EFE/MIGUEL GUTI?RREZ
EFE/MIGUEL GUTI?RREZ

A comida voltou às prateleiras venezuelanas, mas a preços inacessíveis

Após anos de ausência até de produtos mais básicos, as prateleiras voltaram a se encher de bens importados, como maionese e margarina brasileiras, ou café e arroz colombianos. Mas essa nova abundância tem preço

Fabiola Zerpa e Nathan Crooks / BLOOMBERG, O Estado de S. Paulo

29 de outubro de 2016 | 05h00

Uma coisa estranha começou a aparecer nas lojas de alimentos da Venezuela: comida. Após anos de ausência até de produtos mais básicos, as prateleiras voltaram a se encher de bens importados, como maionese e margarina brasileiras, ou café e arroz colombianos. Mas essa nova abundância tem preço. E muitos não podem pagá-lo. “Há óleo e pão, mas os preços são proibitivos”, queixou-se Verónica Parra, uma professora que fazia compras no leste de Caracas. “Ganho acima do salário mínimo, mas tenho de limitar o que compro.”

Sem anunciar nenhuma mudança formal na política, o governo da Venezuela começou a desistir de impor o controle de preços ao comércio privado. O governo determina aos fornecedores que vendam metade de seus produtos ao sistema estatal de distribuição, conhecido por Clap, que fornece alimentos subsidiados aos pobres. O restante pode ser vendido a preços que os comerciantes estabelecerem.

“Está em curso uma correção de preços”, disse Asdrúbal Oliveros, diretor da consultoria econômica Ecoanalitica, de Caracas. “Não houve nenhuma reforma econômica, mas o governo tem ignorado os controles antes aplicados à importação de itens não essenciais.”

Está ocorrendo um duplo sistema de compras, segundo Oliveros: o governo supre estabelecimentos estatais com produtos adquiridos à taxa de câmbio de apenas 10 bolívares por dólar; e, ao mesmo tempo, o setor privado abastece suas prateleiras usando dólares adquiridos a uma segunda taxa, conhecida como Simadi, de cerca de 660 bolívares por dólar, ou ao câmbio ainda mais alto do mercado paralelo.

O alívio de ver alimentos de volta às lojas pode não durar muito se a espiral de preços continuar ascendente, disse José Antonio Gil, diretor da Datanalisis. “Será uma política de vida curta, pois menos de 20% da população pode pagar preços internacionais.”. Para o governo, isso significará “mais perda de popularidade, mais pressões para mudar o presidente e mais empobrecimento da população”.

O preço de uma cesta de alimentos para uma família de cinco pessoas subiu para 262.664 bolívares em agosto, 658% em relação ao mesmo mês de 2015. A inflação anual de certos alimentos passou de 2.000%. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

SÃO JORNALISTAS

Mais conteúdo sobre:
VenezuelaCaracas

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.