AFP PHOTO / HERIKA MARTINEZ
AFP PHOTO / HERIKA MARTINEZ

A deportação que separa pais e filhos

Iván Castañeda pôde rever a mulher e os filhos por 3 minutos, graças a evento criado por ONG

O Estado de S.Paulo

14 Maio 2018 | 05h00

CIUDAD JUÁREZ, MÉXICO - Durante três minutos, Iván abraçou a família, esqueceu o medo e venceu o muro entre o México e os EUA defendido pelo presidente Donald Trump. Na linha fronteiriça, sobre um afluente seco no deserto do curso d’água que os EUA chamam de Rio Grande e o México, Rio Bravo, Iván Castañeda voltou a ver sua família pela primeira vez em um mês, desde que sofreu o trauma da separação. “Por que você não vem com a gente”, pergunta seu filho de 4 anos.

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Ex-soldado do Exército mexicano, Iván, de 40 anos, foi deportado há mais de duas semanas dos EUA, para onde tinha fugido com a mulher e os filhos da violência no México. A família de Iván é uma das milhares de imigrantes mexicanos que vivem separadas pela fronteira. Neste fim de semana, 310 delas puderam se abraçar por três minutos sob o sol incandescente na fronteira entre Ciudad Juárez, no Estado mexicano de Chihuahua, e El Paso, no Estado americano do Texas, graças ao evento “Abraços, não muros”, organizado pela ONG Rede Fronteiriça pelos Direitos Humanos. 

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Foi a quinta edição do evento que permitiu que 1.252 famílias separadas se reunissem brevemente para pedir perdão, chorar, rir, conversar ou tirar fotos. “Cada abraço é um ato de protesto”, assegura Fernando García, organizador do evento.

Trump chegou à Casa Branca com a promessa de deportar milhões de imigrantes ilegais e erguer um muro para evitar a chegada deles, a quem ele tem qualificado como criminosos.

Iván, que morava em Denver, Colorado, foi preso um dia pela manhã pelos agentes de imigração quando saía para trabalhar na área de construção. Desde então não tinha visto mais sua mulher e seus cinco filhos com idades entre 2 e 13 anos, que tiveram de permanecer nos EUA.

Ele finalmente os reencontrou em Chihuahua, sua terra natal, uma zona violenta disputada pelos cartéis de Juárez e Sinaloa, que traficam drogas para os EUA.

Serviu no Exército por seis anos, mas se cansou dos casos de corrupção, dos estupros e assassinatos cometidos pelos militares, até mesmo alguns de seus companheiros. Pediu baixa em três ocasiões, mas em vez disso o promoviam, até que em 2003 desertou. Então, o braço armado do cartel de Juárez tentou recrutá-lo.

“Não recusei, disse que sim. Você não pode dizer não, pois eles adotam represálias. Então, peguei minha família e entrei ilegalmente nos EUA”, lembra. Mas acabaram deportados e, como vingança, os criminosos atacaram a mãe dele a tiros.

Então Iván decidiu pedir asilo nos EUA, onde trabalhou duro durante anos para pagar US$ 15 mil ao advogado responsável por seu caso. Mas o advogado esqueceu de ir a uma audiência da apelação de sua deportação, por isso foi preso e levado a um centro de detenção onde ficou por 15 dias.

“Ali faz tanto frio que você não consegue dormir, amarram suas mãos e seus pés e o mantêm como um animal dormindo no chão.” Agora ele vive em Ciudad Juárez, trabalhando escondido em uma oficina mecânica enquanto espera a apelação de seu caso. “Ficar sozinha outra vez não é fácil, preciso de meu marido e meus filhos precisam do pai”, disse entre lágrimas Hilda Melissa Martínez, ao se despedir de Iván. / AFP

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