Jeff J Mitchell / POOL / AFP
Jeff J Mitchell / POOL / AFP

Thomas Friedman: A cúpula climática me deixou energizado — e com muito medo

Fiquei deslumbrado com a energia de todos aqueles jovens nas ruas exigindo que enfrentemos o desafio do aquecimento global e com algumas das impressionantes novidades tecnológicas e mercadológicas propostas por inovadores e investidores

Thomas L. Friedman, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2021 | 10h00

Passei a última semana conversando com todo tipo de gente reunida na Cúpula Climática da ONU, em Glasgow, o que me deixou com sentimentos profundamente contraditórios. 

Depois de comparecer à maioria das cúpulas climáticas desde Bali, em 2007, posso lhes dizer que esta última teve um sabor diferente. Fiquei deslumbrado com a energia de todos aqueles jovens nas ruas exigindo que enfrentemos o desafio do aquecimento global e com algumas das impressionantes novidades tecnológicas e mercadológicas propostas por inovadores e investidores. Não foi como nos velhos tempos — com todos esperando pelos acordos definidos pelos diplomatas-sacerdotes do clima a portas fechadas. Desta vez, muita gente dialogou — e estou impelido por isso.   

Mas para mim, uma única questão permeou todas as promessas realizadas nesta cúpula: 

Quando vemos como é difícil para os governos fazer com que seus cidadãos simplesmente usem máscaras em lojas, ou se vacinem, para proteger a si mesmos, seus vizinhos e avós de serem prejudicados ou mortos pela covid-19, como será possível fazer com que a maioria das pessoas trabalhe junta, globalmente, e faça os sacrifícios em seu estilo de vida necessários para atenuar os efeitos crescentemente destrutivos do aquecimento global — contra o qual existem tratamentos, mas não existem vacinas? Isso é pensamento mágico — mas exige uma resposta realista.    

Aqui vão as anotações do meu bloquinho de repórter que produziram essas emoções conflitantes: 

A rua onde tudo aconteceu na Cop-26

Pela primeira vez, senti que os delegados adultos nos corredores da conferência tinham mais medo da garotada do lado de fora do que de si mesmos ou da imprensa. 

Claramente, a internet e as redes sociais são super empoderadoras dos jovens, que manifestam esse poder diariamente em Glasgow para exigir satisfações dos negociadores adultos — que claramente não querem ser ofendidos, culpados nem apontados como “líderes-blá”, ou “líderes”, capazes apenas de “blá-blá-blá”, como sugerem os cartazes colados nos muros de Glasgow. Fui alertado anteriormente a um painel do qual participei que, se jovens manifestantes interrompessem a sessão, eu deveria simplesmente deixá-los dizer o que tivessem para falar. 

A Geração Z — todos os nascidos entre 1997 e 2012, que cresceram como nativos digitais — é atualmente a maior fatia de população do mundo, com 2,5 bilhões de pessoas, e sua presença é palpável na cúpula. 

Eles sabem que depois acabou, que depois será tarde demais e que permanecermos em nossa trajetória habitual de negócios poderia aquecer o planeta até o fim deste século a níveis jamais experimentados pelo Homo sapiens.

Certo dia, na semana passada, Greta Thunberg, a ativista ambiental sueca de 18 anos, e centenas de outros jovens se reuniram em um parque de Glasgow para um protesto-relâmpago para chamar à responsabilidade os líderes globais com o verso, “Vocês podem enfiar sua crise climática nos seus (…)”.

Assisti ao vídeo e não consegui pegar a última palavra. Deve der sido “luz”. 

As más notícias para a Geração Z (e para o resto de nós)

Boas notícias, jovens da Geração Z: vocês ganharam o debate sobre as mudanças climáticas. E obrigado por isso. Tanto governos quanto empresas estão dizendo, “Tudo bem, entendemos, estamos trabalhando nisso”. A má notícia é: ainda existe uma diferença enorme entre o que os cientistas dizem ser necessário para reduzir imediatamente o uso de carvão, petróleo e gás que ocasiona o aquecimento global e o que governos e empresas — e sim, cidadãos comuns — estão dispostos a fazer quando a escolha é tolerar o aquecimento ou comer. 

Como apontam especialistas, nunca é bom afrouxar o cinto antes dos suspensórios estarem bem firmes em seu lugar. Governos não abdicarão dos combustíveis fósseis até que haja energia limpa suficiente para substituí-los. E isso levará mais tempo ou exigirá sacrifícios muitos maiores do que está sendo discutido a qualquer medida nessa cúpula. 

Leia esta citação do site da CNBC, de 3 de novembro, e chore: “A geração global de energia renovável crescerá em 35 gigawatts entre 2021 e 2022, mas a demanda global por energia aumentará em100 gigawatts no mesmo período. (…) Os países terão de utilizar fontes tradicionais de combustível para atender ao restante dessa demanda. (…) Essa diferença só tende a se ampliar à medida que as economias reabrem e as viagens são retomadas”, o que provocará “acentuados aumentos dos preços de gás natural, carvão e eletricidade”. 

