A Coreia do Norte à mercê da China

A melhor coisa que EUA podem fazer é esperar para ver como Pequim reagirá às mudanças políticas em Pyongyang

O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2011 | 03h07

A Coreia do Norte tal como a conhecemos acabou. O regime não conseguirá se manter unido após a morte de seu líder, Kim Jong-il. Como os EUA reagirão - e, mais importante, como a China reagirá - determinará se a região será estável ou mergulhará no conflito.

A morte de Kim não poderia ter vindo em pior hora. Economicamente quebrado, politicamente isolado e passando fome, o país estava no meio dos preparativos para a transferência de poder para seu filho Kim Jong-un, de menos de 30 anos . O "Grande Sucessor", como foi apelidado pela mídia estatal, está cercado de idosos enfermos e de um corpo militar que se irritou com sua promoção a general de quatro estrelas, em 2010, sem que tivesse servido um dia o Exército. Assim, um sistema não pode se manter.

A transição surge num momento em que os EUA tentam recolocar nos eixos as negociações nucleares. Esse esforço, agora, foi substituído por uma correria por planos para controlar armas nucleares extraviadas, caso o regime entre em colapso. Mas Washington continua impotente.

Qualquer aproximação com o jovem Kim ou outros possíveis competidores pode criar mais problemas durante a transição e seria vista como uma ameaça pela China. Desde o derrame de Kim Jong-il, em 2008, EUA e Coreia do Sul trabalhando em planos de contingência para uma situação como essa, mas todos achavam que disporiam de muitos anos, talvez uma década.

A melhor atitude dos aliados é esperar para ver o que a China fará. Entre os princípios da política externa chinesa está a manutenção de uma Península Coreana dividida e, portanto, a defesa de Pequim da continuidade na Coreia do Norte não surpreende.

Desde 2008, a China se aproximou do regime, defendendo seus líderes e investindo na extração de minério na fronteira.

Mas há uma debate intenso sobre o Norte ser um ônus estratégico. Uma coisa é apoiar um regime fechado, mas estável, com Kim Jong-il. Outra é endossar um líder não testado. Para Xi Jinping, que se tornará presidente da China em 2012, a primeira grande decisão de política externa será livrar-se da Coreia do Norte ou adotá-la como uma província.

Todas as indicações são de que Pequim buscará a segunda opção.

Apesar de alguns observadores acreditarem que a morte de Kim provocará mudanças democráticas, a China trabalha contra essa possibilidade, em especial se esses esforços receberem ajuda de Coreia do Sul e EUA. Como somente Pequim sabe o que se passa dentro da Coreia do Norte, Washington e Seul podem fazer pouca coisa.

Contudo, mesmo os planos mais bem arquitetados da China podem dar errado. A ajuda pode ser pequena ou chegar tarde demais. Um claro canal de diálogo envolvendo EUA, China e Coreia do Sul é mais necessário do que nunca neste momento.

Os três lados deveriam conversar sobre o medo de um colapso da Coreia do Norte, sobre armas nucleares extraviadas, ondas de refugiados, ataques de artilharia.

Nada disso será fácil. Para a China, a incerteza que cerca a Coreia do Norte ocorre no momento em que Obama diz que a Ásia é a nova prioridade estratégica dos EUA.

Isso já criou inseguranças em Pequim que tornarão ainda mais desafiador um genuíno diálogo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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