A confiança é o caminho da paz

Solução de dois Estados só será possível quando israelenses e palestinos acabarem com as fontes de desconfiança mútua

O Estado de S.Paulo

05 de março de 2013 | 02h09

Estes são tempos muito difíceis para se tentar promover a paz entre palestinos e israelenses. A ascensão do Islã político, a guerra civil na Síria e o imbróglio nuclear iraniano não só dominam o atual contexto como o tornam hostil para a conclusão da paz.

Embora todos esses fatores façam com que israelenses e palestinos relutem em assumir riscos pela paz, eles não representam o maior obstáculo para o fim do conflito. O problema fundamental entre israelenses e palestinos é a desconfiança.

Hoje, a maioria de israelenses e palestinos não acredita que a paz seja possível. Não repetirei todos os motivos pelos quais ambas as partes perderam a fé. Basta dizer que os israelenses acham que sua retirada de territórios ocupados, como o sul do Líbano e a Faixa de Gaza, não trouxe nem paz nem segurança. Ao contrário, causou mais violência. Por que, então, eles repetiriam o mesmo erro e se sujeitariam a um risco muito maior, até mesmo para sua própria existência, na Cisjordânia?

Ao mesmo tempo, os palestinos acreditam que as negociações, de 1993 em diante, não só não produziram a independência, como permitiram que os israelenses intensificassem a presença de colonos no seu território. Em palavras simples, nenhuma das partes acredita que a outra esteja empenhada na solução de dois Estados.

Deixando de lado o repúdio explícito desse princípio por parte do Hamas, os israelenses, em geral, estão convencidos de que, quando o presidente palestino, Mahmoud Abbas, e seu partido Fatah falam em dois Estados, eles não se referem a um Estado palestino e judeu chamado Israel. Eles se referem a um Estado palestino e um Estado binacional.

Desconfiança. Por sua vez, os palestinos desconsideram o que os israelenses dizem a respeito de dois Estados e acreditam que os eles jamais aceitarão a independência palestina. O que os palestinos questionam é: se Israel está de fato empenhado na solução de dois Estados, por que constrói assentamentos no que deveria ser o Estado palestino?

Considerando esse contexto de mútua desconfiança, a ideia de que as duas partes agora tomem a iniciativa de acabar com o conflito é mera ilusão. No entanto, esse não pode ser um argumento para não se tomar nenhuma iniciativa. Quanto mais o impasse se arrastar, maior a hipocrisia e menor a possibilidade de alguém, de qualquer uma das duas partes, falar com alguma credibilidade a respeito dos dois Estados.

Se a solução dos dois Estados é desacreditada como resultado, alguma coisa ou alguém, seguramente, preencherá esse vazio. Os islamistas do Hamas, que repudiam os dois Estados, aparentemente, já se preparam para fazer isso. No momento em que eles definirem a identidade palestina, esse conflito, até agora nacional, se transformará em um conflito religioso e, então, não terá mais como chegar a uma solução.

Portanto, o que será possível fazer? É mais importante do que nunca encontrar maneiras para fortalecer e sustentar a Autoridade Palestina, de Abbas. Por mais importante que isso pareça, o fato não conseguirá, em si, modificar uma dinâmica que descarta a paz e desacredita a possibilidade de existência de dois Estados.

Nova agenda. Para tanto, será vital reforçar essa possibilidade e dar aos povos israelense e palestino uma razão para reavaliarem as negociações como meio para chegar à paz. Entretanto, a essa altura, se as negociações recomeçassem amanhã, não passariam de um diálogo de surdos. Eles precisarão de um programa de discussões que possam realmente provocar as mudanças que os cidadãos comuns, de ambos os lados, vejam e sintam.

Proponho uma agenda de 14 pontos. Doze deles - seis do lado israelense e seis do palestino - seriam medidas unilaterais coordenadas que cada parte se disporia a discutir e implementar, desde que o outro lado fizesse a sua parte. Os pontos finais seriam medidas recíprocas que as duas partes tomariam ao mesmo tempo. O objetivo seria acabar com as fontes de desconfiança de ambos os lados a respeito do empenho do outro em alcançar uma autêntica solução de dois Estados. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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