Precisamos parar de iludir a nós mesmos pensando que temos tudo nas mãos — de que podemos fazer bobagens como fechar as usinas nucleares da Alemanha, que forneciam massivas quantidades de energia limpa, só para mostrar como somos ecológicos; e depois ignorarmos o fato de que, sem fontes renováveis o suficiente, a Alemanha voltou a queimar o imundo carvão. Essa vaidade moral é de fato contraproducente. 

Energia é um problema de escala. Uma TRANSIÇÃO é necessária, e isso significa uma transição de combustíveis fósseis para fontes mais limpas de energia, como gás natural ou energia nuclear, para energia eólica e solar e, finalmente, fontes que ainda nem existem hoje em dia. Aqueles que propõem ignorar essa transição arriscam produzir uma grande reação contra todo o movimento ambiental neste inverno, caso as pessoas não consigam aquecer suas casas ou alimentar suas fábricas. 

Então estamos condenados?

Não, mas este seria um bom momento para começar a rezar. Rezar para que a tecnologia aliada à inteligência artificial seja capaz de acabar com a diferença entre o que os atuais Homo sapiens estão realmente dispostos a fazer para mitigar as mudanças climáticas e o que é realmente necessário fazer. E rezar para que o Homo sapiens comece a entender que preservar o nosso futuro quase certamente será doloroso de alguma maneira. Porque neste momento, sem sacrifício, nossa única esperança é desenvolver e acionar tecnologias que permitam às pessoas comuns fazer coisas extraordinárias em escala. 

Onde está  Al Gore quando precisamos dele?

Em meu primeiro dia em Glasgow, eu estava circulando pela redação local do New York Times quando passei por uma funcionária de segurança, de cabelos grisalhos, que explicava para um colega muito mais jovem do que tratava essa essa conferência. Ela disse, com forte sotaque escocês, “Tinha aquele cara, o Al Gore, que previu isso tudo antes de qualquer um”. 

Qual é a aparência da devastação ambiental?

Em setembro de 2020, Michael Benson estudou imagens de satélite detalhadas. Eis a Terra que ele viu — e aquela que ele gostaria de ver. Você sabe que está velho quando um jovem em uma cúpula climática não tem nem ideia de quem é Al Gore.

Felizmente, Gore ainda vê além. Conversamos por breves minutos em um corredor, e ele passou a maior parte do tempo me falando com grande animação a respeito de um projeto científico que está apoiando — o Climate TRACE, que usa dados sensoriais de satélites e inteligência artificial para monitoramento em tempo real de emissões de CO₂, especialmente as que jamais são relatadas por governos e empresas. 

Com cobertura satelital ininterrupta, fornecida pela startup Planet, cujas centenas de minúsculos satélites provêm imagens da superfície da Terra continuamente em alta definição, seremos capazes de observar quando um caminhão de madeireiros entrar na selva amazônica para abrir uma clareira e até contar exatamente quantas árvores eles derrubaram. Ou, inversamente, seremos capazes de contar árvores que estejam sendo plantadas e estabelecer um valor sobre o carbono que cada uma delas está armazenando — em vez de apenas o custo sobre a madeira retirada da floresta. 

“A era da transparência ambiental radical está prestes a nascer”, afirmou Andrew Zolli, executivo-chefe para impacto da Planet. O mundo inteiro — seu clientes, seus competidores, seus empregados e ativistas — logo saberá exatamente quantidades de emissões em um clique. Isso é importantíssimo. 

“Poderemos mensurar impactos sobre o clima uma vez que pudermos medir, monitorar, administrar e monetizar o valor de salvar uma floresta ou uma bacia hidrográfica”, afirmou Andy Karsner, que foi o principal negociador dos EUA em Bali, em 2007, e cuja empresa, Elemental Labs, está atualmente construindo mais ferramentas de tecnologia para soluções de mercado para as mudanças climáticas. 

“Nós, humanos, não possuímos grandes garras nem presas afiadas para sobreviver”, disse-me Karsner. “Em vez disso, fomos dotados de grandes cérebros, e ainda acredito que um certo egoísmo iluminado de nossa espécie nos unirá para usarmos nossos cérebros coletivamente para desenvolver e acionar as ferramentas” que precisamos para prosperar neste planeta.  

Há algo que eu, uma única pessoa, possa fazer? 

Sim! Plante uma árvore — ou evite que alguma seja derrubada, apoiando comunidades indígenas, cujos territórios contêm 50% de todas as florestas remanescentes no mundo e 80% dos ecossistemas funcionais mais saudáveis, de acordo com Peter Seligmann, cofundador da Nia Tero, uma organização que começou recentemente “a garantir que povos indígenas tenham poder econômico e independência cultural para administrar, sustentar e proteger seus meios de vida e territórios que chamam de lar” — que por acaso são lares também de alguns dos maiores tesouros de biodiversidade da Terra. 

