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A dama de ferro

Avizinha-se um grande combate, no qual a Europa sofrerá mais para se adaptar

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

19 Janeiro 2017 | 05h00

A primeira-ministra britânica, Theresa May, determinou: o Brexit será um Brexit duro. O adeus de Londres a Bruxelas não terá “para-raios” e será irreversível. May não procura temperar a violência de sua escolha preservando algumas pontes com a Europa, principalmente um acesso ao mercado único e o famoso “passaporte financeiro” que permitiria à City manter sua posição dominante nas praças financeiras europeias. Não. Madame Theresa May, pelo menos aparentemente, não esbanja nenhuma fineza no processo.

O Reino Unido precisa estar fora ou dentro da União Europeia (UE). Não pode estar fora e dentro ao mesmo tempo. Essa é a lei.

É por isso que o jornal Daily Mail mostra May, em uma charge, pisando na bandeira europeia, debaixo de uma britânica que flutua na entrada do Reino Unido. E aproveita para impingir à premiê o terrível e venerado título com que foi galardoada Margaret Thatcher, a “dama de ferro”, entendendo-se que nada é mais saudável para um país do que cair de tempos em tempos, a cada 25 anos, por exemplo, nas garras afiadas de uma “dama de ferro”.

Será que esse Reino Unido teve um pouco de medo? Quem sabe, sim. Na realidade, ele tem medo, chega mesmo a se preocupar, mas não por ele próprio. Pela Europa, pela pobre Europa! O que acontecerá à velha Europa, agora que o Reino Unido a abandonou? O deputado conservador britânico Andrew Rosindell não esconde aos europeus que eles estão correndo perigo. “A UE irá desaparecer. O Brexit é simples, vejam: nós não tomaremos mais ordens de Bruxelas, e, num salto, passaremos à frente do restante da Europa.”

E, como se sentisse compaixão pelo caos experimentado pelos europeus diante dessa desgraça, propõe um alento: “O que vocês querem? O Reino Unido sempre esteve à frente ao longo da História.”

Os especialistas britânicos, polidos como sempre, se dão ao trabalho de explicar aos europeus esse episódio que não entenderam absolutamente. Os franceses, os alemães, etc. imaginavam que o Reino Unido se fecharia em si mesmo, como uma “velha dama”.

My God! Em primeiro lugar, o Reino Unido não é uma velha senhora, é uma jovem lindíssima. Em segundo lugar, deveríamos dizer o contrário. Se Londres quis sair da Europa, do mercado único e da união alfandegária, não foi para se encolher, ao contrário, foi para se abrir ao mundo. É isso que não entra facilmente nos cérebros continentais. “A Europa precisa mais de nós do que nós dela.”

É a respeito do destino da City, centro das finanças, que o mal-entendido se torna mais cômico. Os países europeus, como França e Alemanha, choram “lágrimas de crocodilo” sobre a desventura da City que verá os traders, os banqueiros, os funcionários da Bolsa, todo esse mundinho tão simpático e tão próspero, deixar as margens do Tâmisa para recolher-se às do Sena. Felizmente, o diretor do Banco da Inglaterra, Mark Carney, abriu os olhos dos europeus: “O risco do Brexit, no que diz respeito à saúde financeira, é mais importante para o continente do que para o Reino Unido.”

E explicou o erro dos europeus: a verdade é que a Europa se tornou “dependente” da City. Um empreendimento europeu precisa de fundos? Vá a Londres. Precisa encontrar acionistas? Procure sempre Londres. E se precisar adquirir produtos financeiros para se garantir contra as surpresas do câmbio? Londres, já disse, procure sempre Londres.

É por isso que o período de transição será um pouco difícil para os europeus. Mas os europeus não devem perder a cabeça. Eles se sairão bem de qualquer maneira.

Há um laivo de ironia nesse artigo? De modo algum. Admiro demais a Inglaterra, sua longa e heroica história, para zombar de suas zombarias. Na verdade, acredito que às vésperas de um combate que será acirrado para decidir se serão mantidos alguns vínculos entre Londres e Bruxelas – algo que Londres, no fundo, deseja, embora afirme o contrário –, cada um dos dois exércitos estufa o peito, ridiculariza o adversário e faz girar os globos oculares nas órbitas, como fazem os pugilistas americanos antes de subir aos ringues. 

Em seguida, depois de algumas semanas, meses, anos, serão restabelecidas algumas das rotas cortadas anteriormente, novas pontes serão lançadas sobre os rios, e serão encontradas soluções para os problemas sem solução. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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