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A criação dos Estados

Conferência em Paris apoia solução de dois Estados para solucionar o conflito palestinos-israelenses

Gilles Lapouge*, O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2017 | 05h00

Israel andava um pouco esquecido. Outros atores ruidosos têm ocupado o palco: Síria, Estado Islâmico, Bashar Assad, Putin, além das eleições americanas. E quanto a Israel, cuja epopeia magnífica e ao mesmo tempo lamentável o mundo inteiro acompanha há 70 anos? Nada.

Mas eis que ele saiu da sua sombra. Ontem foi realizada em Paris, a pedido da França, uma conferência para decidir se é necessário prolongar a infernal situação atual ou cortar pela raiz o problema e criar, num pequeno pedaço de terra, dois Estados: Israel e Palestina.

A França trabalhou bem. Em torno da mesa estavam 75 países e as grandes organizações internacionais, decididos a aplicar a recente resolução das Nações Unidas (n.º 2.334), que recomenda a criação dos dois Estados e, ao ser apresentada pela primeira vez para votação, sofreu um veto americano. Mas se Washington sempre vetou o pedido, desta vez Barack Obama se absteve, o que provocou uma cólera do premiê israelense, Binyamin Netanyahu.

Mas ninguém esperava grande coisa do conclave. Dois obstáculos conduziam o encontro ao fracasso. O primeiro foi a ausência dos dois principais protagonistas, Netanyahu, por Israel, e Mahmud Abbas, pelos palestinos. Curioso: o mundo inteiro é convocado para construir dois Estados, Israel e Palestina, e ambos estão ausentes. Infelizmente, não estamos mais no século em que os europeus decidiam, em Paris ou Berlim, criar um Líbano ou uma Síria, ou dividir à vontade o corpo ainda palpitando da África.

E há uma segunda questão: as ideias fermentando no cérebro do novo senhor do mundo, aquele que substituirá Obama: Donald Trump. Um parlapatão. Um homem que não age com prudência com relação a seus aliados ou adversários. Não conhece as boas maneiras da alta diplomacia. Ele é mais capacitado para “virar a mesa” do que negociar. Antes mesmo de tomar posse, começou a governar o planeta por meio de tuítes furiosos e repletos de pontos de exclamação.

E quanto ao que Trump pensa dessa história de dois Estados, temos razões para nos inquietar. Primeiro, ele não resistirá ao prazer de oferecer um “presente de despedida” a Obama. Trump vai fazer o possível para que tal resolução fracasse. E mais inquietante: ele já disse como vê o futuro da região. E não há espaço, ali, para a Palestina. Em dezembro, Trump indicou o novo embaixador americano em Israel. Trata-se de David Friedman, indivíduo próximo dos “falcões” israelenses. Disse que seu primeiro ato será transferir a embaixada americana de Tel-Aviv para a “capital” de Israel. Qual? Jerusalém.

Instalar a embaixada em Jerusalém será validar a anexação completa da cidade. Fará ressurgir a questão envolvendo os “locais sagrados”, que se encontram na cidade antiga, sob a gestão de um órgão jordaniano, o WZqf. Mudar esse “status quo” será motivo de guerra. A rua palestina vai pegar fogo e as chamas se propagarão por todo o mundo árabe.

Segundo o ministro jordaniano da Informação, Mohammed Momani, será uma catástrofe ultrapassar a “linha vermelha” e um presente aos extremistas. Os palestinos, ou seja Mahmud Abbas, já alertaram: “Se Trump instalar a embaixada em Jerusalém, todo o trajeto feito na direção da paz terá sido em vão. E a Palestina anulará a decisão que tomou há alguns anos, ou seja, reconhecer o Estado de Israel”.

Sob a mesa que se reuniram ontem 75 homens de boa vontade, estão os percalços que podem fechar a janela atrás da qual ainda brilha uma esperança de paz, muito frágil e que pode sucumbir a uma diplomacia de tuítes e pontos de exclamação. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

* É CORRESPONDENTE EM PARIS

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