Rosana Naggar
Rosana Naggar

‘A democracia tem de ser capaz de se defender’

Para ex-embaixador de Israel na ONU, assim como os israelenses, Ocidente precisa se defender dos ‘extremamente radicais’

Entrevista com

Ron Prosor

Renata Tranches, O Estado de S. Paulo

05 Abril 2016 | 05h00

Por quatro anos e meio, o diplomata Ron Prosor representou Israel nas Nações Unidas, período em que o presidente da Autoridade Palestina (AP), Mahmoud Abbas, apresentou proposições como o pedido para o reconhecimento do status de Estado observador na organização.

Para Prosor, a atitude do líder palestino foi uma tentativa de “driblar” o diálogo direto com Israel. “A distância entre Ramallah e Jerusalém é menor do que entre Nova York e Jerusalém”, afirmou, em entrevista ao Estado, durante uma visita a São Paulo, na semana passada. 

Israel retirou o nome de Dani Dayan como embaixador no Brasil. O mal-estar está desfeito? 

Enquanto falamos aqui, Dani Dayan está sendo nomeado cônsul-geral em Nova York. Isso significa que o Estado de Israel vai nomear um novo embaixador para o Brasil. Temos de esperar pela decisão, que será em breve. 

No seu período como embaixador na ONU, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, apresentou proposições que desagradaram a Israel. Quais foram seus efeitos? 

Você está se referindo à resolução de 2012 em que os palestinos pediram o status de Estado observador à Assembleia-Geral. É importante que as pessoas entendam que só se alcança a paz com negociações diretas. Não é fácil, é frustrante, é difícil, mas a paz real só pode ser alcançada quando as pessoas conversam diretamente. Foi assim que fizemos a paz com o Egito e com a Jordânia. E temos conversado diretamente com os palestinos desde 1993. O que os palestinos estão tentando fazer agora é driblar, em vez de negociar com Israel, querem impor uma solução a Israel. Isso não levará à paz, mas à violência, à frustração e a uma situação pior do que está agora. Acredite, a distância entre Ramallah e Jerusalém é menor do que entre Nova York e Jerusalém.

Mas houve algum impacto? 

Qualquer tentativa de se impor algo de fora não levará à paz, mas a mais violência. Veja o acontece em nossa região. Lembre de que, no passado, as pessoas disseram que o conflito entre Israel e palestinos era o maior conflito do Oriente Médio e se ele fosse resolvido a maioria dos problemas da região seria resolvida. Eles repetem isso de novo, de novo e de novo. Sério? Esse é o principal problema do Oriente Médio? Xiitas contra sunitas, Iêmen, Líbia, Síria, Líbano, Iraque... isso tem alguma coisa a ver com Israel? Temos de resolver porque é importante para nós, mas não é o principal conflito do Oriente Médio. 

Mas em volta de Israel. 

Nações estão se desintegrando diante dos olhos de todos. Na Líbia, as estruturas já eram, na Síria, também, no Iêmen, também. Novas estruturas ainda não foram estabelecidas. Nesse sentindo, é uma situação muito volátil. Israel é a única democracia no meio de todo esse vulcão. Veja o que está acontecendo agora com as forças jihadistas islâmicas que têm feito ataques suicidas no meio da Europa. Por quê? Porque eles vão contra tudo em que nós acreditamos, os valores que compartilhamos, as estruturas democráticas. Não é só Israel. Lembre-se de que Israel começou a fazer checagem nos aeroportos 25 anos atrás. As pessoas diziam que não era legal. Vinte e cinco anos depois, veja o que acontece em todos os aeroportos. A democracia tem de ser capaz de se defender. É preciso encontrar uma maneira de defender o próprio povo daqueles que são extremamente radicais, que são um problema para todos nós, não apenas para Israel. 

O sr. trabalhou com desarmamento nuclear na chancelaria israelense. Qual sua opinião sobre o acordo com o Irã? 

Lembre-se de que houve um acordo entre EUA, no governo Clinton, com a Coreia do Norte. As pessoas queriam o acordo. Na época, foi dito que, com ele, a Coreia do Norte não teria armas nucleares. Hoje, a Coreia do Norte tem armas nucleares e sistema de lançamento. A Coreia do Norte é muito pequena em comparação com o Irã. Os iranianos estão espalhando e financiando sua ideologia na região, não só em Teerã, mas na Arábia Saudita, no Iraque, na Síria, no Líbano, e financiando o exército do Hezbollah. Irã e seus líderes se posicionam e falam sobre a destruição de Israel, abertamente. Israel está certo em estar preocupado? Sim. Porque em 10, 15 anos os iranianos podem fazer o que quiserem. Apenas pense no comportamento dos iranianos hoje sem as armas nucleares. Com elas, o que vão fazer?

Qual a expectativa de Israel com relação às eleições presidenciais nos EUA até agora? 

Para Israel, os EUA são o mais importante e estratégico aliado. A conexão entre o povo de Israel e o americano é muito forte, porque se baseia em valores comuns, que compartilhamos. E dizemos que nossa relação independe de partido. No Congresso, é entre democratas e republicanos, Israel é um país que trabalha com os dois lados. Isso é muito importante de se manter, esse apoio de ambos os lados nos EUA. Do meu ponto de vista, os EUA deveriam votar para um presidente que é bom para o país. Se é bom para eles, é bom para Israel. 

Mas Donald Trump tem sido criticado por não assumir uma posição clara em defesa de Israel. O que sr. acha? 

Israel não tem a intenção de interferir na política americana. Os americanos escolherão seu presidente, e independentemente de quem eles escolherem, Israel ficará mais do que feliz de trabalhar junto, de braços abertos. 

Abbas tem falado em se aposentar. Na visão de Israel, quem poderia assumir as negociações? 

Primeiro de tudo, a liderança é muito importante. Assinamos um acordo de paz com o Egito sob a presidência de (Anwar) Sadat, com a Jordânia com o rei Hussein, o pai do atual rei Abdullah. Precisamos de uma liderança que possa tomar decisões. Aprendemos que, como israelenses, não podemos decidir pelos palestinos quais serão seus líderes. Eles decidirão. Mas têm de decidir por alguém que possa ajudá-los, à sua sociedade e a seu povo. É importante ver como um líder agiria em tempos como o que temos hoje, por exemplo. Se esse líder vai a público condenar a ação de homens-bombas contra o povo, condenar os esfaqueamentos de judeus ou o assassinato de pessoas, como ele age com relação à incitação contra judeus, israelenses. Nós não temos ouvido nenhuma voz condenando isso, apenas vozes apoiando o financiamento de terroristas. Precisamos de uma liderança do outro lado, que seja capaz de tomar decisões.  

A geração de israelenses e palestinos que nasceu após os acordos de Oslo não conhece um período de paz, apenas de conflito. Como trabalhar isso? 

Educação, educação, educação, para entendimento mútuo, para se comprometer, para tolerância. Isso constroi a base para uma sociedade melhor. E temos de fazer isso o tempo todo. Se os jornais, as TVs mostram os judeus de uma maneira antisemita, com imagens de crianças com bombas empolgadas para matar judeus, isso não ajuda a coexistência. Temos de lutar contra isso porque as pessoas estão aprendendo coisas que são terríveis para a sociedade. 

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