A crítica situação de Maduro e o futuro incerto do chavismo

Análise: William Dobson / Slate

É JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h08

Hugo Chávez costumava tachar seus adversários de traidores, fascistas, criminosos e lacaios dos EUA. O sucessor que ele escolheu, Nicolás Maduro, já faz a mesma coisa, menosprezando seu rival nas próximas eleições e dirigindo-lhe comentários homofóbicos - por exemplo, que ele é um homem de "virilidade duvidosa". Quando Chávez estava vivo, o alvo desses comentários, o líder da oposição, Henrique Capriles, os ignorava. Ao anunciar seu plano de desafiar Maduro, Capriles deixou claro como encara a disputa: "Nicolás", disse dirigindo-se diretamente a ele. "Não vou deixar para você uma estrada aberta, amigo. Você vai ter de me derrotar no voto. Vou lutar voto por voto."

Provavelmente, esse foi o discurso mais enérgico que Capriles já pronunciou. O governador do Estado de Miranda, de 40 anos, estava dizendo a Maduro que ele não é Chávez e essas eleições serão diferentes. Em comícios passados, Capriles invocava o nome de Chávez, mas para não afastar os indecisos ou chavistas insatisfeitos. Em evento do qual participei, em 2009, ele disse à multidão: "Para mim, é indiferente o partido ao qual vocês pertencem". Então, ele contou a história de um eleitor que conhecera, que confessou que amava tanto Capriles quanto Chávez. O governador respondeu: "Tudo bem. Às vezes, um homem se apaixona por duas ou três mulheres. Ou uma mulher se apaixona por dois ou três homens. Isto faz parte da vida."

Agora, ele não fala mais de amor. Depois da posse de Maduro como presidente interino, Capriles deu uma coletiva e lembrou ao adversário: "Nicolás, ninguém o elegeu presidente. As pessoas não votaram em você, rapaz". Sua agressividade pode ser decorrência da disputa. O governo anunciou que a campanha começará no dia 2 de abril e se encerrará no dia 11. Isto significa que a oposição terá dez dias para fazer propaganda na TV, comícios e eventos, embora a mídia oficial transmita uma cobertura 24 horas por dia dando destaque a Chávez e a Maduro, que vem fazendo campanha há meses.

Capriles acusa Maduro de ter minimizado a deterioração da saúde de Chávez durante semanas para ir preparando sua campanha presidencial. A oposição da Venezuela não tem mais tempo para explorar as entrelinhas. Capriles calculou que deve expor diretamente seus argumentos e dirigi-los abertamente aos herdeiros políticos de Chávez. Seus cálculos refletem também seus obstáculos. Como sucessor do comandante, Maduro desfruta do único endosso que importa.

Em dezembro, em seu último discurso à nação, Chávez pediu aos venezuelanos que, se ele não regressasse, eles deveriam eleger Maduro. "Peço a vocês do fundo do meu coração", disse. Com uma mistura de dor, tristeza e saudade do líder morto, a eleição de Maduro talvez seja equivalente ao último decreto de Chávez. Maduro tem a seu favor também todo o peso do aparato estatal venezuelano, as receitas do petróleo e uma mídia obediente. No entanto, ele não quer correr o risco de permitir que o povo esqueça que ele é o homem de Chávez.

Em seus comícios, as multidões são levadas ao frenesi pelos alto-falantes que transmitem a voz de Chávez cantando o hino nacional. Então, Maduro assegura: "Eu não sou Chávez, mas sou seu filho!" Quem é esse ex-motorista de ônibus de Caracas e ativista sindical que, provavelmente, será o próximo presidente da Venezuela? É difícil dizer. Como membro da Assembleia Nacional e como chanceler, Maduro talvez nunca tenha expressado uma ideia independente.

Na realidade, a razão pela qual ele ascendeu e permaneceu próximo a Chávez por tanto tempo tem a ver com o fato de que há pouco espaço entre ele e o que Chávez pensava. Capriles não perdeu tempo para insistir que Maduro tem reputação de homem submisso. "Você explora alguém que não está mais aqui porque você não tem mais nada a oferecer ao país", disse o opositor. Mas, por enquanto, Maduro não tem uma estratégia mais segura do que colar na memória do ex-presidente.

Apesar dos obstáculos, a oposição venezuelana nunca se saiu melhor do que Capriles. Mesmo perdendo para Chávez por 11 pontos porcentuais nas eleições de outubro, conseguiu o melhor resultado da oposição na presidência de Chávez, obtendo 6,7 milhões de votos. Em dezembro, ele foi reeleito governador de Miranda, talvez o Estado mais importante em termos políticos do país. A respeito de sua disputa com Maduro, ele brinca que sabe como derrotar o vice de Chávez. Suas duas últimas eleições a governador foram contra vice-presidentes.

Embora Chávez tenha mandado prendê-lo por dois anos, na maior parte do tempo em solitária, ele saiu da prisão com uma combatividade ainda maior, tornando-se famoso por manter um ritmo incansável. Isto talvez explique o motivo pelo qual ele costuma aparecer nos eventos usando roupa de atleta. Certa vez, Capriles me disse: "Quem se cansa, perde".

A questão mais séria, no entanto, é o que ocorrerá após a posse de Maduro. Como ele enfrentará sua verdadeira herança, que inclui uma inflação galopante, uma dívida cada vez maior, uma infraestrutura caindo aos pedaços, uma das taxas mais elevadas de assassinatos e escassez de alimentos? Essas prioridades poderão ficar em segundo plano em relação às preocupações mais imediatas, como a divisão das forças políticas com a qual ele terá de governar. As Forças Armadas serão leais a um homem que não tem nenhuma formação militar e tem vínculos com Cuba? As organizações de base do chavismo darão apoio a Maduro? Ele conseguirá administrar suas relações com Diosdado Cabello, líder da Assembleia Nacional e vice-presidente do partido governista, cujo apoio entre os militares faz dele o mais poderoso rival de Maduro?

Na realidade, apesar de toda a atenção dada à disputa com Capriles, talvez essa rivalidade, no interior do chavismo, seja a coisa mais importante a curto prazo. Em outras palavras, o que ocorrerá quando Maduro tropeçar? Chávez deixou instruções quanto a quem deve ser eleito, mas também deixou um sistema político sempre tão condicionado a suas ordens que passou a depender de sua presença. Instituições, leis, procedimentos e normas foram pisoteados para satisfazer as exigências de um único homem. Quando as disputas surgiam, ele era o árbitro.

Na China, a saída de Deng Xiaoping, em 1997, foi um momento parecido. Ele era uma figura predominante e tinha uma autoridade única. Ele, porém, não apenas instruiu quem deveria ser seu sucessor, mas foi além. Deixou um país mais próspero do que jamais fora e introduziu normas que deixavam claro que os futuros líderes chineses governariam por dois mandatos. Deng compreendeu que a sucessão é um momento de grande risco para governos autoritários - e procurou minimizá-lo. Chávez deu à Venezuela Nicolás Maduro, mas ninguém imagina o que virá depois. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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