Imagem Mac Margolis
Colunista
Mac Margolis
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A corrosão do poder

"Poder corrompe e poder absoluto corrompe absolutamente". John Emerich Edward Dalberg-Acton não tinha Twitter, mas cristalizou toda uma era de autocracia com seu meme oitocentista. O que diria o Lorde Acton se baixasse hoje na América Latina? Que o poder debilitado tem uma vocação pelo ridículo?

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

08 de fevereiro de 2015 | 02h04

Pense na Argentina. Há mais de um mês a presidente Cristina Fernandez de Kirchner foge dos palanques. Com o pé quebrado, recolheu-se na Quinta de Olivos, sua residência oficial, ou em Santa Cruz, sua terra natal, na Patagônia.

Com o país convulsionado pela morte misteriosa do promotor federal Alberto Nisman - encontrado morto com um tiro na cabeça quatro dias depois de acusar o governo de sabotar sua investigação do pior atentado na história argentina, contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia) - Cristina não deu as caras.

Preferiu comunicar-se à nação via Facebook, onde ela costurou teorias exóticas sobre a morte - primeiro, disse que era suicídio, depois assassinato - de Nisman, como um Sherlock Holmes em dia de cocaína.

Enquanto ela elucubrava da sua poltrona, o porta-voz da presidência, Jorge Capitanich, foi aos holofotes para rasgar um exemplar do jornal Clarín - crítico ao governo -, que publicara no dia anterior a heresia de que o promotor havia esboçado um pedido de prisão contra a presidente. Um dia depois, Viviana Fein, promotora que investiga a morte de Nisman, apesar de negar em um primeiro momento, recuou e confirmou: o rascunho do mandato existia e foi recuperado da lata do lixo do apartamento de Nisman.

Na semana passada, Cristina apareceu em Pequim. Lá, em visita de Estado, conseguiu a proeza de ofender a nação de 1,3 bilhão de pessoas em apenas 140 caracteres. Queriam os chineses "aloz ou petlóleo", gozou do sotaque dos anfitriões em publicação no Twitter.

No campo do absurdo, difícil mesmo é superar Nicolás Maduro. Com inflação anualizada em 64% e os preços congelados fazendo água, a escassez de mercadorias básicas é cada vez mais dramática. A última a rarear é o preservativo importado (não há similar nacional). Uma caixa de 36 unidades é vendida a 4.760 bolívares no site de leilões Mercado Livre. Esse valor equivale a US$ 25 no câmbio paralelo, o que não soa extorsivo, mas representa 85% do salário mínimo venezuelano, de 5.600 bolívares. Assim, um namoro torna-se um jogo de roleta vaticana e o sexo seguro que se dane.

A situação seria apenas um estorvo se a Venezuela não tivesse a quarta maior incidência de aids entre pessoas de 14 a 49 anos da região ou o segundo maior índice de gravidez entre adolescentes da América do Sul. Eis a magia do socialismo do século 21, que converte produtos de sobrevivência em bibelôs para a elite. Frango, papel higiênico, medicamentos, um leito hospitalar: o avanço social bolivariano promulgado pelo falecido Hugo Chávez se desfaz. Um estudo recente coordenado por três universidades venezuelanas mostrou que 48,4% dos domicílios vivem abaixo da linha de pobreza. Há 15 anos, eram 45%.

O Brasil não é Venezuela e ainda se distancia da desgovernada Argentina, mas o escândalo da Petrobrás, que se descortina quase em tons de folhetim, escancara as chagas do país e o calvário da presidente Dilma Rousseff. Nem bem se refez da inconfidência no Congresso, onde a bancada governista puxou-lhe o tapete para estendê-lo ao rebelde Eduardo Cunha, Dilma teve de engolir o motim da Petrobrás, cujos diretores demissionários se recusaram a prestar papel de mortos vivos.

Pressionada pelo mercado - ó, indignidade -, indicou às pressas um nome que julgava agradar companheiros sem afugentar investidores. Com Aldemir Bendine, desagradou todos. Assistiu às ações da empresa despencar e ainda teve que aguentar as ironias sobre o novo presidente, acusado de facilitar um empréstimo a juros bondosos para uma socialite amiga sua com restrição de crédito e sem capacidade comprovada de pagar a dívida.

Fossem todas essas trapalhadas de "paisecos", talvez não merecessem reparos. Acontece que tratam-se de três das maiores economias do continente, uma porção do continente com 280 milhões de pessoas, e talento e riqueza a vontade - logo alí, abaixo da lama.

É COLABORADOR DA 'BLOOMBERG VIEW'

E COLUNISTA DO 'ESTADO'

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.