A classe média baixa está ficando pobre’, diz sociólogo

Coordenador de pesquisa acredita que estagnação no número de indigentes em 5% na Argentina ocorre em razão de ‘bicos’

Rodrigo Cavalheiro - Correspondente Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

12 de abril de 2015 | 03h00

 Entre 2010 e 2011, no primeiro ano do segundo governo de Cristina Kirchner, o porcentual de pobres na Argentina caiu de 29,5% para 24,5%, segundo o Barômetro da Dívida Social Argentina, elaborado pela Pontifícia Universidade Católica (UCA). Para explicar a tendência oposta observada nos últimos três anos, o coordenador do projeto, Agustín Savia, aponta dois fatores: inflação e estancamento econômico.

“Cerca de 1,5 milhão de argentinos de classe média baixa caíram na pobreza nos últimos três anos por isso”, diz Savia, coordenador do Programa de Mudança Estrutural e Desigualdade Social do Istituto Gino Germani, da Universidade de Buenos Aires.

A metodologia utilizada pelo grupo que ele chefia leva em conta o impacto da inflação sobre a cesta básica. Para uma família de quatro integrantes não ser considerada pobre, tem de ganhar mais de 5,5 mil pesos (R$ 2 mil). Se a renda é inferior a 2,4 mil pesos (R$ 834), o quadro é de indigência. A correlação não é reconhecida pelo governo, que deixou de apresentar levantamentos próprios, segundo Savia, desde que o aumento dos preços começou a comprometer os números oficiais. A inflação anual, segundo o governo, é de 18%, enquanto consultorias a colocam em 31%.

Embora a pobreza tenha crescido, segundo a pesquisa, o porcentual de indigentes - a faixa mais miserável, incluída entre os pobres - permaneceu estável em 5%. “O nível de indigência se mantém, mas aumentou o trabalho de indigência. São funções que não são empregos formais, catar lixo ou esmolar, importantes para compensar a inflação. Esse bicos fazem com que não aumente tanto o desemprego”, afirma.

Savia diz que os programas sociais foram essenciais para garantir que essa parcela mais miserável da população não passasse fome. “A transferência direta de renda foi fundamental, mas não deixa de ser um indicador de subdesenvolvimento social. Estamos falando de 25% dos lares dependendo de um programa social para garantir uma renda mínima de subsistência. Isso mostra que o sistema econômico vai mal.”

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