Mikhail Klimentyev/Reuters
Mikhail Klimentyev/Reuters

‘A Crimeia é o começo do fim da era Putin’

Ex-ministro venezuelano no governo Andrés Pérez, Moisés Naím fala sobre os limites do poder de Moscou e sobre a crise em seu país

Denise Chrispim Marin, O Estado de S. Paulo

03 Maio 2014 | 21h08

Engana-se quem pensa que os EUA estão em declínio, que a China dominará o mundo e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, sairá vitorioso em sua queda de braço na Ucrânia. Para Moisés Naím, escritor venezuelano e editor-chefe da revista Foreign Policy, que inicia hoje a publicação de artigos para o Estado e, simultaneamente, para o espanhol El País, Washington ainda tem agilidade para mudar o que é preciso. Em entrevista, ele aborda a crise em Caracas e fala sobre os percalços da política externa brasileira. A seguir, os principais trechos da conversa com Naím.

O governo de Barack Obama parece debilitado. Os EUA estão em declínio?

Esses fatores levam a uma má interpretação sobre o papel e o peso dos EUA no mundo. Em geopolítica, não importa o poder absoluta, mas o poder relativo. Isso quer dizer que, assim como os EUA têm seus problemas e debilidades, outros países também os têm. Os EUA não estão em decadência em relação a outros países. É importante notar que a economia americana está se recuperando mais rapidamente desde a crise de 2008 do os demais países desenvolvidos e está a ponto de desfrutar de um grande boom energético. Essa vantagem está produzindo o renascer da indústria manufatureira no país, e muitas empresas estão se transferindo para lá para reduzir os custos de energia. Quando acontece algo na Ucrânia, que deveria ser uma região de influência da Europa, os países se voltam para pedir a interferência dos EUA. Eles não pedem para a Comunidade Europeia. (O presidente russo Vladimir) Putin teve uma conversa de 90 minutos sobre o tema com Obama, e não com um líder europeu. A China tem economia em crescimento, mas agora está desacelerando, e continua com brechas social e de inovação muito grandes e com limitado acesso da população a serviços públicos básicos. Os EUA têm todo tipo de problema e os conhecemos, mas têm rapidez e agilidade muito maior para mudar o que é preciso do que a de seus rivais. Um pequeno exemplo: a obesidade infantil era um problema grave no país há alguns anos. Medidas foram adotadas e, hoje, está em declínio.

A Rússia tem condições de recuperar seu protagonismo?

Desde 2000, quando Putin chegou ao poder, aos dias atuais, a Rússia tornou-se mais débil. Trata-se de um ´petroestado´. Sua dependência da atividade petroleira é maior do que antes, e a fuga de capitais é constante. No plano interno, Putin se sente inseguro. Não quer perder prestígio, ser visto como presidente frágil. Putin interveio de forma agressiva justamente quando a Ucrânia estava a ponto de firmar um acordo comercial com a Europa, e a resposta foram as manifestações populares na Ucrânia em favor da europeização. Sua maneira de demonstrar que detém o poder foi invadir e anexar a península da Crimeia, uma região estratégica onde há base naval russa.

O episódio pode ser lido como expressão da vitória de Putin e de fragilidade da política externa americana?

Não tenho dúvidas de que a Casa Branca e Obama operam com limites importantes. Não se trata de produto de incompetência ou covardia deliberada. A questão da Crimeia ilustra, em contraste, a debilidade de Putin. Em longo prazo, vamos verificar que esse foi o começo do fim da era Putin. Ele saiu-se vitorioso apenas em curto prazo. Mas, em médio prazo, vai colher mais custos do que benefícios dessa iniciativa.

Como?

Tenho cinco argumentos para explicar minha previsão. Primeiro, Putin sempre detestou e repudiou a Otan. Ao tomar a Crimeia, porém, ele deu uma nova razão de ser para a Otan que, ao final da Guerra do Afeganistão, iria cair na obsolescência e ter seu orçamento brutalmente reduzido. Segundo, os países europeus estão fazendo esforços enormes para reduzir sua dependência do gás natural russo. Terceiro, a parcela da Ucrânia que não fala russo e não está na órbita de Moscou será empurrada ainda mais para a União Européia. Quarto, a Rússia perdeu seu principal interlocutor na cena internacional, a Alemanha, e os dois países vivem o pior momento de suas relações. Por fim, a invasão levou a Europa, antes fragmentada, a operar de forma mais coordenada.

