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A derrota do EI

A derrota militar não é necessariamente o prenúncio do fim do EI; muito mais provavelmente, ele ingressa em nova fase

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2017 | 05h00

A derrota militar do Estado Islâmico (EI) no Iraque e na Síria marca uma mudança no equilíbrio de poder no Oriente Médio, que vai muito além do desmoronamento do “califado” e da quebra de sua espinha dorsal como organização terrorista. Ela vem acompanhada do aumento da projeção do Irã, da falência do projeto de Estado curdo no Iraque, da super extensão do território controlado por essa minoria na Síria e da explicitação das contradições da estratégia americana para toda a região.

Começando pelo EI. O grupo continua a controlar uma faixa do leste da Síria e do oeste do Iraque, acompanhando o Rio Eufrates, mas perdeu as cidades e territórios que justificavam seu título pomposo de “califado islâmico”, incluindo sua “capital”, Raqqa, na província síria de mesmo nome, e sua metrópole, Mossul, segunda maior cidade iraquiana. 

Mas a derrota militar não é necessariamente o prenúncio do fim do EI; muito mais provavelmente, ele ingressa em nova fase. “A perda do território no Iraque e na Síria é prejudicial para a capacidade e o prestígio do EI, mas podemos esperar que o movimento entre na clandestinidade e adote novas táticas”, me disse Eric Brown, pesquisador do Hudson Institute, de Washington. 

A rápida expansão militar do EI em 2014 se explica, em grande medida, pela receptividade que o grupo encontrou nas populações sunitas da Síria e do Iraque, que se sentem oprimidas, respectivamente, pela ditadura de Hafez Assad, pertencente à minoria alauita (uma ramificação do xiismo) e pelo governo iraquiano, controlado pela maioria xiita. 

“O EI encontrará espaço para conduzir sua campanha de terror no Levante a menos que o vácuo de governança e insegurança que muitos árabes sunitas enfrentam seja resolvido”, analisa Brown. Entretanto, a consolidação do poder da teocracia xiita iraniana na região reforça os receios dos sunitas.

O EI não está só. Mustafa Gurbuz, pesquisador turco do Arab Center em Washington e professor da American University, chama a atenção para o domínio da Frente Al-Nusra, ligada à Al-Qaeda, na província de Idlib, norte da Síria. “Os EUA poderiam dar a luz verde para uma ofensiva militar síria com apoio da Rússia nos próximos meses (para erradicar o grupo de lá)”, adverte Gurbuz. “A Turquia se opõe veementemente à intervenção, pois há mais de 2 milhões de civis na região, e haverá uma crise, com centenas de milhares fugindo para as cidades turcas na fronteira, que já estão superpovoadas”, acrescenta o analista. 

A campanha de quatro meses contra o EI foi conduzida pelas Forças Democráticas Sírias (SDF), uma frente de guerrilheiros curdos e árabes armada e treinada pelos EUA. Comandada pelos curdos, a SDF agora ocupa uma extensa área na província de Raqqa, o que incomoda a população árabe. As forças sírias, apoiadas por milícias patrocinadas pelo Irã e por aviões russos, avançam pelo flanco sul. Os EUA precisam decidir se cedem ou não.

No Curdistão iraquiano, o desastrado plebiscito sobre a independência, conduzido pelo presidente da região autônoma curda, Massud Barzani, no dia 25, foi a senha para as forças iraquianas, apoiadas pelo Irã e pelos EUA, recapturarem a província petrolífera de Kirkuk, antes ocupada pelos curdos. Essas forças, que incluem milícias pró-iranianas, vinham de sucessivas vitórias sobre o EI no Iraque.

Donald Trump evitou assumir uma posição em favor dos iraquianos ou dos curdos, ambos aliados dos EUA. Tanto a Turquia quanto o Irã têm minorias curdas e não admitem um Estado curdo em suas fronteiras. Os interesses estão claros para cada um na região. Os EUA também terão de fazer as suas escolhas.

 

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