A Crimeia é uma boa aquisição para Vladimir Putin

ANÁLISE:

Leonid Bershidsky*, Bloomberg/O Estado de S.Paulo

10 de março de 2014 | 02h04

A tentativa do Parlamento da Crimeia de tornar-se parte da Rússia fez surgir uma questão: o presidente Vladimir Putin considerou quanto irá custar a adesão da península e seus 2 milhões de habitantes? Provavelmente, sim. Os custos serão altos, mas nem tanto.

A Europa parece cada vez menos inclinada a impor duras sanções a um país que - de acordo com dados de 2011 - é responsável por 7,1% de suas exportações e 11,8% das importações. A chanceler alemã, Angela Merkel, cujo país depende da Rússia para o fornecimento de metade de suas importações de gás, pediu moderação. A Grã-Bretanha está relutante e teme que o centro financeiro de Londres sofra com a perda do dinheiro russo. Na Espanha, turistas russos são os maiores gastadores. Os EUA não embarcarão nessa sozinhos.

Anexar uma região ucraniana relativamente pobre, porém, sairá caro. A Crimeia é a quinta maior beneficiária de subsídios orçamentários entre as 26 regiões da Ucrânia. Nos primeiros seis meses de 2013, recebeu cerca de US$ 500 milhões em ajuda. Se for para continuar a receber cerca de US$ 1 bilhão por ano a partir do orçamento da Rússia, será o quarto maior gasto entre as regiões russas em 2014.

A economia da Crimeia depende de algumas fábricas e do turismo. No entanto, ele não deve crescer após a anexação. Cerca de 60% o gás natural da Crimeia vem da atividade ucraniana que o extrai do Mar Negro e do Mar de Azov. Cerca de 80% da água e da energia da região vêm da Ucrânia. Os recursos não serão cortados, mas Kiev cobrará mais caro por eles. A Rússia terá de negociar ou reconstruir uma infraestrutura paralela.

Mesmo com tudo isso, a anexação da Crimeia é um bom negócio, considerando os gastos de US$ 50 bilhões nas Olimpíadas de Inverno de Sochi. Às custas dos contribuintes, o presidente russo está adquirindo uma fonte de recursos inestimável: uma explosão de apoio popular. A aprovação de Putin alcançou novo recorde nas últimas duas semanas: 68%. Isso vale mais para um líder russo em seu 14.º ano no poder do que os elogios do Ocidente.

*Leonid Bershidsky é escritor.

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