AP Photo/Aaron Favila
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A corrupção e as drogas nas alfândegas das Filipinas

A guerra contra as substâncias tóxicas promovida pelo presidente Rodrigo Duterte já deixou 7 mil mortos em pouco mais de um ano

O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2017 | 15h41

MANILA - A entrada de mais de meia tonelada de metanfetamina com a suposta conivência do serviço alfandegário causou um forte escândalo nas Filipinas, país imerso na sangrenta guerra contra as drogas promovida pelo presidente Rodrigo Duterte.

"Este trabalho é, para mim, uma missão. Por isso, não vou me demitir", defendeu-se o comissário do Escritório de Alfândegas, Nicanor Faeldon, depois que vários deputados e senadores pediram sua cabeça nesta semana em razão do escândalo.

Duterte, no entanto, reiterou sua confiança no funcionário que ele mesmo colocou à frente do serviço alfandegário para acabar com a corrupção, mas que na verdade está ganhando atenção por um assunto que agitou e indignou o país.

Tudo começou no fim de maio, quando as autoridades apreenderam em uma residência de Valenzuela, norte de Manila, uma carga de 604 quilos de cloridrato de metanfetamina, a droga conhecida como "shabú".

O Senado, que investiga o fato, denunciou nesta semana que a carga de "shabú" - com um valor de US$ 120 milhões - tinha entrado no país pela via expressa. O canal especial é reservado a importadores e empresas, sob supervisão do Escritório de Alfândegas, e não requer inspeção por raios X.

Dessa forma, cinco enormes cilindros metálicos etiquetados como "utensílios de cozinha" e contendo o dobro do seu peso em drogas passaram diante dos olhos dos agentes da Alfândega e chegaram a seu destino, onde finalmente foram apreendidos pela polícia e pela Agência Antidrogas graças a uma delação.

A carga não só descumpria o principal requisito da via expressa - seu importador não estava registrado nas Alfândegas -, como também vinha da China, país vetado para este canal especial, razão pela qual o Senado e o Congresso denunciaram a conivência de altos funcionários.

"Está claro que na permissão de entrada desta carga está envolvido o escritório de Alfândegas e sabe-se lá quem mais", denunciou na audiência desta semana Franklin Drilon, um dos 24 senadores da Câmara alta que ostenta amplos poderes na Filipinas.

Para piorar, descobriu-se que o Escritório de Alfândegas manipulou a carga após ser apreendida, apesar de carecer de autoridade, descumprindo todos os protocolos.

"A carga foi contaminada por estar exposta às mãos de todos (os funcionários da Alfândega). Inclusive tiraram selfies com a droga", criticou em uma entrevista a uma emissora de televisão o diretor regional da Agência Antidrogas, Wilkins Villanueva.

Já o comissário apoiado por Duterte limitou sua defesa com um ataque à corrupção generalizada nos órgãos governamentais do país. "Deveriam ter vergonha", disse sobre a própria classe a política filipina Nicanor Faeldon, após assegurar, sem revelar nomes, que todos os dias recebe ligações, inclusive do Congresso, para solicitar promoções ilícitas ou rebaixamentos de tarifas.

Além de revelar possíveis práticas corruptas de alto nível, o escândalo poderia influenciar na guerra "contra as drogas" do presidente Duterte. Em numerosas ocasiões, ele estimulou policiais e cidadãos a eliminarem traficantes e consumidores de "shabú", criando um clima de impunidade para quem matar suspeitos.

Essa campanha contra as drogas, que já deixou 7 mil mortos em pouco mais de um ano, chegou a ser suspensa por um mês no início de 2017 após a revelação de outro escândalo de práticas corruptas, neste caso, por parte da polícia. / EFE

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