Alexei Druzhinin / SPUTNIK / AFP
Alexei Druzhinin / SPUTNIK / AFP

A crise global do conservadorismo

Em vários países, a centro-direita vem dando lugar a uma direita radical, pessimista e revolucionária

The Economist, O Estado de S.Paulo

11 de julho de 2019 | 05h00

Vladimir Putin, presidente da Rússia, afirmou que a noção de liberal é “obsoleta”. Discordamos. Não só porque ele disse ao Financial Times que o liberalismo tem a ver com imigração, multiculturalismo e política de gênero, mas também porque escolheu o alvo errado. A noção que está mais ameaçada no Ocidente é o conservadorismo. E você não precisa ser um conservador para achar isso preocupante.

No sistema bipartidário, como o adotado nos EUA e no Reino Unido, a direita está no poder, mas somente porque abandonou os valores que a definem. Em países com muitos partidos, a centro-direita vem sendo corroída, como na Alemanha e na Espanha, ou mesmo eviscerada, como na França e na Itália. E, em outros lugares, como na Hungria, com uma tradição democrática menos antiga, a direita partiu diretamente para o populismo sem mesmo experimentar o conservadorismo.

O conservadorismo não é tanto uma filosofia quanto uma disposição de espírito. O filósofo Michael Oakeshott o definiu muito bem: “Ser conservador é preferir o familiar frente ao desconhecido, o que já foi experimentado ao que não foi ainda tentado, preferir o fato e não o mistério, o real e não o possível, o limitado e não o ilimitado, o próximo e não distante”.

Como o liberalismo clássico, o conservadorismo é uma criação do Iluminismo. Os liberais afirmam que a ordem social surge espontaneamente com os indivíduos agindo livremente, mas os conservadores entendem que a ordem social vem em primeiro lugar, ela cria as condições para a liberdade. Busca a autoridade da família, a Igreja, a tradição e as associações locais para controlar a mudança e torná-la mais lenta. Mas essa demolição vem ocorrendo com o próprio conservadorismo e isso vem partindo da direita.

A nova direita não é uma evolução do conservadorismo, mas um repúdio dele. Os usurpadores estão ressentidos e descontentes. Eles são pessimistas e reacionários. Olham o mundo e veem aquilo que o presidente Donald Trump chamou de “carnificina”. Observe como eles estão estraçalhando uma tradição conservadora atrás da outra. O conservadorismo é pragmático, mas a nova direita é fanática, ideológica e sem preocupação com a verdade. 

Os conservadores são cautelosos com relação à mudança, mas a direita hoje contempla frivolamente a revolução. Os conservadores acreditam em caráter, porque política tem a ver com julgamento, mas também com razão. Eles desconfiam de carismas e cultos à personalidade. Nos EUA, muitos republicanos aceitam Trump, embora ele tenha sido acusado por 16 mulheres de má conduta sexual. Os brasileiros elegeram Jair Bolsonaro, que lembra com orgulho o regime militar. O carismático Boris Johnson é favorito para ser o próximo premiê britânico, apesar da desconfiança dos parlamentares. 

Os conservadores respeitam o comércio e são prudentes gestores da economia, pois a prosperidade é a base de tudo. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, se diz um conservador pautado pela economia com impostos baixos, mas corrói o estado de direito do qual as empresas dependem. Trump é um dirigente que aposta nas guerras comerciais. Mais de 60% dos membros conservadores do Parlamento britânico estão dispostos a infligir “sérios danos” à economia para garantir o Brexit. Na Itália, a Liga, partido de Matteo Salvini, aterroriza os mercados ao brincar com a emissão de papéis do governo que teriam a função de moeda paralela ao euro. Na Polônia, o Partido da Lei e da Justiça faz gastos extravagantes em programas sociais.

E a direita está mudando o que ela acha pertencer. Na Hungria e na Polônia, a direita exulta o nacionalismo fundado no sangue e no solo, que exclui e discrimina. O Vox, uma nova força na Espanha, é reminiscente da Reconquista, quando os cristãos expulsaram os muçulmanos. Um nacionalismo raivoso e reacionário acende as suspeitas, o ódio e as divisões. É a antítese do insight conservador, segundo o qual pertencer à nação, a uma igreja e a uma comunidade local pode unir as pessoas e motivá-las a agir em favor do bem comum.

O conservadorismo foi radicalizado por várias razões. Uma delas é o declínio dos chamados por Edmund Burke de “pequenos pelotões”, nos quais ele se apoia, como a religião, sindicatos e a família. Outra é que os velhos partidos, de direita e de esquerda, ficaram desacreditados pela crise financeira, pela austeridade e pelas longas guerras no Iraque e no Afeganistão. Fora das cidades, as pessoas se sentem zombadas pela sofisticada população urbana gananciosa e egoísta. 

Não será fácil reverter nenhuma dessas tendências. Isso não significa que tudo segue à maneira dos partidos da nova direita. No Reino Unido e nos EUA, pelo menos, a demografia está contra eles. Seus eleitores são brancos e velhos. As universidades são uma zona livre da direita.

Gerações

Pesquisa realizada pelo Pew Center, no ano passado, concluiu que 59% dos eleitores da chamada geração do milênio são democratas ou de tendência de esquerda. A parcela correspondente de republicanos é de apenas 32%. Entre a chamada geração silenciosa, nascida entre 1928 e 1945, os democratas computam 43% e os republicanos, 52%. 

A nova direita está claramente vencendo sua luta contra o conservadorismo esclarecido. Para os liberais clássicos, isto é uma tristeza. Conservadores e liberais discordam em muitas coisas, como a questão das drogas e a liberdade sexual. Mas, com mais frequência, são aliados. Ambos rejeitam o impulso utópico de encontrar uma solução governamental para cada erro. Ambos resistem ao planejamento estatal e os altos impostos. 

A tendência conservadora de policiar a moral é compensada por um impulso de resguardar a livre expressão e promover a liberdade e a democracia no mundo. E, de fato, conservadores e liberais sempre oferecem o melhor de cada um. O conservadorismo modera o fanatismo liberal; e os liberais esvaziam a complacência conservadora. No seu auge, o conservadorismo tem uma influência estabilizadora. Ele é racional e sábio, valoriza a competência e não se precipita. Mas hoje a direita está efervescente e isso é perigoso. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*© 2019 THE ECONOMIST NEWSPAPER 

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PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO 

ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

 

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