A defesa do 'senhor das armas'

Elite russa deve estar com medo do que o 'mercador da morte' pode revelar às autoridades americanas

Jackson Diehl / THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2010 | 00h00

Os criminosos internacionais associados ao governo da Rússia estão acostumados à impunidade. Um par deles chegou a integrar o Parlamento russo, apesar de acusações de assassinato por uma polícia estrangeira.

Portanto, não surpreende que a extradição da Tailândia para os Estados Unidos, na terça-feira, de Viktor Bout, um notório traficante de armas conhecido como o "mercador da morte", provocou um clamor de ultraje em Moscou. "Extrema injustiça", sentenciou o chanceler Sergei Lavrov. Disse o Ministério das Relações Exteriores: "Não resta dúvida de que a extradição ilegal de V. A. Bout vem como consequência de uma pressão política sem precedente" dos EUA.

Daria para pensar que o governo de Barack Obama sequestrou um herói nacional. Portanto, vale a pena lembrar quem Moscou está defendendo.

Bout, um ex-tradutor do Exército russo de 43 anos, durante duas décadas forneceu armas ou dinheiro para regimes espúrios e movimentos terroristas por todo o mundo - incluindo o Taleban e a Al-Qaeda. Ele abasteceu derramamentos de sangue em massa na África, levando armas a lugares como Congo, Libéria, Sudão e Serra Leoa.

Ele foi finalmente capturado em Bangcoc, na Tailândia, em março de 2008, depois que a agência antidrogas americana (DEA, na sigla em inglês) o atraiu numa transação falsa - Bout pensou que estava lá para se encontrar com representantes das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc).

Depois da prisão de Bout, a Rússia não economizou esforços para libertá-lo e impedir sua extradição. Petróleo com desconto teria sido oferecido ao governo tailandês. Moscou ameaçou não tão sutilmente tanto a Tailândia quanto os Estados Unidos de retaliação se Bout fosse extraditado.

Mas o regime de Putin parece não ter escrúpulos em fazer uma campanha pública por Bout. O motivo de Moscou não é a mera defesa de um cidadão russo. Especialistas como Douglas Farah, um ex-repórter do Washington Post que é coautor de um livro sobre Bout, acha que a elite russa está apavorada com o que Bout poderia revelar como parte de um acordo judicial com procuradores americanos.

Onde ele obteve as armas e helicópteros que vinha entregando em zonas de guerra, ou o avião de carga de fabricação russa que os transportou? Ele teria entregado armas russas ao Hezbollah? E quem o encorajou a fazer negócios com as Farc? O movimento guerrilheiro é apoiado pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, que, por sua vez, é um dos maiores clientes da indústria russa de armamentos. Todas boas perguntas que Putin não quer que Bout responda.

Evidentemente, o "mercador da morte" deve ter informações embaraçosas sobre o governo americano. Como já se reportou, suas empresas foram contratadas como fornecedoras pelo Pentágono para entregar armas no Iraque em 2003 e 2004. Mas é o governo americano, afinal, que está processando Bout - supostamente ele está pronto para enfrentar as revelações de Bout. Para a Rússia, por sua vez, o julgamento de Bout poderia oferecer um raro exemplo da aplicação do domínio da lei. Esperemos que seja um precedente. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

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