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A democracia no mundo segue em risco

Sob o desdém de Trump, somado a outros fatores, a democracia perdeu projeção

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2021 | 22h02

A democracia continuou a se deteriorar em 2020, segundo o índice global da Unidade de Inteligência da revista The Economist. De 0 a 10, o índice atingiu 5,37 no ano passado, o patamar mais baixo desde que o ranking foi criado, em 2006. 

O índice não captura os eventos deste ano, como a invasão do Capitólio, a condenação do líder oposicionista russo Alexei Navalni, o golpe em Mianmar e o fortalecimento da extrema direita eurocética com o fracasso do programa de vacinação conduzido pela Comissão Europeia.

Pelo levantamento, apenas 8% da população mundial vive em democracias plenas, enquanto um terço está sob regimes autoritários. Dos 167 países analisados, o Brasil está em 49.º lugar, com nota 6,92, imediatamente abaixo da Argentina e acima da Polônia. 

A curva vem caindo desde 2015, o que é bastante revelador. Foi um período de estagnação da economia mundial, com a desaceleração do crescimento na China e a debacle de economias como a brasileira, que até então surfavam no superciclo das commodities. Foi o ano da avalanche de imigração na Europa.

A extrema direita europeia associou a perda de poder de compra e de direitos sociais (real ou percebida) com a “invasão” dos estrangeiros, e cresceu politicamente ao explorar a combinação de medo e raiva, as duas emoções que mais mobilizam as pessoas comuns.

Vieram então o plebiscito que deu vitória ao Brexit e a eleição de Donald Trump, em 2016, e a impressionante votação de Marine Le Pen, 34%, no segundo turno contra Emmanuel Macron, nas eleições presidenciais francesas de 2017.

A extrema direita conservadora e nacionalista chegou ao governo na Itália, Áustria, Hungria e Polônia, e ganhou terreno na Alemanha, Espanha, Holanda e Suécia, entre outros.

Cada país tem sua realidade própria. Dito isso, certas percepções formam ondas que criam consensos em grandes grupos e mudam concepções a respeito do que é defensável. Veja o exemplo de Mianmar.

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Os militares derrubaram o governo de Aung San Suu Kyi alegando “fraude” nas eleições de novembro, em que o partido dela, a Liga Nacional pela Democracia, obteve 83% das cadeiras do Parlamento. É a mesma alegação que levou Trump a rejeitar o resultado das eleições no mesmo mês, e seus seguidores, a invadir o Capitólio, depois de serem incitados por ele em um comício no dia 6 de janeiro.

No dia seguinte, o presidente Jair Bolsonaro declarou: “Se nós não tivermos o voto impresso em 2022, uma maneira de auditar o voto, nós vamos ter problema pior que os EUA”. 

O modelo da tutela do governo pelos militares, presente em Mianmar e no restante do Sudeste Asiático, assim como na Venezuela, Coreia do Norte, Turquia, Irã e mundo árabe, também parece emoldurar a visão do presidente brasileiro. “Quem decide se um povo vai viver na democracia ou na ditadura são as suas Forças Armadas”, observou ele no dia 18. “No Brasil, temos liberdade ainda. Se nós não reconhecermos o valor desses homens e mulheres que estão lá, tudo pode mudar.”

A força da democracia é medida pelo grau de subordinação dos corpos armados aos governantes eleitos. Os governadores brasileiros não impuseram lockdowns com rigor porque não têm pleno comando sobre as polícias, ideologicamente vinculadas ao atual presidente. 

A China chamou o golpe em Mianmar de “reforma ministerial”. Democracia e autoritarismo se encaixam na Ásia, respectivamente sob as influências dos EUA, de um lado, e da China e da Rússia, de outro. Sob o desdém de Trump, somado a outros fatores, a democracia perdeu projeção. 

Biden prometeu, na quinta-feira, reengajar os EUA com seus aliados na defesa da democracia e dos direitos humanos. É um desafio de nadar contra a correnteza. Mas não se deve subestimar o poder de tração de EUA, União Europeia, Japão e Coreia do Sul, quando remam na mesma direção.

É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA  DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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