A conexão Venezuela

Até dezembro, Leamsy Salazar Villafaña era um fiel guarda-costas, a serviço de Diosdado Cabello, o presidente da Assembleia Nacional venezuelana. Hoje ele é um homem-bomba, pronto para estilhaçar a carreira do segundo homem mais poderoso do país e - dependendo do que falar à Justiça americana - o que ainda restar da marca da revolução bolivariana, também.

MAC MARGOLIS*, O Estado de S.Paulo

01 de fevereiro de 2015 | 02h01

Há uma semana, Salazar saiu de sua lua de mel na Espanha para os Estados Unidos, onde ele pediu guarida do programa de proteção às testemunhas. Já em Washington, falou com o jornal espanhol ABC e saiu do anonimato. Contou que Cabello costumava despachar cocaína com a mesma autoridade que mandava na legislatura bolivariana. Além de guarnecer seu soldo, seu ex-patrão teria atuado como chefe do Cartel de los Soles, afamado grupo criminoso com suposto envolvimento de militares venezuelanos de alta patente.

Salazar disse ser testemunha ocular de crimes escancarados, por exemplo quando Cabello "pessoalmente" despachava carregamentos da droga, às vezes abordo de aviões da PDVSA, a petrolífera estatal. De quebra, a PDVSA, com sua contabilidade opaca, teria servido de lavanderia para o dinheiro do narcotráfico, afirmou ao jornal.

O chefe financeiro da empreitada? Seria nada menos que o irmão do homem forte do chavismo, José David Cabello. O esquema ainda contaria com a anuência e cobertura de autoridades cubanas.

Para o governo de Nicolás Maduro, tudo não passaria de intriga dos suspeitos de sempre: a "direita internacional", dedicada a desacreditar um filho da "revolução" chavista. Cabello prometeu processar o ABC por danos morais. O deputado governista, Pedro Carreño, inovou: traficante mesmo, acusou, não seria Cabello, mas o líder oposicionista, Henrique Capriles Radonski, o governador do Estado de Miranda.

Ou seja, nada de novo no reinado febril do chavismo. Mas a ópera bufa bolivariana não ofusca o enredo maior. Embora nunca tenha sido produtor importante de drogas, a Venezuela aos poucos está se tornando elo no tráfico internacional de drogas.

De um lado a cocaína colombiana, do outro, mercados ricos, da Europa e América do Norte. Venezuela entra com a fiscalização frouxa, fronteiras desgovernadas e um próspero mercado negro, ideal para a lavagem de dinheiro. É o ecossistema ideal para a bandidagem transnacional. Aumentou-se sensivelmente o envio de cocaína oriunda da Venezuela para Europa, América Central e EUA, concluiu recentemente o Conselho de Controle de Narcóticos Internacionais, braço investigativo das Nações Unidas. O relatório espelha o do Departamento de Estado americano, para quem a maioria dos aviões carregados de droga sul-americana hoje decola da Venezuela.

No mundo todo, sabe-se que o tráfico aumenta quando a corrupção aumenta e as instituições nacionais fraquejam. Já o caso Cabello - se Salazar conseguir fundamentá-lo - sugere algo mais grave: um governo a serviço do crime. Oficialmente, a Venezuela faz parte da ofensiva global contra o narcotráfico e ostenta diversas apreensões da droga, como também de notórios bandidos. No entanto, chama atenção quem dribla o cerco bolivariano contra a droga. É o caso de Hugo Carvajal Barrios, ex-chefe da inteligência militar chavista, preso em Aruba no ano passado por suspeito de tráfico internacional. Ao ostentar suas novíssimas credenciais de cônsul da Venezuela em Aruba, escapou da prisão e da extradição para os Estados Unidos e voltou como herói a Caracas.

Maduro fará o mesmo para escorar Cabello, seu arquirrival na corte chavista? No palanque, o líder venezuelano repudiou o "ataque vulgar" a Cabello e exortou o país a resgatar a reputação do companheiro martirizado. "Quem trai a revolução, se seca", advertiu.

Como os venezuelanos responderão ao chamado, não se sabe. Para a maioria, o martírio é colocar comida na mesa. Com o nome do n.º 2 do chavismo na folha corrida internacional, quem precisa de resgate é a cúpula da revolução bolivariana.

*É COLABORADOR DA BLOOMBERG VIEW E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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