Seligmann (que é doador do museu de linguagem da minha mulher) apresentou-me a Teofilo Kukush, chefe da Nação Wampis, um povo indígena com cerca de 15,3 mil pessoas, que vive há múltiplas gerações em seu próprio território — de 1.327.760 hectares, cobertos em sua maioria por florestas e rios na Amazônia peruana. (Quando anotei no meu bloquinho “1.327.000 hectares”, para abreviar, Kukush percebeu minha imprecisão numérica e insistiu que eu registrasse os 760 hectares que faltavam.)

Isso não surpreende. Falando espanhol e sua língua nativa, Wampis, por meio de um tradutor, Kukush explicou-me que, todos os anos, sua amplamente intacta região florestal — onde seu povo vive em harmonia, valendo-se de agricultura rotativa — absorve 57 milhões de toneladas de CO₂ da atmosfera por meio de fotossíntese, e milhões de toneladas de carbono permanecem armazenadas pela preservação daquelas árvores.

Mas da mesma maneira que muitas comunidade indígenas que controlam florestas tropicais, as matas de sua região enfrentam ataques diários dos predadores humanos — mineradores, madeireiros, traficantes de animais, contrabandistas de drogas e fazendeiros industriais. A Nia Tero levou líderes indígenas a Glasgow para ressaltar seu papel crucial. 

“Temos tomado conta disso para o mundo e para nossas gerações futuras. E precisamos garantir que isso dure para sempre”, afirmou Kukush, que chamava a atenção com seu colorido cocar de penas de tucano. “Mas não ganhamos nenhum centavo por isso. Os créditos de carbono vão todos para o governo, não ficam com a gente.” 

Se você busca algo simples que poderia surtir um impacto extraordinário, busque proteger esses protetores de biodiversidade. 

A pior ideia dos céticos em relação ao meio ambiente

“OK, as mudanças climáticas são reais, mas é tarde demais para fazer qualquer coisa séria a respeito, então vamos parar com toda essa ecologia e colocar o foco em adaptação. O que há de tão ruim, afinal, a respeito de jogar golfe em Minnesota em fevereiro?”

Se há algo que deveríamos ter aprendido com a covid-19 é que a Mãe Natureza não é boazinha. Justo quando pensamos que solucionamos o problema com máscaras ou vacinas, ela nos surpreende com a variante Delta. “Adaptação” soa tão bem, tão suave, tão gradual — só que não. É evidente que teremos de nos adaptar construindo uma única barreira marítima, em vez de reconstruir uma Miami ou uma Nova Orleans a cada três anos. A diferença decorrerá do que fizermos agora para minimizar as mudanças climáticas. 

Uma das vozes mais prementes a esse respeito em Glasgow foi a do cientista de sustentabilidade global Johan Rockström, diretor do Instituto para Pesquisa em Impacto Climático de Potsdam.

A Mãe Natureza, ressaltou Rockström para mim, fez evoluir um impressionante kit de ferramentas que evitam a flutuação das temperaturas para calor demais ou frio demais, o que nos manteve nesse Jardim do Éden climático em que vivemos nos últimos 11 mil anos — e que nos permitiu construir a civilização. 

Mas se o aquecimento da superfície terrestre continuar no ritmo que temos testemunhado, e os mantos de gelo sobre a Groenlândia e o oeste da Antártica derreterem e não mais refletirem e dispersarem o calor do sol dos oceanos, e a Amazônia, em vez de uma floresta que absorve carbono poluidor, se tornar uma savana desmatada que produz esse tipo de poluição, e o nível, a temperatura e a salinidade dos oceanos mudar drasticamente, o que afeta monções, circulação oceânica no Atlântico e correntes de jato, CUIDADO.     

Nosso planeta poderá passar de um sistema autorrefrigerado e automoderado para um sistema de autoaquecimento. Se isso acontecer, a adaptação representará uma luta diária pela sobrevivência para milhões de pessoas. 

“Temos cada vez mais evidências de que o planeta é mais frágil do que pensávamos”, concluiu Rockström. Então, poderá ser difícil, poderá ser impossível diminuir o consumo de combustíveis fósseis e evitar esses problemas, mas não é o momento desistir. 

Caso contrário, seremos o mote de uma piada de mau gosto circulando em Glasgow:

Dois planetas estão conversando. Um deles parece uma linda bola de gude azul, e o outro, uma bolota suja e marrom. 

“O que aconteceu com você?”, pergunta o lindo planeta ao seu colega marrom. 

“Tive Homo sapiens”, responde o planeta marrom.

“Não se preocupe”, diz o planeta azul. “Eles não duram muito.” / TRADUÇÃO DE GUILHERME RUSSO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.