A crise síria pode se tornar uma barreira entre EUA e Turquia

Análise: Soner Cagaptay / Washington Post

É DIRETOR DO PROGRAMA DE PESQUISA TURCO , O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2012 | 03h01

A relação estreita que o presidente Barack Obama construiu com o premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, deu aos EUA um aliado muçulmano-chave. Washington e Ancara trabalharam em cooperação próxima para estabilizar o Iraque. Mas uma tempestade os espera na Síria.

Na quinta-feira, a Turquia anunciou ter autorizado operações militares na Síria, após um ataque sírio a áreas turcas. Depois que a crise síria se aprofundou, a Casa Branca tem se mostrado disposta a esperar pelo ocaso do presidente Bashar Assad. Para Ancara, a crise se tornou uma emergência. Enquanto a agitação na Síria crescia, a Turquia presumiu que estava no mesmo barco que os EUA sobre a mudança do regime de Damasco. Agora, porém, as divergências começam a aparecer.

O governo Obama está hesitante a respeio de uma ação na Síria por várias razões, entre elas, sobre agir antes das eleições de novembro e o cansaço dos americanos com guerras. Erdogan parece ver essas preocupações como cobertura para uma indiferença geral ante o problema que a Síria representa para a Turquia. Um sinal desse sentimento manifestou-se em 5 de setembro, quando Erdogan repreendeu Obama na CNN por falta de iniciativa na Síria - uma rara reprimenda de um amigo fiel. Essa declaração pode ter sido um recado. Erdogan costuma tratar líderes estrangeiros como amigos - e perder as estribeiras quando acha que seus amigos o abandonaram. Quanto mais Washington olha para o outro lado sobre a Síria, mais incomodado Erdogan deve ficar com o que vê como uma falta de disposição de Obama de apoiar sua política.

Para a Casa Branca, a crise síria parecia manejável. À medida que o conflito se arrastava, alguns foram ficando preocupados com a possibilidade de a Síria radicalizar como a Bósnia fez nos anos 90: quando o mundo não agiu para pôr fim ao massacre de muçulmanos no país balcânico, jihadistas entraram na luta e conseguiram convencer islâmicos bósnios até então solidamente seculares de que o mundo os havia abandonado e eles estariam em melhor situação com os jihadistas.

A política americana sustenta que um pouso suave é possível na Síria. A esperança é que os grupos de oposição se unam e derrubem Assad, eliminando a necessidade de uma precipitada intervenção externa - opção que Washington teme que possa produzir caos. Já Ancara deseja acelerar o pouso suave. Particularmente com os ataques da semana passada, a Turquia passou a sentir o calor da crise no vizinho - Erdogan tem razão de crer que o tempo não joga a seu favor.

A natureza sectária do conflito sírio está se espalhando para a Turquia. Mais de 100 mil sírios árabes, na maioria sunitas, se refugiaram em território turco fugindo da perseguição de Assad e suas milícias alauitas. Árabes alauitas no sul da Turquia se ressentem dos refugiados sunitas, espelhando a tensão alauita-sunita síria. Alauitas irados na província turca de Hatay opõem-se à política de seu país com o regime de Assad e, desde o fim de junho, vêm realizando manifestações regulares pró-Damasco e anti-Ancara. Isso é um problema de Ancara e a situação pode piorar se o conflito sírio descambar para uma guerra sectária. O governo turco teme também o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK). Ultimamente, o regime de Assad permitiu que o PKK opere na Síria como meio de retaliação contra Ancara. Um atentado do grupo curdo, em agosto, em Gaziantep, uma grande cidade turca perto da fronteira, aumentou os temores dos cidadãos locais sobre uma possível infiltração do PKK. Para Erdogan, o custo político associado à agitação síria também aumentou.

Nada disso é bom augúrio para a esperanças de Erdogan de se tornar o primeiro presidente popularmente eleito na Turquia em 2014 (até recentemente, os presidentes do país eram eleitos pelo Parlamento). Outros ataques do PKK provavelmente mancharão sua imagem de durão.

Erdogan ganhou eleições sucessivas desde 2002 com base em números recorde de crescimento, possibilitados pela imagem da Turquia de um país estável para empresas e investidores. Quanto mais a crise síria se prolongar, mais a imagem da Turquia poderá ser manchada, deteriorando um ingrediente-chave de seu sucesso econômico e alimentando a percepção de que Erdogan não está cumprindo suas promessas.

Nos próximos dias, Ancara provavelmente vai pressionar Washington a uma ação mais agressiva contra o regime de Assad, incluindo a criação de abrigos para refugiados respaldados pelos EUA na Síria e medidas para apressar a queda de Assad. A resposta de Washington provavelmente será apegar-se à estratégia de pouso suave enquanto tenta acalmar Erdogan.

Por mais sérias que sejam essas diferenças, elas provavelmente não provocarão uma ruptura na relação Obama-Erdogan. A Turquia depende demais dos EUA para sacrificar essa relação. Mesmo assim, dadas as divergências de Obama e Erdogan sobre a Síria, uma tempestade entre eles parece quase inevitável. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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