O Kremlin ainda pode enfrentar instabilidade social em razão da Crimeia?

Putin enfrenta uma classe média russa mais interessada em se parecer mais europeia do que estar subordinada a um regime oligárquico, corrupto, centralizado e autocrata. A economia russa, que já estava em situação precária, agora está em recessão por causa dos gastos militares com a invasão da Crimeia, segundo o Banco Mundial. No primeiro trimestre, houve fuga de capitais mais volumosa do que em todo o ano passado. A bolsa de Moscou está caindo, o rublo está se desvalorizando, decisões de investimento no país estão sendo canceladas e muitas empresas estão desesperadas para deixar o país.

A China tem se mostrado agressiva com países vizinhos. Como interpretar esses sinais?

Entre as notícias mais importantes de 2013 estava a decisão da China de proibir sobrevoo de forças de outros países nessas ilhas sem sua autorização. Isso provocou reações do Japão e dos EUA. A doutrina oficial do governo chinês, até então, era da ascensão pacífica. Ou seja, a prioridade de Pequim não era expandir sua influência internacional, mas aumentar a qualidade de vida e a renda dos chineses. Ainda teremos de observar o que vai acontecer em 2014 antes de concluir se essa agressividade regional significa o abandono da doutrina da ascensão pacífica.

Seu último livro trata da debilidade do poder de governo, empresários e Igreja no início do século 21. O que podemos esperar dos governantes?

Tornou-se mais difícil conquistar o poder, mais difícil governar e mais fácil perdê-lo. Isso vale para governantes eleitos democraticamente e para ditadores, de Obama a Putin, passando por Al-Assad ou qualquer outro líder. O exemplo mais claro dessa tese é o de Mohamed Morsi. Eleito presidente do Egito, ele pensou que teria o mesmo poder de seu sucessor, o ditador Hosni Mubarak, derrubado pela primavera egípcia em 2011. Agiu na mesma linha de Mubarak e foi derrubado 13 meses depois. O próprio Mubarak é outro exemplo. Se você me dissesse há dez anos que ele seria derrubado por uma manifestação popular e teria como substituto um líder da Irmandade Islâmica, eu diria que isso seria impossível.

Isso quer dizer que se Lula se elegesse no lugar de Dilma teria terá menos poder do que em 2003?

Absolutamente correto. Tenho certeza de que Lula não terá mais em seu favor três condições que o beneficiaram no primeiro mandato: os preços altos das commodities exportadas pelo Brasil, a situação de lua de mel com os eleitores e a economia em expansão. Ao contrário, ele terá de enfrentar uma economia debilitada e elevadas expectativas da população de repetição de seu desempenho como presidente na década passada. Além disso, não terá o prestígio internacional que usufruiu. Ninguém mais imagina que o Brasil, nas condições atuais, possa ter qualquer protagonismo no cenário internacional.

O que se pode esperar em curto prazo para a Venezuela?

Maduro se valeu de truques, armadilhas, coações e abusos, além de todos os recursos do Estado, para se eleger na Venezuela, país onde o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) é um apêndice do governo. Ainda assim, ganhou com uma vantagem de apenas 1,5%. Antevejo o aprofundamento da crise econômica, sem precedente na América Latina nem mesmo nos episódios de hiperinflação. Os venezuelanos não conseguem comprar um de cada quatro produtos de primeira necessidade que buscam nos supermercados, como o papel higiênico. A inflação é a mais alta do mundo, o desemprego é elevado e mascarado pelo governo e há ampla destruição da capacidade produtiva, inclusive no setor petroleiro. Com a crise mais profunda, mais pessoas irão às ruas para protestar e pedir retificação de rumo. Esse governo sem ideias para enfrentar as crises política, econômica e social vai recorrer à repressão. O que vem pela frente é mais crise, mais protesto e mais repressão.

O início do diálogo entre governo e oposição não altera o cenário?

Maduro concordou em negociar com a oposição por causa da pressão dos países vizinhos. Essa foi a primeira vez em 15 anos - 14 de governo de Hugo Chávez e um de Maduro - que países da América Latina pedem ao governo da Venezuela para moderar sua agressividade com os que pensam diferente. Esse fato não tem precedente e foi provocado pela pressão das ruas e pelas 40 mortes resultantes do choque entre a sociedade e as forças de segurança do governo. O diálogo não teria ocorrido sem a pressão internacional. Essa pressão não teria acontecido sem os protestos. Mas, até agora, o governo de Maduro não atendeu a nenhum dos pedidos da oposição. Não está nessa lista a renúncia do presidente. Mas a libertação de prefeitos eleitos pelo povo e presos com base em acusações espúrias e de forma inconstitucional pelo fato de serem por serem oposicionistas. Para o governo seria fácil libertar os prefeitos. Outro pedido da oposição é a substituição de magistrados do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) e de autoridades do CNE cujos mandatos já venceram. O governo está fora da lei, que o obriga a fazer as novas nomeações. Esses seriam pequenos gestos com os quais o governo demonstraria sua boa vontade e disposição de diálogo.

