A ‘corrida do ouro’ na Venezuela

A ‘corrida do ouro’ na Venezuela

Crise econômica cria ‘cultivo’ do ouro virtual em jogos de videogame que podem ser trocados por dólares

The Economist* , O Estado de S.Paulo

24 de novembro de 2019 | 05h00

Corrupção, incompetência e sanções devastaram a indústria petrolífera da Venezuela, a principal fonte de moeda forte do país. Mas a crise econômica venezuelana provocou o crescimento de uma outra fonte de renda: o “cultivo” de ouro virtual no mundo artificial criado pelos videogames. 

Os venezuelanos passam horas em jogos de RPG online e em massa para multijogadores para extrair moedas de ouro (a moeda corrente no jogo RuneScape) ou de cristal (do jogo Tibia). Depois, via sites intermediários, vendem as moedas por dinheiro de verdade para outros jogadores, que as gastam para comprar objetos virtuais, como armas, armaduras e poções mágicas.

Os venezuelanos que jogam RuneScape ganham entre 500 mil a 2 milhões de moedas de ouro por hora, matando dragões e produzindo pedras mágicas. Nas taxas de câmbio atuais, 1 milhão de moedas valem cerca de US$ 0,50. Um fazendeiro de ouro pode ganhar US$ 40 por mês, uma boa quantia em um país onde o salário mínimo vale US$ 7,50. 

Alguns fazendeiros trocam as moedas por Bitcoin que, embora mais volátil do que a maioria das moedas convencionais, é mais estável que o bolívar da Venezuela – a mineração de ouro de verdade, a maioria ilegal, é outra fonte de renda para os venezuelanos desesperados.

“A negociação com o mundo real” não é novidade. Tudo começou nas esfumaçadas salas de jogos da Coreia do Sul no final dos anos 90. Na China, em meados dos anos 2000, cerca de 50 mil “fazendas de ouro” colhiam ouro virtual o tempo todo. Juntos, os fazendeiros ganharam centenas de milhões de dólares não tributados.

Os desenvolvedores de jogos desaprovam. Os fazendeiros de ouro não estão jogando o jogo para valer, dizem eles. Alguns invadem as contas de outras pessoas e roubam seu ouro virtual. O excesso de cultivo de ouro pode causar inflação no jogo – embora seja inferior aos 200.000% previstos pelo FMI para a Venezuela este ano. Alguns fornecedores de jogos gratuitos vendem ouro virtual eles mesmos e não gostam da concorrência de fazendeiros de ouro não licenciados.

Mercado negro

Após seu auge, na década de 2000, o cultivo de ouro diminuiu. Os jogadores perderam um pouco da popularidade. Os desenvolvedores de jogos aprimoraram suas equipes de compliance. O eBay, plataforma onde os jogadores leiloavam bens virtuais, proibiu o cultivo de ouro, assim como a Coreia do Sul. Mais recentemente, porém, os MMORPGs viveram um retorno alimentado pela nostalgia, e os fazendeiros de ouro da Venezuela, assolada pela crise, logo começaram a lucrar.

Sua assiduidade irrita outros jogadores e corrói o poder de compra das moedas de ouro no Mercado Geral, um mercado do RuneScape onde os jogadores podem comprar itens virtuais como carvão, cimitarras e peles de dragão verde (que podem ser transformadas em armaduras). 

Quando a Venezuela sofreu cortes de energia em todo o país neste ano, as vendas desses produtos sofreram uma queda acentuada, pois os “fazendeiros” sem eletricidade não podiam produzir ouro e a escassez de moeda virtual forçou a alta dos preços dos produtos imaginários.

Há dois anos, um usuário do Reddit que se autodenomina “Cerael” publicou um guia racialmente abusivo sobre como matar venezuelanos nos lugares onde ocorre a extração de ouro. Os moderadores removeram a postagem e os comentários extremistas. A Jagex, desenvolvedora britânica do RuneScape, proibiu sites comerciais e intermediários no mundo real. Este mês, a empresa venceu uma ação que fechou dois sites de cultivo de ouro.

Mas a indústria não vai morrer. Embora os desenvolvedores queiram que os jogos sejam competições de habilidade e dedicação, mercados ilícitos se formarão onde houver oferta e demanda – uma verdade ignorada pelos governantes socialistas da Venezuela.

Quando um site intermediário é desligado, um novo aparece para substituí-lo. Os recursos necessários para encerrar as atividades de cada pequeno fazendeiro de ouro venezuelano são grandes e caros demais. Para o desenvolvedor de jogos, não vale a pena gastar tanto tempo “impondo regras nesse nível de granularidade”, diz Edward Castronova, que pesquisa mundos virtuais na Universidade de Indiana.

O recente relançamento de World of Warcraft Classic, a versão original de um popular MMORPG, provavelmente, dará mais um impulso às fazendas de ouro. E, enquanto for difícil ganhar a vida na Venezuela real, muitos venezuelanos trabalharão no mundo da fantasia. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

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