Arash Khamooshi/The New York Times
Arash Khamooshi/The New York Times
Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A crise entre EUA e Irã

O espaço cedido pelos EUA no Iraque será ocupado por russos e chineses

Lourivan Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2020 | 02h00

Já existem elementos para um balanço preliminar sobre o quanto a escalada que resultou no assassinato do general Qassim Suleimani aproxima ou distancia EUA e Irã de suas necessidades estratégicas, e o presidente Donald Trump e o líder espiritual Ali Khamenei, de seus objetivos políticos.

A necessidade estratégica americana no Oriente Médio é estancar a perda e, se possível, recuperar a influência sobre a região. Ela foi perdida com a derrubada de Saddam Hussein, em 2003. A introdução da democracia, a consequente eleição de gabinetes de maioria xiita e o alienamento dos sunitas do governo colocaram o Iraque sob a influência do Irã.

Até o assassinato, o Iraque se equilibrava entre duas alianças insustentáveis no longo prazo, com EUA e Irã. A morte de Suleimani empurrou essa balança em favor do Irã. Mesmo que o Iraque não imponha imediatamente a saída das tropas americanas, o custo de sua permanência aumentará no médio prazo, com os ataques das milícias xiitas patrocinadas pelo Irã, que começarão uma vez passado o risco iminente de guerra com os EUA. 

A recusa do então presidente Barack Obama em honrar sua ameaça de punir o regime de Bashar Assad pelo uso de armas químicas contra a população, em 2013, combinada com o apoio frugal dado pelos EUA aos rebeldes sunitas seculares, ampliou o espaço para Rússia, Irã e Turquia na Síria. No vizinho Líbano, o Irã também aumentou sua projeção por meio do partido e milícia Hezbollah.

O acordo de 2015, que vinha sendo cumprido pelo Irã, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, que executava no país as inspeções mais invasivas da história, havia colocado um freio no programa nuclear iraniano. Com o rompimento do acordo, as sanções econômicas, também as mais restritivas da história, e finalmente o assassinato de Suleimani, Trump induz o Irã a retomar o programa nuclear, por causa da percepção de vulnerabilidade não só externa como também interna de um regime impopular.

Não há outra saída para esse impasse a não ser uma negociação. Ela ficou mais distante agora. E, quando os iranianos voltarem à mesa com os americanos e europeus, será em posição mais forte, por estarem mais próximos de uma bomba atômica. 

Na disputa por hegemonia mundial com a China e seu parceiro menor, a Rússia, os EUA também perderam espaço. A retirada das tropas obrigará as empresas americanas a sair também, por falta de segurança. Serão substituídas por empresas chinesas, russas e turcas. 

O ataque contra a base dos EUA no Iraque, no dia 27, que contribuiu para a escalada, coincidiu com uma manobra militar de três dias das marinhas de Irã, China e Rússia, no Golfo de Omã e no Oceano Índico. Essa colaboração militar, assim como econômica e tecnológica, continuará crescendo.

O assassinato do general violou as normas internacionais e atropelou a cultura militar. Ele arranha o prestígio das Forças Armadas americanas perante seus aliados, não no que diz respeito a sua capacidade bélica, mas a sua ética militar. Nem numa guerra o assassinato premeditado de um comandante seria aceitável.

O Irã também sai perdendo. Trump impôs ainda mais sanções econômicas, o que trará mais sofrimento para a população e atraso para o país. O avanço do programa nuclear iraniano causará uma corrida armamentista na região, e aumentará os riscos de uma guerra, que poderá envolver também Israel e Arábia Saudita.

Trump sai ganhando perante o seu eleitorado, porque, para quem não tem intimidade com esses temas, parece ter realizado algo que seus antecessores não tiveram capacidade ou coragem de fazer; além de manter suas promessas de aumentar a pressão sobre o Irã e não se engajar numa nova guerra. 

Khamenei e sua teocracia ganharam sobrevida: o “martírio” de Suleimani dá um verniz heroico ao regime. A corrente conservadora que o apoia dirá que estava certa, e os moderados, errados, alegando que não se pode confiar nos americanos: eles não cumprem acordos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.