A comemorada prisão

Ratko Mladic foi preso. De todos os assassinos sérvios que causaram luto na antiga Iugoslávia nos anos 90, ele era um dos mais repugnantes. Mladic não só ordenou o massacre em Srebrenica, de 8 mil bósnios muçulmanos, mas se gabava de tê-lo feito.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2011 | 00h00

Desaparecido durante 16 anos, protegido pelo Exército sérvio e, ao que parece, por alguns serviços ocidentais, enfim o crápula foi detido.

Dizem que é um crápula extenuado. Não importa. Pelo menos foi encontrado vivo. E, sem dúvida, ele tem alguns segredos a contar. Em Haia, sede do Tribunal Penal Internacional da ONU para a ex-Iugoslávia, uma militante sérvia dos direitos humanos comemorou: "Eles não o mataram como ocorreu com Osama bin Laden. Agora, a justiça poderá ser feita".

Para a Europa, essa prisão, mesmo que tardia, foi um grande feito. Ela prova que o Velho Continente, tão doente e desequilibrado, continua fiel aos grandes princípios do Século das Luzes (direitos humanos, justiça, etc.). E confirma que o governo atual da Sérvia, liderado pelo presidente Boris Tadic, está realmente decidido a purgar seu país de seus venenos comunistas, fascistas e racistas.

E, sobretudo, a prisão de Ratko Mladic, e seu provável julgamento pelo tribunal de Haia, extingue um dos obstáculos que impediam a Sérvia de apresentar sua candidatura para integrar a União Europeia (UE).

O comissário da UE encarregado da ampliação da instituição, o checo Stefan Füle, afirmou que "este é um passo histórico na direção da União Europeia". O futuro se reabre. Belgrado espera obter muito rápido, até o fim de 2011, a condição de "candidato à UE", tão logo seja estipulada uma data para o início das negociações.

Podemos esperar também que a prisão de Mladic e o comportamento legal que o governo de Belgrado teve ao longo das últimas semanas (ao contrário dos precedentes) vá permitir um avanço na direção de uma reconciliação entre os diferentes Estados nascidos do desmembramento da ex-Iugoslávia. Sérvia e Croácia, Eslovênia, Kosovo, Bósnia e Montenegro deverão, enfim, superar seus ódios e seus rancores e preparar sua reconciliação.

Nessa perspectiva, vamos acompanhar com uma atenção especial o comportamento da Sérvia com relação a Kosovo, que conseguiu, enfim, sua independência, mas jamais foi reconhecida por Belgrado.

O atual governo de Belgrado tenta levar esse processo adiante: desde março, iniciou um diálogo, ao que parece produtivo, com as autoridades do Kosovo independente, sob a supervisão de Bruxelas.

Ultimamente, a Europa não tem nos alegrado com boas notícias. Mas a prisão de Mladic, o desprezível "açougueiro de Srebrenica", nos trouxe muita satisfação. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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