A confusa guerra da Turquia

Objetivo oficial é combater o Estado Islâmico no norte da Síria, mas radicais de esquerda e curdos também são atingidos

ISHAAN THAROOR/THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2015 | 02h00

Depois de meses de relativa inércia, o Exército turco entrou em ação no fim da semana, bombardeando posições do Estado Islâmico na fronteira do lado sírio. Mas o grupo jihadista não foi o único alvo da Turquia: caças turcos também bombardearam bases nas montanhas iraquianas do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), grupo curdo proscrito que durante décadas empreendeu uma luta armada contra o Estado turco até um cessar-fogo em 2013.

Essa paz já frágil chegou ao fim e os ataques aéreos turcos foram lançados em meio à violência crescente no país. A polícia turca prendeu mais de mil militantes de esquerda, do PKK, e do Estado Islâmico, mas a grande maioria pertenceria às duas primeiras categorias e não eram jihadistas. Por outro lado, a Turquia firmou um pacto de segurança com os Estados Unidos, permitindo que caças americanos e drones armados usem

a base aérea da Otan em Incirlik. O mapa geopolítico está se complicando de modo que este é um guia sobre quem a Turquia vem combatendo neste momento.

Estado Islâmico.

Durante muitos meses os governos ocidentais e grupos de oposição locais, particularmente as facções curdas estabelecidas no sudeste da Turquia, insistem para o governo de Ancara enfrentar mais agressivamente o EI. O grupo extremista consolidou suas posições em áreas devastadas pela guerra na Síria e no Iraque, em parte com armas, combatentes e dinheiro contrabandeados através da porosa fronteira turca. Alguns críticos acusam o governo de centro-direita do presidente Recep Erdogan de tacitamente permitir ou apoiar o EI, em parte porque seus militantes serviriam como defesa contra facções curdas dos dois lados da fronteira. As autoridades em Ancara, incluindo Erdogan, rejeitam tais acusações. Elas não concordam com a estratégia do governo Obama na Síria. Nas primeiras fases do conflito, Erdogan foi o líder mundial mais contundente em defender a saída do presidente Bashar Assad. Agora, depois de a Turquia aprovar as incursões aéreas americanas saindo da base de Incirlik, uma mudança significativa parece estar em marcha. Notícias de Washington e Ancara concordando com uma zona de segurança do lado sírio da fronteira atendem a uma demanda antiga da Turquia de uma zona de exclusão aérea e uma área segura ao norte da Síria que, entre outras coisas, ajudaria a reduzir o enorme peso de abrigar os refugiados sírios. Depois de um ataque suicida do EI matar dezenas de jovens na cidade de Suruc, na semana passada, a Turquia adotou medidas enérgicas. Lançou ataques aéreos contra alvos do EI e realizou prisões generalizadas de militantes suspeitos.

PKK. Mas

centenas de detidos pertenceriam ao PKK, facção separatista considerada organização terrorista por EUA e Turquia. Caças turcos também atacaram campos do PKK ao norte do Iraque. Os militantes são acusados de atacar a polícia e agentes da segurança turcos na semana passada. O PKK foi criado nos anos 80 para lutar por uma pátria separada para a minoria curda da Turquia, cuja identidade cultural há décadas tem sido reprimida pelo Estado turco. Cerca de 40 mil pessoas morreram em três décadas de hostilidades até que em 2013 foi anunciado um cessar-fogo por Abdullah Ocalan, líder do PKK na prisão. Mas uma frente mais radical, frustrada com um processo de paz ineficaz, pressiona pelo confronto.

Segundo as autoridades americanas, os ataques contra o PKK não tiveram nada a ver com a coordenação de Washington para combater o EI. Mas de acordo com as autoridades turcas, a guerra contra o grupo militante e as guerrilhas curdas são parte de uma luta conjunta contra os terroristas na Turquia. Ideologicamente, o PKK não poderia estar mais distante do EI: as raízes políticas do partido são marxistas-leninistas e sua liderança política é tenazmente secularista. Imagens de mulheres combatentes sem véu nas fileiras do PKK e de outras facções curdas são frequentemente apresentadas como sinal da afinidade curda com os valores liberais ocidentais.

Curdos sírios.

As milícias curdas sírias na fronteira com a Turquia afirmam que também foram atacadas pela Turquia e projéteis atingiram um vilarejo sírio controlado por rebeldes do Exército Sírio Livre combatentes curdos das Unidades de Proteção do Povo (YPG), ferindo quatro pessoas. Um funcionário

turco disse à AFP que o YPG "está fora do alvo do atual esforço militar". O YPG, cuja organização política tem vínculos diretos com o PKK, é uma dor de cabeça para o governo turco. Os ganhos territoriais das milícias curdas sírias no ano passado deram asas mais uma vez às aspirações de uma pátria curda.

Centenas de jovens curdos deixaram suas casas para se juntar à luta do YPG na Síria. No mês passado, um porta-voz do Partido da União Democrática, a matriz política do YPG, disse que qualquer intervenção militar da Turquia será interpretada como um ato de agressão por "invasores". Autoridades turcas, por sua vez, afirmam que os curdos sírios são aliados do regime Assad, afirmação recebida com ceticismo por observadores e rejeitada pelos curdos.

Radicais de esquerda.

Um outro grupo atingido pelos ataques turcos é a Frente de Libertação Popular, grupo extremista marxista que no passado realizou atentados contra políticos e a polícia. Também é classificado de grupo terrorista por Washington e foi um dos inúmeros movimentos da esquerda radical alvo da forte repressão em todo o país. Um membro do partido foi morto durante uma das muitas batidas policiais realizadas na sexta-feira. Sua morte desencadeou um fim de semana de distúrbios e confrontos no bairro de Gazi, em Istambul, onde a ira contra Erdogan é profunda.

No domingo um policial foi atingido por tiros durante uma confusão e acabou morrendo. O caos se instala num momento em que os políticos turcos ainda lutam para formar um governo depois que as eleições de junho, em que o partido da Justiça e Desenvolvimento do presidente Erdogan perdeu a maioria parlamentar, pela primeira vez em uma década. O partido perdeu dezenas de assentos para o Partido Democrático do Povo, ou HDP, bloco formado por esquerdistas e curdos, alguns diretamente ligados ao PKK.

O líder do HDP, Selahattin Demirtas, acusou Erdogan e seus aliados de atiçar as chamas de uma conflagração nacional e estimular um sentimento anti-curdo antes de novas eleições. "Um governo temporário com um primeiro ministro temporário vem arrastando o país progressivamente para uma guerra civil", disse Demirtas.

/ TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É COLUNISTA

 

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