Até onde Maduro pode ir sem perder apoio de aliados?

Ninguém sabe. Isso depende do governo cubano, que tem um papel determinante nas decisões de natureza governamental e de políticas públicas na Venezuela. Sobretudo, no que tem a ver com a repressão e os serviços de inteligência. A elite chavista está dividida e em guerra interna. A falta de decisões na área econômica se deve aos pontos de vista diferentes das facções chavistas e à ausência de Hugo Chávez. Maduro não tem o comando central que Chávez tinha. Apesar de promover o diálogo, os países sul-americanos parecem ter aceitado a versão de Maduro de que a oposição é golpista. É preciso que a América Latina entenda melhor a questão venezuelana. Não se trata de luta entre ricos e pobres, de direita contra a esquerda, do bem contra o mal. Trata-se de um governo militar, corrupto e narcotraficante reprimindo uma sociedade desesperada, que não tem como comprar leite e remédios. A adesão à ideia de que a oposição é golpista não passa de uma escusa, de uma posição muito cômoda para os vizinhos sul-americanos. Isso não é verdade. Sou bastante crítico das condutas de Lula (o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva) e de Dilma sobre a Venezuela. As ruas da Venezuela estão cheias de ´dilmas´ jovens, que refletem os ideais, as esperanças e as alegrias de quando a presidente do Brasil era uma jovem disposta a enfrentar o regime militar. No entanto, Dilma Rousseff se refugia no princípio da não-intervenção, no caso da Venezuela, apesar de o Brasil ter se metido ativamente em Honduras, no Paraguai e até mesmo com o Irã. Lula se propôs até como mediador no conflito entre palestinos e israelenses.

Não seria natural essa posição do governo de Dilma?

Já havíamos acompanhado a evolução das relações entre Brasil e Venezuela, durante o governo Lula, e não causa surpresa a ausência de críticas de Dilma e seu refúgio no princípio da não-intervenção. O fato de sua posição não ser surpreendente não significa que esteja longe da hipocrisia. O Brasil deveria ser o líder da América Latina. É uma democracia vibrante e uma das maiores do mundo. Mas guarda silêncio, por cálculos secundários, diante de uma situação como a da Venezuela. Com essa atitude, como o Brasil vai pretender ser um jogador importante no tabuleiro mundial?

Ao contrário do governo Lula, o de Dilma não aspira o protagonismo internacional do Brasil. Mas não é descabido que os países da América Latina olhem para o Brasil como um guia. O fato de o Brasil estar tão calado e tolerante diante de abusos na Venezuela é algo que não se pode deixar de registrar. Ninguém está pedindo ao Brasil que declare apoio à oposição venezuelana. Passaram-se claramente 15 anos de apoio automático, de solidariedade total e de ausência absoluta de críticas ou comentários sobre condutas na Venezuela que seriam inaceitáveis no Brasil.

A que se pode atribuir esse comportamento?

A cálculos menores, a afinidades ideológicas, à necessidade de satisfazer a base do PT, à expiação da culpa pelo fato de o governo petista ter adotado medidas econômicas ortodoxas e de apoio aos setores produtivos privados e financeiros. Há também o apoio mercantilista do governo brasileiro a empresas com negócios na Venezuela e muitos rumores de corrupção nesses contratos. No Brasil, há muitos interesses pessoais para se manter a aproximação, o apoio e a solidariedade à Venezuela. Ao contrário de Dilma Rousseff, os presidentes da Colômbia, do Peru e do Chile criticaram a reação do governo venezuelano aos protestos. Todos receberam uma onda de insultos de Maduro e de seu governo. O Panamá pediu a convocação de uma reunião de chanceleres da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre a situação da Venezuela. Isso foi suficiente para, depois de insultar o Panamá, a Venezuela romper as relações diplomáticas com o país vizinho. Os países têm problemas internos suficientes para se meterem na defesa de valores na Venezuela.

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