A decepcionante presidência de Medvedev

Ao deixar o Kremlin, discípulo de Putin admite que nunca foi o reformador liberal que afirmava ser, evidenciando que mentiu não só ao Ocidente, mas também aos russos

O Estado de S.Paulo

13 Maio 2012 | 03h03

O circo político russo prolongou sua turnê. Quatro anos atrás, Dmitri Medvedev foi escolhido para manter aquecido o assento de Vladimir Putin. E agora que Putin volta à presidência, Medvedev assumirá o posto de premiê. Essa troca de cargos poderia ter sido aceita pela maioria dos russos sem um murmúrio há muitos anos, mas a Rússia mudou dramaticamente desde então. A troca, na verdade, aprofundou o ressentimento de muitos no país, que a viram como um tapa na cara.

Mas onde isso deixa Medvedev? Para muitos russos, o presidente de saída é visto como uma nulidade cujo principal legado concreto será a absurda redução dos fusos horários da Rússia de 11 para 9.

Durante sua pretensa presidência, o sistema russo exibiu sinais inconfundíveis de decadência, demonstrada pelo papel crescente de órgãos repressivos e sua criminalização, a fusão de poder e propriedade, e as tentativas da elite governante de repassar sua riqueza e seus cargos para parentes e amigos. Medvedev geralmente expressava ideias liberais, mas as consequências sempre estiveram ausentes de suas propostas. Ele só tinha poder para falar, não para agir. Quanto mais tentava ser levado a sério, mais cômico e patético parecia.

Por que, então, Putin manteria Medvedev como premiê? O ex-ministro das Finanças Alexei Kudrin, ou praticamente qualquer outra autoridade de alto nível, seria uma escolha mais eficaz. Mas eficácia não é o objetivo de Putin. Seus critérios antes se baseiam em lealdade, em manter intacta uma arquitetura corrupta, e eliminar ameaças potenciais.

É assim que funciona o sistema personalizado na Rússia: ao ficar de lado e não concorrer à reeleição, Medvedev demonstrou sua lealdade a Putin e, em troca, Putin mostrou que recompensa a lealdade. O único consolo da volta de Putin ao poder pode ser a maneira como ele revela a farsa que de fato foi a presidência supostamente reformista de Medvedev. Eis o legado de Medvedev em uma frase: ele permitiu que o regime personalizado de Putin continue como está.

Medvedev jogou seu papel com perfeição. Ele garantiu a continuidade do regime e ajudou Putin a evitar violar a proibição constitucional de ter mais de dois mandatos presidenciais consecutivos. Mas ele fez mais do que isso. Para o retorno de Putin, Medvedev estendeu o mandato presidencial de quatro para seis anos e se Putin buscar um segundo mandato em 2018 poderá servir como presidente por 20 anos.

A política com a marca de Medvedev era a modernização, mas além de construir Skolkovo - sua duvidosa tentativa de criar um "Vale do Silício" russo - ele tem pouca coisa a mostrar. Aliás, a modernização, como muitas coisas que Medvedev defendia, foi uma grande decepção.

No fim de sua presidência, a Rússia concedeu poderes maiores às agências de aplicação da lei e testemunhou uma maior intimidação da oposição e pressão administrativa sobre empresários (um terço dos prisioneiros na Rússia é de empresários). As extorsões pela polícia ou outras autoridades estatais tornaram-se uma ocorrência mais regular para muitos russos. Os farsescos segundos julgamentos dos oligarcas Mikhail Khodorkovski e Platon Lebedev ocorreram sob a supervisão de Medvedev, e ele também perdeu a oportunidade de perdoar a ambos.

Acusações. Foi com o "liberal" Medvedev na presidência que ocorreu uma fraude em massa durante as eleições parlamentares de dezembro de 2011 e a eleição presidencial de 4 de março. Os resultados oficiais para a Duma (Câmara Baixa) deram ao partido do poder, o Rússia Unida, 49,3%, mas pesquisas confiáveis de boca de urna sugerem que essa cifra ficou próxima de 35%. Da mesma maneira, Putin obteve oficialmente 64% dos votos, enquanto fontes independentes afirmam que ele ficou um pouco abaixo do limiar dos 50% necessários para evitar um segundo turno.

