A decadência do patriarca

Imagine o seguinte. A economia nacional está em recessão profunda. Apagões crônicos escurecem casas, fábricas e lojas. A inflação anual passa dos 30%, uma das piores taxas do mundo. Idem para a violência, que transformou a capital num campo de batalha. É um quadro para debelar qualquer governo e alegrar seus desafetos políticos. Mas, na Venezuela de Hugo Chávez, que preside há mais de uma década com um rolo compressor na mão e Simon Bolívar na cabeça, as regras sempre foram diferentes.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2010 | 00h00

No próximo domingo, estimados 70% dos 17,5 milhões de eleitores venezuelanos votarão para um novo Parlamento em meio a uma das piores crises econômicas, políticas e sociais em mais de uma década. O desarranjo deve ser visto nas urnas, galvanizando os inimigos de Chávez e frustrando seus devotos. A crise já jogou os índices de aprovação do comissário do socialismo do século 21 para a faixa de 40%, o pior nível desde que assumiu o poder, em 1999. Mas não soltem o obituário bolivariano ainda.

A julgar pelas pesquisas de intenção de voto, o Partido Unido Socialista da Venezuela (PSUV), de Chávez, perderá espaço na legislatura unicameral de 167 assentos, mas não deve sofrer um colapso. O veterano analista político Luis Vicente León, do instituto Datanalisis, prevê um páreo embolado, com 52% dos votos para candidatos do governo e 48% para os opositores.

Para a acidentada oposição venezuelana, é um grande avanço. Ou melhor, "receber 50% dos votos é um golpe duro para Chávez", disse Diego Arria, ex-embaixador venezuelano nas Nações Unidas e crítico frequente de Chávez, que reagiu desapropriando sua fazenda em nome da revolução.

O resultado pode diluir o controle que Chávez exerce na legislatura, onde o governo manda e desmanda, triturando a Constituição a contento. No entanto, diante da tímida união dos partidos de oposição e da nova partilha dos distritos eleitorais, que joga a favor dos governistas, até uma derrota nominal no voto popular pode terminar em vitória chavista. Que seja assim, mesmo após 11 anos de crises, encrencas e atrito permanente, é o mistério do hemisfério.

Desde que assumiu o poder, em 1999, Chávez faz o que quer na nação de 29 milhões de habitantes. Padrinho de um fracassado golpe militar nos anos 90, o "comandante" Chávez trocou o paiol pelo palanque e encantou o país cansado da ladainha de uma elite política notoriamente corrupta e descompromissada com a maioria desassistida.

Governou desde então com uma mescla de intimidação, favor, boa lábia e disfunção partidária, premiando aliados e sufocando o resto. De 11 pleitos, ele e seus aliados venceram 10, até mesmo 2 vezes a reeleição presidencial e um voto de confiança movido pela oposição. Em 2007, em sua única derrota, perdeu um referendo para eliminar a restrição constitucional a repetidas reeleições, mas ganhou outro dois anos depois, abrindo o caminho para permanecer eternamente no poder.

Durante o caminho, Chávez teve uma mão da oposição, que boicotou a última eleição parlamentar, em 2005, com o argumento - perfeitamente plausível - de que a votação seria fatalmente comprometida por fraudes e intimidação. A ação resultou em um pacto de suicídio coletivo em que o PSUV de Chávez ganhou o controle absoluto do Parlamento e, agora, detém 138 dos 167 assentos, um carimbo virtual ao projeto bolivariano.

Apanhando, a oposição aprendeu e agora está de volta à política. Promete conquistar adeptos em Caracas e em outras grandes cidades, onde falta luz e sobra crime, manchando a marca bolivariana. Chávez, bom soldado que é, já montou a retaguarda, acionando o Congresso para redesenhar o mapa eleitoral e aumentar a representatividade das áreas rurais, ainda simpáticas ao governo. Na nova matemática eleitoral, mesmo que a oposição conquiste uma maioria simples - digamos, 51% dos votos - o domínio do governo no Congresso continua intocado. Só a partir de 56% é que os oposicionistas conseguem ultrapassar o bloco chavista.

O plano B da oposição é bem mais factível: eleger deputados suficientes - o número mágico é 57, dizem - para derrubar a supermaioria governista de dois terços do Congresso, privando Chávez de seu rolo compressor. Compartilhar o poder e negociar reformas, porém, não faz parte da cartilha bolivariana. E aí mora o perigo.

O novo Parlamento toma posse só em janeiro. São cem dias para o governo "derrotado" fazer o que bem entender, seja retalhar o que resta da Constituição, seja criar uma Assembleia Nacional paralela ao estilo cubano, com presidente, conselho e leis próprios, para blindar sua autoridade. Qualquer que seja o desfecho, a perspectiva é de mais confronto e crise. Os críticos do experimento bolivariano sempre alardearam a ameaça para América Latina de um Chávez poderoso, mas se esqueceram de avisar sobre o patriarca em decadência.

É CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" E COLUNISTA DO "ESTADO"

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