A descida da Síria ao inferno

O custo humano, moral e estratégico da tragédia é alto demais para os EUA; Obama deve apoiar diretamente a oposição

O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2013 | 02h06

O ano de 2012 chegou ao fim e a Síria continua sua descida ao inferno. Pelo menos 40 mil pessoas - provavelmente muitas mais - perderam a vida no conflito e milhões de cidadãos foram obrigados a abandonar suas casas. Nos últimos 12 meses, o ditador Bashar Assad fez recurso, persistentemente, de um enorme poder de fogo com suas forças militares em resposta aos protestos que o povo sírio começara de maneira pacífica. Usando inicialmente, em fevereiro, tanques e artilharia pesada, o regime sírio promoveu ao longo do verão uma escalada nos ataques, com o uso de helicópteros, caças e, nas últimas semanas, mísseis Scud contra a própria população.

O mundo não conseguiu deter essa carnificina. O presidente Barack Obama declarou que o limite - a chamada "linha vermelha" - seria a utilização de armas químicas por Assad. Entretanto, para muitos sírios a linha vermelha fixada pelos Estados Unidos constituiu um sinal verde para o regime de Damasco usar todo seu arsenal de guerra e massacrar o povo impunemente. Muitas dessas armas continuam sendo fornecidas diretamente pelo Irã.

Apesar das advertências feitas pelos EUA, recentemente Assad deu os primeiros passos na preparação de armas químicas para usá-las contra seu povo. Pelo que já conhecemos do regime Assad - e considerando que ele promoveu uma escalada sistemática nesse conflito, com todas as outras armas dos seus arsenais - alguém acredita que esse homem é incapaz de usar armas químicas?

A descida da Síria ao inferno representa uma crescente ameaça para seus vizinhos. Turquia, Líbano, Iraque, Jordânia e Israel defrontam-se com um crescente risco de instabilidade. Quanto mais essa guerra se prolongar, maior o risco de que possa provocar um conflito sectário de dimensões muito mais amplas.

Há meses, nós insistimos que cabe aos EUA, juntamente com nossos aliados na Europa e no Oriente Médio, tomar medidas mais drásticas para deter a matança na Síria e prestar ajuda às forças moderadas da oposição. Especificamente, é preciso fornecer diretamente armas a determinados grupos rebeldes e estabelecer uma zona de exclusão aérea sobre parte da Síria.

Nenhuma das duas medidas exigiria que os EUA enviassem tropas para as zonas de conflito, tampouco que agissem sozinhos. Os principais aliados deixaram clara, reiteradas vezes, sua esperança numa liderança americana mais firme e sua frustração pelo fato de os EUA não optarem por uma ação mais contundente.

O mais perturbador é ver as condições humanas na Síria rapidamente se agravarem. Enquanto rejeita os apelos para o fornecimento de armas ou o estabelecimento de uma zona de exclusão aérea, o governo Obama enfatiza sua promessa de ajuda humanitária ao povo sírio. Entretanto, tememos que esses esforços também estejam fracassando.

Segundo representantes e especialistas americanos e europeus, 70% da assistência externa que está sendo enviada à Síria acaba sendo direcionada para áreas controladas pelo regime. Pessoas que estiveram recentemente em Alepo contaram que não viram nenhum sinal da ajuda americana naquela cidade, tampouco os habitantes tinham informações sobre a assistência americana. Consequentemente, no norte da Síria, controlado pela oposição, as pessoas estão morrendo de fome, de frio e de doenças em razão da escassez de alimentos, combustíveis e remédios.

Auxílio. O fato de a assistência humanitária americana não estar chegando ao povo sírio não só agravou a crise humana, como também criou oportunidades para grupos radicais oferecerem auxílio e, com isso, conseguirem maior apoio do povo sírio.

Para muitos, os extremistas parecem os únicos a se preocupar em ajudar os sírios na fuga. Ao mesmo tempo, os moderados da oposição síria são desacreditados e menosprezados diante da nossa falta de auxílio - incluindo a recém-criada Coalizão Nacional Síria, que integra grupos anti-Assad, foi possibilitada em parte pela diplomacia americana.

Embora as recentes deserções do regime e os revezes no campo de batalha indiquem que Assad já não consegue manter o poder, esse conflito poderá durar mais tempo, a um custo terrível e cada vez mais elevado para a população síria, para os vizinhos e para os interesses e o prestígio dos EUA. Não é tarde demais para evitar uma calamidade estratégica e moral no país, mas para isso é imprescindível uma liderança americana corajosa e decisiva que deve vir do presidente Obama.

Os EUA precisam, juntamente com seus aliados, canalizar a assistência diretamente ao conselho de oposição para que seja distribuída nas áreas que se encontram nas mãos dos rebeldes. Precisamos fornecer armamento e outros tipos de assistência ao comando militar da oposição. E devemos impor uma zona de exclusão aérea em algumas regiões do país, incluindo o uso de baterias de mísseis Patriot americanos na rota para a Turquia, com o objetivo de proteger o povo no norte da Síria dos ataques aéreos de Assad.

Se persistirmos no atual caminho, os futuros historiadores poderão considerar o massacre de civis inocentes e o consequente risco para os interesses nacionais e a moral dos EUA um vergonhoso fracasso da liderança do nosso país e um dos capítulos mais negros da nossa história. Essa deve ser uma preocupação para todos nós, enquanto oramos pela paz e pela boa vontade nesta época do ano. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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