A conquista de Timbuctu

Em cinco colunas, na primeira página do jornal mais sério e de maior prestígio da França, Le Monde, lemos a manchete: "O Exército francês toma Timbuctu". Esfregamos os olhos. Verificamos a data, 28 de janeiro de 2013: não se trata do século 19, quando os soldados da França arrancavam pedaços de países, dos desertos e das florestas na Ásia e, principalmente, na África. É uma estranha impressão, uma espécie de "distração" da História.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2013 | 02h10

Evidentemente, é uma ilusão. A França não está recomeçando as antigas invasões do império francês. Um império já foi suficiente! O socialista François Hollande disse corretamente, antes de se lançar à reconquista do Mali, que a "França-África", a campanha colonialista francesa no continente africano, acabou, irrevogavelmente.

Os paraquedistas franceses conquistaram Timbuctu com a finalidade exclusiva de ajudar o Mali a escorraçar os ferozes islamistas da Al-Qaeda do Magreb Islâmico (AQMI), do Ansar Dine e do Mujao, que se apoderaram da metade norte do imenso país, onde instituíram, particularmente em Timbuctu, a abominável justiça islâmica, a sharia.

Portanto, a França tomou Timbuctu. Em duas semanas, os soldados subiram cerca de 1.500 quilômetros rumo ao norte do Mali. E agora? Agora, mistério.

Até aqui, os integrantes da Al-Qaeda não ofereceram resistência. O que foi feito deles? Ninguém sabe. Eles abandonaram as cidades nas quais fizeram reinar sua fúnebre lei. Alguns morreram, mas a maioria desapareceu. Foram riscados. Apagados. Para onde foram? Sumiram no vazio, no silêncio, na ausência! E quem sabe foram fazer a guerra no vazio, no silêncio, na ausência! Portanto, não devemos acreditar que a tomada de Gao e de Timbuctu assinale a vitória e a paz. Lembremos que, no Iraque, as legiões de George W. Bush esmagaram as tropas de Saddam Hussein em poucas semanas. Mas, assim que Bush começou a se gabar, teve início uma nova guerra, mais selvagem, que enlouqueceu o poderoso Exército americano: atentados suicidas, emboscadas, etc.

Devemos temer que uma reviravolta do gênero possa ocorrer. A imensidão do norte do Mali permite que pequenos grupos desapareçam, como as miragens, e ataquem repentinamente. Há o medo de atentados suicidas. Evidentemente, existe uma diferença: no Iraque, o Exército americano era detestado pelos iraquianos. No Mali, ocorre o contrário: os malineses, aterrorizados pelos islamistas, acolheram os soldados franceses como salvadores.

Mas este não é o único desafio. No extremo norte do Mali, há montanhas recortadas, de picos íngremes. Somente as pessoas do lugar conseguem se orientar nelas. Provavelmente será ali que os jihadistas vão se esconder. Há alguns meses, ele vêm acumulando ali, no fundo de gargantas e de abismos impenetráveis, enormes quantidade de armamento trazido da Líbia. Estas montanhas poderão se tornar um "santuário" islâmico do qual partirão os comandos da morte.

Outro perigo é que o Mali é formado por duas populações. No sul, africanos sedentários. No norte, os tuaregues, que são berberes, e os árabes, de pele branca, nômades. Entre elas impera um ódio milenar. O temor é que, na caótica situação atual, os tuaregues e os árabes sejam perseguidos pelos africanos do sul, e sejam perpetradas antigas vinganças. Uma das tarefas dos soldados franceses consistirá em vigiar para que esta infâmia não ocorra. Um deputado do norte disse ontem: "Quando a morte se dá em nome da cor da pele, o melhor a fazer é partir!". 

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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