Presidential Press Office via REUTERS
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A conturbada situação econômica turca põe o poderoso Erdogan à prova

País enfrentava desvalorização da moeda e inflação de dois dígitos quando foi atingido pela pandemia

Carlotta Gall, The New York Times

29 de dezembro de 2020 | 07h00

ISTAMBUL— Sobrecarregado pelas restrições impostas à sua loja de tabacos, Ozgur Akbas ajudou no mês passado a organizar em Istambul uma manifestação de protesto contra as medidas consideradas injustas, que oneram os comerciantes durante a pandemia.

“Muitos amigos meus tiveram de fechar as portas”, disse em uma entrevista. “E alguns pensam em acabar com a própria vida”.

Os turcos enfrentavam a desvalorização da moeda e uma inflação de dois dígitos quando a pandemia atacou o país em março, agravando consideravelmente uma profunda recessão. Nove meses depois, enquanto uma segunda onda varre a Turquia, há sinais de que uma parcela significativa da população está afundada em dívidas e a fome é cada vez maior.

A MetroPoll Research, respeitada organização de pesquisas de opinião, mostrou em uma recente pesquisa que 25% dos entrevistados afirmaram que não conseguem pagar por suas necessidades básicas. Akbas disse que pode ver isto nos seus clientes. 

“As pessoas estão a ponto de explodir”, afirmou.

Para o presidente Recep Tayyip Erdogan, que este ano chamou a atenção dentro e fora do país com uma agressiva política externa e intervenções militares, a situação chegou repentinamente a uma situação explosiva em novembro.

O governo admitiu ter subestimado as dimensões do coronavírus na Turquia, deixando de registrar os casos assintomáticos. Novos dados revelaram níveis recordes de contágio no país. 

A lira turca foi severamente afetada por uma desvalorização recorde – com uma queda de mais de 30% este ano em relação ao dólar – e as reservas de divisas estrangeiras baixaram de maneira considerável. Além de uma inflação de dois dígitos, a Turquia agora enfrenta uma crise do balanço de pagamentos, segundo informou recentemente o Moody’s Investor Service.

A crise ocorre enquanto Erdogan está prestes a perder um poderoso aliado, já que o presidente Donald Trump deixará o cargo no próximo mês. A Turquia já enfrenta sanções impostas pelos Estados Unidos por causa da aquisição de um sistema russo de defesa antimísseis, e da União Europeia por perfurar em busca de gás em águas reivindicadas por Chipre. Até este mês, Trump tem sido fundamental para evitar novas sanções de Washington.

Erdogan demorou a parabenizar o presidente-eleito Joe Biden por sua vitória. Os analistas acreditam que o governo Biden deverá ser mais rigoroso contra a perigosa situação dos direitos humanos e dos padrões democráticos no governo Erdogan.

Para enfrentar o declínio da economia da Turquia, Erdogan decidiu agir com uma ferocidade que, em geral, costuma ser cuidadosamente oculta. Ele nomeou um novo presidente do Banco Central, e quando o ministro das Finanças, que também é seu genro e herdeiro presumível, renunciou ao cargo alegando divergências, o presidente surpreendeu muitos aceitando a sua renúncia e substituindo-o.

Depois, o presidente prometeu reformas econômicas e judiciais, acenando até mesmo com a possibilidade de conceder a liberdade a prisioneiros políticos – o que alguns do seu partido defendem para melhorar as relações com  Europa e os Estados Unidos.

Em meados de dezembro, Erdogan anunciou um novo pacote de ajuda de três meses para as pequenas empresas e para os empresários. No fim de semana passado, ele entrou em uma padaria para fazer algumas compras, numa demonstração de apoio aos comerciantes.

Mas os críticos descreveram algumas manobras de Erdogan como insignificantes e tardias demais.

O ex-ministro das Finanças, Berat Albayrak, pode ter sido um bode expiatório conveniente – pouco se sabe a respeito do que aconteceu realmente no Palácio Presidencial – mas o fato de ele ter caído dramaticamente em desgraça  e o seu total desaparecimento da vida pública indica uma correção de curso mais séria. Aparentemente o aperto econômico e suas consequências para o próprio destino de Erdogan tornaram-se preocupações gravíssimas.

Mehmet Ali Kulat, que realiza pesquisas de opinião para partidos políticos, incluindo o Justiça e Desenvolvimento de Erdogan, disse que o presidente acompanha assiduamente os resultados.

“Ele observa particularmente como os acontecimentos se refletem na sociedade”, afirmou Kulat. 

Recentes sondagens mostram que o partido de Erdogan caiu para o seu menor ponto nestes 19 anos em que ele está à frente da política turca, chegando a cerca de 30%, segundo a MetroPoll. O número sugere que a aliança do partido com o Partido do Movimento Nacionalista não garantiria a Erdogan os 50% dos votos necessários para ganhar uma eleição presidencial.

“As próximas eleições não serão fáceis”, afirmou Asli Aydintasbas, pesquisadora do Conselho Europeu na área de Relações Exteriores. “Há chances consideráveis de que ele perca a não ser que amplie a sua coalizão ou apele para as pessoas que votaram para a oposição”.

“As suas possibilidades de ser eleito são inferiores a 50%”, ela afirmou. “Por isso, em última análise” a questão é: ‘Ele será esperto o suficiente?’”

A pesquisa da MetroPoll concluiu que a maioria dos próprios partidários de Erdogan e 63% dos entrevistados acreditam que a Turquia tomou um rumo pior do que o recomendável.

Estes dados são comprovados por aquilo que as organizações de ajuda estão vendo concretamente. 

Hacer Foggo, fundadora da Rede para a Grande Pobreza, um grupo de assistência aos camelôs e aos trabalhadores informais, informou que em seus quase 20 anos de trabalho para aliviar a pobreza urbana na Turquia, nunca viu tamanho sofrimento.

Na época dos primeiros fechamentos, em março, ela começou a receber apelos de pessoas solicitando ajuda para alimentar a família. Os camelôs e os catadores de sucata foram particularmente mais afetados.

“Quando eles dizem que não há comida alguma em casa, significa que também não há comida na casa do vizinho”, afirmou. 

Sua organização ajuda 2.500 famílias em Istambul. Ela começou a chorar ao falar de uma mãe que contara que agora o seu bebê está usando fraldas de tamanho menor.

Os problemas econômicos começaram antes da pandemia, afirmou, mas ela culpa os governos locais e o nacional por sua falta de estratégia no combate à crescente pobreza e por não melhorar os serviços sociais.

Na realidade, a espiral econômica começou depois que Erdogan endureceu as medidas no país, inclusive na área econômica, adquirindo novos e amplos poderes por um novo sistema presidencial inaugurado em 2018. Os observadores internacionais afirmam que estas mudanças são a causa principal do alarme a respeito da degringolada econômica do país. / Tradução de Anna Capovilla

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