No mínimo, Medvedev realmente exacerbou o ressentimento da população urbana educada com o regime com sua pregação vazia de democracia e liberdade. Ao mesmo tempo, sua impotência ocasionou a erosão do medo, uma emoção que Putin havia usado com eficácia para manter o controle durante seus primeiros oito anos no poder. Essa redução do medo pode de fato tornar um regime frágil ainda mais quebradiço.

Na política externa, a presença de Medvedev no Kremlin permitiu que Washington desse continuidade ao "reinício", uma política que seria quase impensável se Putin tivesse permanecido na presidência.

A política de reinício desconsiderou o fato de que o sistema russo, a despeito da fachada mais branda de Medvedev, não havia mudado. Essa realidade tornou-se mais visível no último ano em diferenças sobre Síria, defesa antimísseis e direitos humanos. Devia ser evidente muito antes que a imagem liberal e pró-Ocidente de Medvedev era mais imaginária que real.

No Ocidente, pouquíssimos ficaram encantados com o novo inquilino do Kremlin. Outros observadores, incluindo alguns do governo americano, fizeram elogios rasgados a Medvedev, atribuindo grande significado a seus pronunciamentos sobre modernização e combate à corrupção.

Mais recentemente, Medvedev esclareceu a seus admiradores: "Do meu ponto de vista, eu nunca fui um liberal", ele anunciou após aceitar um oferecimento para liderar o partido Rússia Unida, no fundo admitindo que estivera mentindo não só a seus interlocutores do Ocidente, mas também a seus concidadãos. Medvedev tornou-se uma desculpa conveniente para alguns que queriam se reconciliar ou fazer negócios com o Kremlin. Na verdade, sua retórica vazia legitimou a realidade do autoritarismo russo e ajudou a elite política e os oligarcas empresariais russos a interagirem com o Ocidente.

Com a passagem para o cargo de premiê, Medvedev permanecerá como uma nota de rodapé na História. Mas, ao menos agora, o Ocidente e aqueles no interior da Rússia que esperavam que ele começasse uma verdadeira mudança podem parar de fingir e almejar. O retorno formal de Putin ao Kremlin põe a nu o verdadeiro sistema russo de governo de um homem só.

O fim da presidência falsamente liberal de Medvedev provavelmente obrigará o Kremlin a depender mais de mecanismos repressivos e de alimentar o nacionalismo. Isso, por sua vez, provavelmente produzirá uma crescente ira e frustração na sociedade, alimentando prováveis sublevações políticas - já houve mais greves trabalhistas na Rússia até agora neste ano do que em todo o ano passado.

A decepção com Medvedev poderá matar as falsas esperanças de que a mudança emanaria do topo na Rússia. Ao mesmo tempo, a pressão de baixo poderá causar circunstâncias nunca vistas não diferentes das que ocorreram recentemente no mundo árabe. Ao deixar o poder formal, Medvedev deixa seu país desmoralizado.

Durante sua presidência, o regime tornou-se mais corrupto e desacreditado, enquanto o país estagnava. O único ponto brilhante é que o povo russo exibiu um despertar, um desejo crescente de cobrar responsabilidade de seu governo. A manifestação do domingo passado mobilizou dezenas de milhares de manifestantes; centenas foram detidos e brutalmente atacados por forças de segurança na mais recente evidência de que o regime está perdendo a legitimidade.

A repressão, que ocorreu apropriadamente no último dia de Medvedev no cargo, sugere novas questões sobre a sustentabilidade do sistema. A disposição dos manifestantes de enfrentar as autoridades prova que a Rússia está ingressando em tempos turbulentos.

Na preparação de sua saída, Medvedev disse: "Todos deveriam relaxar. Isso (sua associação com Putin) é para um longo tempo". Esses sentimentos arrogantes sugerem que nem ele nem seu chefe aprenderam qualquer lição de seu tempo no Kremlin, para não mencionar alguma lição da longa história da Rússia. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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