AFP PHOTO / RAUL ARBOLEDA
AFP PHOTO / RAUL ARBOLEDA

'A Colômbia não está preparada para a paz'

Ex-comandante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), diz que colombianos precisam 'desarmar seus corações' para que os guerrilheiros possam ser aceitos pela sociedade

Entrevista com

Elda Neyis Mosquera

O Estado de S. Paulo

23 Junho 2016 | 16h51

CAREPÁ, COLÔMBIA - "Karina" já foi uma aguerrida comandante das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), mas hoje costura uniformes dos militares que ela combateu ferozmente no passado. Reclusa em uma base no noroeste do país, ela considera "absurdo" o conflito em que colombianos matam outros colombianos e pede por reconciliação.

No entanto, Karina acha que "a Colômbia não está preparada para a paz". "Falta que as pessoas desarmem seus corações. E esse é um trabalho árduo que precisa ser feito", opina a ex-combatente em entrevista na Brigada 17 do Exército de Carepá, na região de selva de Urabá, Antióquia, onde no próximo 23 de julho completará sua pena de oito anos de justiça de transição

Elda Neyis Mosquera, que enterrou "Karina" quando se entregou em 2008 para as autoridades depois de 24 anos nas fileiras da guerrilha, tem em seu rosto e em sua alma as marcas de passar metade de sua vida nas Farc. "Me arrependo muitíssimo", diz esta afro-colombiana de 48 anos que perdeu o olho direito em um combate e foi uma das comandantes mais procuradas por sequestro, massacre e extorsão.

Embora admita ter as mãos sujas de sangue, afirma não ser "essa pessoa sanguinária", que cortou cabeças e jogou futebol com elas, ao desmentir enfaticamente essas e outras atrocidades que lhe atribuem.

A seguir, trechos da entrevista com Elda:

- O que acha do processo de paz?

Que deveria ter acontecido há muito tempo. Mas era agora ou nunca. As Farc estavam muito debilitadas, perderam seu norte, deixaram de lutar pelo povo para agredir o povo. E, agora, a Colômbia tem que estar preparada para um pós-conflito muito duro porque este é um país burguês e as Farc querem o poder. Como não conseguiram pelas armas, tentarão pela política. E, neste ponto, vai haver muito derramamento de sangue para conseguir o país que as Farc querem, que é um país comunista e socialista, com muitas transformações.

- Imagina os líderes das Farc na vida política?

É isto que eles buscam. Mas vejo a experiência de outros grupos desmobilizados, como o EPL e o M-19, e eles tem pouquíssimas pessoas na política. E os que estão nela, não puderam realmente mudar a vida dos combatentes de patente inferior. Quando me desmobilizei, dizia: 'se o povo me eleger para ser prefeita, talvez eu aceite'. Hoje, digo que não aceitaria porque a política é corrupta. E para uma pessoa fazer mudanças transcendentais ou ajudar a sociedade ela não precisa ocupar cargos políticos.

- Após deixar a guerrilha, tornou-se cristã. Arrepende-se de alguma coisa?

Ah, me arrependo muitíssimo. De ter entrado nas Farc, de ter me deixado levar por essa rebeldia de moça jovem, de todo mal que fiz.

- Tem sangue nas mãos?

Claro que sim. Tomara que Deus me dê vida para ressarcir o dano que causei. A disciplina das Farc levava a gente a cometer erros. E me arrependo de tudo isso. Peço perdão às vítimas. Sabe quando a gente entende tudo isso? Quando a gente está aqui. Quando a gente está na guerra, a gente acha que tudo o que faz é certo, não sabe a dor que causa. As Farc estão me chamando de traidora desde que me desmobilizei, mas o mesmo que fiz há oito anos hoje as Farc estão fazendo. E não negociei nada com o governo. Acho que fiz o correto no momento certo.

- Teme represálias das Farc?

Sim. Mas vamos nos reconciliar, temos que nos reconciliar com os que chamamos de traidores e inimigos. Há oito anos virei inimiga das Farc. Passei 24 anos nas Farc pensando que o Exército era o pior e depois de desmobilizada durei mais dois anos com essa mentalidade. Tenho outra história bonita com as Autodefesas (Unidas da Colômbia, o principal grupo paramilitar surgido para enfrentar as guerrilhas). Eu me reconciliei com o comandante do Bloco Bananeiro, que mandou matar dois irmãos, que sequestrou minha filha. Hoje somos bons amigos.

- Em breve cumprirá sua pena de justiça de transição. Ficará na Colômbia?

Tudo depende das condições do país. Não sei se vão pedir a suspensão da pena este ano, tenho que resolver temas com a justiça comum. Mas para viver tranquila, outro país pode ser uma opção.

- Você é considerada uma sanguinária

Não é assim. Não decapitei pessoas, não joguei futebol com a cabeça dos mortos, não castrei, porque me atribuem tudo isso. Todos os anos da minha juventude enterrei na guerrilha. Se Deus me desse a oportunidade de ficar no país para continuar lutando para que a Colômbia não viva o que eu vivi seria muito maravilhoso. Quando comecei como gestora da paz, pedia aos meios de comunicação que falassem de Elda, não de Karina. Este codinome muitos não esquecem, mas eu já enterrei Karina há muito tempo.

- Gosta de ser gestora de paz?

Sim, assumi este compromisso em 2009. Fiz um plano que foi aceito pelo então presidente Álvaro Uribe para prevenir o recrutamento, trabalhar pela desmobilização, a reconciliação. As pessoas estão nas Farc porque veem na guerrilha sua opção de vida. Até o ano 2005 não via sentido no que uma mãe sentia quando levávamos um filho para a guerrilha. Quando disse ao comandante Iván Ríos que temia pela segurança da minha filha de 14 anos, ele me disse que a tornaria uma guerrilheira. Aí senti uma dor profunda e prometi não voltar a recrutar ninguém.

- A Colômbia não estará em paz até que Uribe e Santos se reconciliem?

Se todos os colombianos vão se reconciliar, o presidente tem que ser o primeiro. O que acontece é que tem gente que não é capaz de perdoar. E eu digo por experiência própria e pela de outros desmobilizados. A Colômbia não está preparada para a paz. Falta que as pessoas desarmem seus corações. E é um trabalho árduo que será preciso fazer. / AFP

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