A colcha de retalhos da oposição líbia

Tensão entre rebeldes, divididos por regiões e correntes ideológicas, mostra que será difícil manter unidade na Líbia

David Kirkpatrick e Rod Nordland / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2011 | 00h00

Os combatentes da cidade de Zintan, nas montanhas da parte ocidental da Líbia, controlam o aeroporto de Trípoli. Os de Misrata, o Banco Central, o porto e o gabinete do primeiro-ministro. Com suas pichações, rebatizaram uma das praças da capital de "Praça Misrata". Os berberes da cidade de Yaffran, também nas montanhas, tomaram outro amplo espaço público no centro da cidade, onde picharam "Revolucionários de Yaffran".

Uma semana depois da invasão da fortaleza do ditador Muamar Kadafi pelos revoltosos, grande parte do país continua dividida em feudos, cada um controlado por brigadas praticamente independentes que representam diferentes áreas geográficas. E as inscrições com as quais eles marcam seu território contam a história de uma incipiente crise de liderança na capital líbia.

Os funcionários civis que deveriam ocupar altos cargos no Conselho Nacional de Transição - que se define como um governo provisório com sede na capital - ainda não chegaram. Eles alegam preocupações de segurança pessoal, embora declarem a cidade totalmente segura. Há crescentes indícios de rivalidade entre as várias brigadas que disputam tanto o mérito de ter libertado Trípoli quanto a influência que isso lhes proporcionará.

As tentativas de nomear um líder militar para unificar os bandos de combatentes expuseram as divisões dentro da liderança civil da capital líbia. Trata-se de clivagens segundo as linhas regionais, mas também entre seculares e islâmicos. De acordo com um influente membro do conselho rebelde, esses são apenas sinais que apontam para um persistente "vazio de poder" na liderança civil da capital líbia. Mas a luta pelo poder também revela o desafio que um novo governo provisório enfrentará ao tentar unificar o tão fragmentado panorama político da Líbia.

Divisões. O país era pouco mais do que uma federação de regiões mais ou menos independentes antes de Kadafi chegar ao poder. Sua política de favorecer uns e reprimir outros, que o ajudou a manter o controle sobre a Líbia, não contribuiu muito para acabar com as divisões regionais, étnicas e ideológicas. E os revoltosos que tentam depor Kadafi nunca se organizaram numa força unificada. Os rebeldes das montanhas ocidentais, da cidade costeira de Misrata e da cidade de Benghazi, a leste, lutaram de maneira independente - e muitas vezes se olharam com condescendência mútua.

Agora, Trípoli tornou-se um primeiro teste da capacidade dos revolucionários de acabar com essas divisões, pois, ao contrário de outras cidades líbias libertadas por seus habitantes, Kadafi foi expulso de Trípoli por brigadas de outras regiões e a maioria dos combatentes desses grupos ainda está nas ruas.

Revolução ou jihad? As primeiras medidas para a unificação das brigadas sob um comando comum revelaram divisões latentes entre os líderes rebeldes. Algumas se tornaram evidentes quando a rede de notícias árabe Al-Jazira informou esta semana que um combatente chamado Abdel Hakim al-Hasadi, também conhecido como Abdelhakim Belhaj, foi nomeado comandante de um novo Conselho Militar de Trípoli, que acaba de ser constituído. Vários liberais do conselho de liderança rebelde queixaram-se em particular de que Hasadi foi o chefe do Grupo Islâmico de Luta Líbio desmobilizado, que se rebelou contra Kadafi na década de 90.

Algumas pessoas disseram temer que esse seja o primeiro passo para os islâmicos tomarem o poder. Elas observaram que Hasadi foi nomeado comandante pelos cinco batalhões da chamada Brigada Trípoli - não por uma autoridade civil. E reclamaram da evidente influência do Catar, que ajudou a treinar e equipar a Brigada Trípoli, além de financiar a TV Al-Jazira.

"Esse sujeito não passa de uma criação dos catarianos e do dinheiro deles. Agora estão financiando o extremismo muçulmano", disse outro membro da região ocidental.

Mas, mesclado às preocupações ideológicas, há um grau igual de rivalidade regional no que se refere a quem mais contribuiu para libertar Trípoli. Não só Hasadi é um islâmico, afirmou o membro do conselho, como ele contribuiu menos do que os rebeldes da região ocidental nos combates para conquistar a capital. "As pessoas no lado ocidental estão dizendo: "O quê? Este sujeito? É um lixo! E os nossos principais comandantes?""

Hasadi não pôde ser encontrado para comentar, em parte porque participa de reuniões em Doha, no Catar. Mustafá Abdul-Jalil, presidente do CNT, disse que fazia questão de levar Hasadi a uma reunião com seus aliados da Otan em Doha, para mostrar que, apesar do seu histórico, ele não representa "nenhum perigo à paz e à estabilidade".

Indícios de outro ponto de tensão vieram à tona esta semana, depois da divulgação da notícia de que o primeiro-ministro do conselho, Mahmoud Jibril - que, como Abdul-Jalil, não está em Trípoli -, nomeou um ex-general do Exército líbio, Albarrani Shkal, para chefiar a segurança da capital.

Os combatentes de Misrata, considerados a força mais bem preparada dos revoltosos, recusaram-se a aceitar o novo líder, declarando que ele foi cúmplice da violenta repressão de Kadafi em sua cidade. Em Misrata, cerca de 500 pessoas fizeram uma passeata de protesto até a praça central gritando que a nomeação representaria uma traição ao "sangue dos mártires". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

SÃO REPÓRTERES DO "NEW YORK TIMES"

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