AFP PHOTO / MATTHIEU ALEXANDRE
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A demissão de Macron

O ex-ministro da Economia francês é o pequeno prodígio que o presidente Hollande, com sua perspicácia habitual, foi buscar no banco Rothschild, onde fez uma carreira fulgurante

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

31 Agosto 2016 | 05h00

Um ministro que se demite não é um fato raro. No geral, os franceses não fazem disso um enorme problema. Mas quando se soube que o demissionário foi o ministro da Economia, Emmanuel Macron, toda a França ficou em alerta. Macron é o pequeno prodígio que o presidente Hollande, com sua perspicácia habitual, foi buscar no banco Rothschild, onde fez uma carreira fulgurante, e o tornou ministro. Era o favorito de Hollande. Sua “criatura”.

O primeiro mérito da demissão foi, portanto, fornecer aos jornalistas artigos com títulos como: “O jovem ministro mata o pai”, ou “A criatura se revolta contra seu criador”, e até “O robô foge”.

É preciso dizer que Macron sempre entusiasmou os jornais, em razão de sua ascensão quase irreal, de sua idade, 37 anos; de seu discurso iconoclasta: um homem de esquerda que admirava o “patronato”. Macron chegou a pronunciar essa frase abominável: “É preciso que os jovens franceses ambicionem ser bilionários”. Ou, “a figura do rei faz falta na vida política francesa”.

Mas ele tem também outros encantos. Foi aluno brilhante em todas as disciplinas, filosóficas e científicas. Praticante de futebol e boxe, um grande dançarino de tango e um pianista excelente. Mais uma chance para os jornalistas encontrarem um novo título para ele: “O pequeno Mozart do Eliseu”.

Não é tudo. É um homem bonito. As revistas femininas, como Elle ou Gala o chamam de “belo menino” ou “o jovem premiê”. Se quisesse fazer uma crítica, diria que tantas virtudes, tanto conformismo e tantas chances poderiam tornar este “prodígio” um pouco enfadonho. Mas não, pois em sua sabedoria, Macron previu tudo, incluindo algumas irregularidades.

E, de fato, soubemos que é casado com uma mulher 20 anos mais velha. Era sua professora de filosofia. E como ela tinha filhos, hoje, aos 38 anos, Macron já é três vezes avô.

Mas voltemos à política: a saída dessa “pérola” do governo poderá causar prejuízos para seu inventor, François Hollande? Sem dúvida uma dor no coração, mas não muito forte. Porque Hollande é um homem frio. Em compensação, para sua estratégia a perda é abrupta. 

Se Hollande nomeou Macron seu ministro há dois anos, foi para comandar uma mudança econômica arriscada. O socialismo de Hollande fracassou. Portanto, a ideia era agir como Blair na Grã-Bretanha e Schroeder na Alemanha: inventar uma “terceira via”, passar do socialismo antigo para um socialismo liberal, ou “social liberal”. E Macron, um homem de direita travestido de homem de esquerda, era o ideal. 

Não deu certo. Macron não levantou o país com sua varinha mágica. Com suas declarações categóricas encantou os patrões, uma parte da direita e uma parte dos socialistas. Mas a única lei que conseguiu promulgar, embora tenha agradado os patrões, não conseguiu despertar uma economia letárgica.

A saída de Macron confirma o fracasso da mudança liberal pretendida por Hollande. A terrível solidão em que o presidente se cercou se aprofundou. E leva a uma outra interrogação. O premiê retomou sua liberdade, mas para fazer o quê? 

Sucessão. Ocorre que em menos de um ano a França elegerá um novo presidente da república. A princípio, Hollande deve se candidatar a um segundo mandato em nome dos socialistas, mas sua popularidade caiu a menos de 15%, e talvez ele acabe por abandonar a ideia da candidatura.

Caso se confirme tal hipótese, Macron poderá se aventurar. Afinal, à direita, há dois “velhos”, Alain Juppé e Nicolás Sarkozy. À extrema direita está Marine Le Pen. Mas e à esquerda? Bom, ele foi socialista e até de esquerda. Além do que é de “direita”. Então... / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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