A democracia muçulmana em ação

A idéia de que democracia e Islã são fundamentalmente incompatíveis, que ameaça se consolidar como senso comum em Washington, acaba de levar um duro golpe: o político liberal e pró-ocidental Abdullah Gul foi eleito ontem presidente da Turquia pelo Parlamento. Gul fala inglês fluente e foi um aliado fiel - ainda que discreto - dos Estados Unidos durante mais de quatro anos como ministro das Relações Exteriores. Ele também se identifica como um muçulmano religioso num país com uma história de 85 anos de secularismo militante. Sua mulher usa na cabeça o véu proibido em escritórios públicos, universidades e - até agora - no palácio presidencial Cankaya, em Ancara. Muitos na Turquia dizem temer que a eleição de Gul marque o começo do fim da modernização em estilo ocidental do país. O primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan também tem raízes políticas no Islã. O Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) agora controla dois ramos do governo, com amplo poder para sancionar leis, nomear juízes e reitores universitários e, em teoria, comandar os militares. Alguns em Washington também estão preocupados - incluindo partidários de Israel, que suspeitam que Erdogan seja simpático ao movimento palestino Hamas, e conservadores que o acusam de conspirar para minar a democracia secular da Turquia. A visão que se consolida em Washington é a de que os islâmicos usam a democracia apenas para ganhar poder e impor sua ideologia totalitária - ou seja, qualquer eleição que eles vencerem será a última. No entanto, nos últimos cinco meses de complexa luta pelo poder, os lados se inverteram. Os islâmicos defenderam não só a democracia, mas também a conciliação e a moderação. A ameaça à estabilidade política da Turquia veio dos pretensos secularistas, que recorreram a protestos nas ruas e decisões judiciais distorcidas e levaram a cabo o que veio a ser conhecido como o primeiro golpe via internet do mundo. O bizarro evento ocorreu na noite de 27 de abril, quando o Exército - que perpetrou quatro golpes convencionais contra governos eleitos desde 1960 - publicou uma declaração em seu website anunciando a detecção de uma "ameaça crescente" ao governo secular. Naquele momento, a nomeação de Gul para a presidência estava em pauta no Parlamento, mas a Suprema Corte estudava uma improvável contestação judicial baseada na suposta falta de quórum. Certamente encorajada pelo ruído dos militares, a corte deu razão aos querelantes da oposição, criando um impasse. Os generais e os partidos tradicionais esquerdistas e nacionalistas esperavam que Gul fosse obrigado a retirar-se em favor de um candidato "de consenso" escolhido nos bastidores. Em vez disso, Erdogan convocou uma eleição geral. Ao forçar uma votação, ele convidou os turcos a considerar o histórico de seu partido no poder, em contraste com os cenários sombrios de islamização sorrateira pintados pela oposição e pelos militares. Foi uma manobra brilhante. Afinal, o governo de Erdogan tem sido um dos mais liberais e modernizadores da história turca recente. Sob a liderança de Gul, ele pressionou em favor de negociações sobre o ingresso na União Européia e, a fim de obter a aprovação, implementou uma série de reformas judiciais e de direitos humanos. A minoria curda e as mulheres ganharam mais direitos; a pena de morte foi abolida. A economia foi liberalizada e aberta ao investimento estrangeiro, motivando um boom graças ao qual a Turquia deixou de ser um país fracassado na sala de emergência do FMI para tornar-se um tigre emergente com crescimento anual de mais de 7%. Os resultados da eleição do mês passado devem ter chocado os generais: os islâmicos moderados obtiveram quase 47% dos votos, ante 34% no pleito de 2002, e conquistaram 340 das 550 cadeiras do Parlamento. A mensagem dos eleitores foi clara: a intervenção militar não é bem-vinda. Milhões de turcos gostam da religiosidade moderada de Erdogan e Gul e de suas políticas pró-capitalistas e pró-ocidentais - e não vêem nenhuma contradição entre elas. Por isso, muitos passaram a ver a eleição de Gul como uma vitória da democracia e também do princípio segundo o qual um partido político muçulmano pode ser moderado e liberal. Seria de se esperar um êxtase do governo Bush. Em vez disso, os EUA pareceram curiosamente confusos desde o início da crise. O Departamento de Estado e a Casa Branca praticamente se calaram durante os eventos de abril, mesmo enquanto governos europeus conclamavam publicamente os militares a respeitar o sistema democrático. Mesmo depois da clara vitória eleitoral de Erdogan, funcionários americanos defenderam o "consenso" na votação presidencial - ou seja, outro candidato que não Gul. Mas Gul não recuou, o que significa que a Turquia tem um presidente mais amigável em relação aos EUA do que a vasta maioria dos políticos turcos "seculares" - ou dos turcos étnicos. Ele não deveria ser bem-vindo?*Jackson Diehl é colunista do jornal ?The Washington Post?

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