A derrota de Berlusconi e a nova fase política

Resultados em referendos apontam a porta de saída para o primeiro-ministro e o fim da ''era berlusconiana''

Kelly Velásquez, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2011 | 00h00

A derrota do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, nos referendos desta semana, 15 dias depois de ter perdido votos nas eleições municipais, cria uma dinâmica política que enfraquece sua aliança com a Liga Norte, partido de extrema direita, conhecido por sua posição anti-imigração.

"Se o resultado das eleições municipais foi uma bofetada, a derrota nos referendos deixou a coalizão de centro-direita nocauteada", afirmou o editorial do jornal italiano Il Corriere della Sera.

Para a maioria dos editorialistas italianos, a ampla rejeição de leis cruciais no referendo para o governo conservador de Berlusconi indica uma "porta de saída" e o "fim" político da "era berlusconiana".

Segundo os resultados definitivos, uma esmagadora maioria dos eleitores votou contra as propostas de investir no uso da energia nuclear, privatizar o sistema de distribuição de água e o chamado legítimo impedimento, que dava o direito a funcionários - incluindo o premiê e ministros - de não comparecerem a tribunais se estiverem em tarefas oficiais.

"Trata-se de uma rebelião ampla e consciente", afirma o jornal esquerdista La Repubblica, enquanto comentaristas e observadores ressaltam a importância dos meios de comunicação não convencionais, como o Facebook, para determinar o que a maioria qualifica como o "divórcio" político definitivo de Berlusconi.

"O homem que era capaz de entender o sentimento da Itália parece ter perdido seu poder mágico", afirmou o jornal americano The New York Times.

Para o comentarista político do La Repubblica Ilvo Diamanti um novo "clima social e cultural" reina no país. Para Diamanti, "o papel das redes sociais foi crucial", já que envolveu um setor do eleitorado fortemente ignorado e incompreendido pela classe política: jovens e instruídos, que deram uma lição de democracia.

O jornal italiano La Stampa, de Turim, também ressalta o peso das redes sociais para formar "novas famílias eleitorais".

Apesar das denúncias de manipulação e propaganda dos canais de TV em favor da abstenção, os italianos decidiram votar livremente, independentemente de suas simpatias políticas, pois "substituíram o medo do cidadão estrangeiro pelo medo de destruir o meio ambiente e seu próprio futuro", afirma o La Stampa.

Além de expressar a clara vontade dos eleitores de renunciar ao uso da energia nuclear e apoiar o investimento em energias renováveis, os italianos quiseram castigar Berlusconi, sua vida pessoal exposta e sua recusa em enfrentar a Justiça italiana.

"Representa o passado", resumiu o La Stampa, enquanto muitos analistas coincidem que o primeiro-ministro está nas mãos da Liga Norte. Se o partido do controvertido Umberto Bossi retirar o apoio ao multimilionário premiê, o governo cairá e a saída de Berlusconi será selada.

"Ambos evitarão as urnas", estima Diamanti, considerando que Berlusconi e Bossi tentarão se manter no poder até o fim de 2013, quando termina o mandato do premiê.

É CORRESPONDENTE NA ITÁLIA

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