A conexão francesa

Hollande não parecia um aliado dos EUA antes de ser eleito, mas surpreendeu muita gente

James Stavridis & Leo Michel*, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2014 | 02h05

A visita de Estado do presidente François Hollande a Washington concentra-se substancialmente em assuntos de segurança internacional. A Europa é o "principal parceiro" na busca da segurança global, estabelece o manual estratégico do Pentágono. Mas, por todo o continente, as tensões econômicas e a desilusão com as intervenções militares vêm corroendo a vontade política e os investimentos necessários para manter e mobilizar forças. Portanto, os EUA têm nítido interesse em apoiar um aliado que vem lutando contra essas tendências.

Antes da sua eleição, em maio de 2012, Hollande não aparentava ser um candidato que despertaria atenção da Casa Branca e do Pentágono. Seus companheiros do Partido Socialista - incluindo o chanceler Laurent Fabius - criticaram duramente o predecessor de Hollande, o ex-presidente Nicolas Sarkozy, por reintegrar a França na Otan, depois de 43 anos de afastamento. Durante sua campanha, Hollande prometeu retirar todos os 3,4 mil soldados franceses do Afeganistão no fim de 2012. Sob o comando de Sarkozy, os franceses eram o terceiro maior contingente europeu, depois de britânicos e alemães - com frequência, assumiram missões difíceis.

Como presidente, Hollande optou por um caminho pragmático que se coaduna perfeitamente com os interesses estratégicos dos EUA. Os gastos franceses com defesa despencaram com a inflação e parte do potencial militar convencional foi reduzida. No entanto, novos aviões e helicópteros, aviões de abastecimento em voo e também os drones Reaper, construídos nos EUA, agora integram suas forças. Sua capacidade de dissuasão nuclear está protegida.

Hollande não hesitou em enviar suas forças militares para a África. Em janeiro de 2013, ordenou ataques aéreos e enviou 4,5 mil soldados para o Mali para combater os extremistas afiliados à Al-Qaeda que ameaçavam áreas do país. Em dezembro, enviou 1,6 mil soldados para impedir que a República Centro-Africana descambasse para uma brutal guerra civil.

Os números parecem modestos, mas são compromissos importantes e arriscados, envolvendo aproximadamente a mesma quantidade de tropas e equipamentos que os EUA mantêm no Afeganistão. Em ambos os casos, os EUA rapidamente ofereceram suporte político e ajuda prática, incluindo inteligência, para as forças francesas e o transporte aéreo das forças de manutenção de paz da União Africana (UA).

A cooperação militar entre americanos e franceses estendeu-se para outras regiões também. Uma frota de porta-aviões americanos e franceses fez recentemente um treinamento conjunto no Golfo de Omã, para tranquilizar Estados do Conselho de Cooperação do Golfo, preocupados com o Irã.

Muita coisa mais pode ser feita para reforçar os vínculos com a França no campo da defesa. E, melhor ainda, isso pode ser realizado ao mesmo tempo em que se fortalece o "relacionamento especial" com a Grã-Bretanha. No plano internacional, consultas trilaterais informais entre autoridades e altas patentes militares americanas, britânicas e francesas não constituem uma novidade. No entanto, as recriminações mútuas, em meados do ano passado a respeito de suas respectivas "linhas vermelhas" e da respectiva prontidão para lançar ataques militares contra a Síria, mostram que há espaço para aprimorar resposta às crises.

Logicamente, a cooperação trilateral deveria complementar os tratados de Lancaster House, de 2010, nos quais Paris e Londres lançaram um ambicioso programa bilateral para a criação de uma Força Expedicionária Conjunta, compartilhamento de laboratórios na área de armas nucleares e parceria na produção de futuros sistemas de combates aéreos e mísseis antinavio. É verdade que, às vezes, a França pode ser um parceiro difícil, mas o fortalecimento da "entente pragmática" dos EUA com seu aliado mais antigo poderá desenvolver toda a aliança transatlântica.

*James Stavridis é almirante da reserva da marinha americana e leciona na Escola de Direito e Diplomacia da Universidade Tufts. Leo Michel é pesquisador do Instituto Nacional de Estudos Estratégicos e especialista em temas de defesa e segurança.

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