''A confrontação é a razão de existir da Coreia do Norte''

Brian Reynolds Myers. Professor da universidade sul-coreana Dongseo

, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2010 | 00h00

O antiamericanismo e o choque com o mundo exterior são os elementos que garantem a sobrevivência de um regime norte-coreano que continuará a dar prioridade absoluta aos investimentos no Exército e em seu programa nuclear.

A avaliação é do americano Brian Reynolds Myers, professor da universidade sul-coreana Dongseo e autor do livro The Cleanest Race (A raça mais limpa, em tradução livre), no qual sustenta que a ideologia da Coreia do Norte é um nacionalismo racista e de extrema direita inspirado no Japão imperial.

Mesmo que Kim Jong-un, o filho caçula de Kim Jong-il, venha a assumir o poder, a Coreia do Norte continuará a desenvolver um arsenal nuclear e a confrontar os EUA, diz Myers, que vive na Coreia do Sul desde 2002 e dedica-se ao estudo da ideologia, da propaganda e da mídia oficial norte-coreanas. A seguir, trechos da entrevista dada ao Estado:

O sr. espera reformas econômicas na Coreia do Norte?

A Coreia do Norte não pode se reformar economicamente. Para isso, o país teria de parar de investir em armamento nuclear e substituir a orientação "Exército primeiro" por "Economia primeiro". O país não pode fazer isso, porque não há nada que a Coreia do Norte possa fazer na área econômica que a Coreia do Sul não faça melhor. O fato de que Kim Jong-il nomeou Kim Jong-un como general de quatro estrelas torna mais provável a manutenção da mesma tradição de "Exército primeiro" de seu pai.

Qual o papel da China na sobrevivência do regime?

A China é absolutamente crucial para a sobrevivência da Coreia do Norte, que sempre dependeu de ajuda externa. Desde o colapso da URSS, a China foi o único provedor seguro e significativo de ajuda que sobrou. A Coreia do Sul deu ajuda durante dez anos, mas isso mudou em 2008. A China, portanto, é absolutamente vital.

Há algum indício de que a China pressionará a Coreia do Norte para mudar suas políticas?

Pressionar a Coreia do Norte a parar de se armar, a interromper seu programa nuclear e a abandonar a provocação da comunidade internacional não funciona, porque a confrontação e o antiamericanismo são realmente sua única razão de existir. Tirar isso da Coreia do Norte e forçar o país a dar prioridade às questões econômicas é basicamente obrigar o regime a cometer suicídio político. Nós não veremos nenhuma mudança significativa de política sob um sucessor de Kim Jong-il, quem quer que ele seja. Não há muito o que a China possa fazer para convencer a Coreia do Norte a mudar.

Como o sr. define o regime?

Não é comunista linha-dura nem é stalinista. É um regime nacionalista e radical, que deve ser colocado na extrema direita do espectro político. Certamente é uma ideologia muito mais próxima do Japão imperial do que da URSS ou da China de Mao Tsé-tung. A cultura oficial diz aos norte-coreanos que eles são únicos e de sangue puro, com uma linha ancestral que vai a tempos pré-históricos. E eles acreditam que a pureza racial é a fonte da força e da unidade do país. Como é um Estado nacionalista, eles conseguem usar tempos ruins em vantagem própria. Quando as coisas vão mal, a culpa é do malvado mundo exterior. Quando vão bem, isso se deve à sua superioridade racial.

Como os norte-coreanos veem o mundo exterior?

Eles sabem muito mais sobre o mundo exterior do que antes e sabem que a Coreia do Norte não é tão avançada economicamente.

Eles percebem isso porque veem a Coreia do Sul e a China nos aparelhos de TV que são contrabandeados. Eles assistem a séries sul-coreanas em DVDs e sabem que os sul-coreanos e chineses vivem melhor do que eles. Mas ainda acreditam que seu sistema é melhor, porque tem a missão de unificar racialmente a Península Coreana e expulsar os americanos da região (os EUA mantêm 28 mil soldados na Coreia do Sul). Para eles, as dificuldades econômicas são o preço a pagar para o fortalecimento do Exército e a realização do objetivo máximo de unificar o país. Eles são muito orgulhosos do poderio nuclear da Coreia do Norte e acreditam que o mundo inteiro está focado em sua luta.

Por quanto tempo o regime pode sobreviver com o aumento da informação sobre o mundo exterior?

É preciso observar que o nacionalismo é quase impermeável a fontes de informação externas. A Coreia do Sul, por exemplo, é extremamente livre e as pessoas têm acesso a todo tipo de informação.

Mas isso não mudou muito o nacionalismo norte-coreano. Hoje, os sul-coreanos são provavelmente mais antijaponeses do que eram há dez anos. Quando os norte-coreanos perceberem que estão se sacrificando para liberar uma Coreia do Sul que não quer ser liberada, eles começarão a se afastar do regime.

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