A desconfiança entre americanos e cubanos

Apesar da tentativa inicial de aproximação de Obama, a prisão de um americano em Cuba e os esforços para libertá-lo voltaram a azedar a relação

Damien Cave, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Na semana passada, Bill Richardson, ex-governador do Estado do Novo México, tinha algo de substancial a oferecer aos representantes cubanos em Havana se eles concordassem em libertar Alan Gross, o funcionário de uma empresa terceirizada que foi condenado a 15 anos de prisão por distribuir equipamento de telefonia via satélite.

Richardson, que já negociou trocas de prisioneiros de Cuba até a Coreia do Norte, contava com a aprovação do Departamento de Estado americano para apresentar duas propostas. Uma delas seria remover Cuba da lista de países patrocinadores do terrorismo. O governo Barack Obama também estava disposto a dar liberdade condicional a um membro do "Quinteto Cubano", como é conhecido na ilha um grupo de cubanos acusados de espionagem pelos Estados Unidos.

Não foi o bastante. Richardson nem mesmo recebeu permissão para ver Gross. Ao deixar Havana, na quarta-feira, ele estava furioso e desapontado. Concluiu que elementos do governo cubano "parecem de fato não desejar relações mais amenas (entre os dois países)".

A amargura voltou a ser o modus operandi das relações entre EUA e Cuba. Especialistas e representantes do governo americano dizem que a fracassada viagem de Richardson foi o mais recente de uma série de mal-entendidos e supostos ataques velados que mostram como os dois países retomaram - após um breve período de degelo - a antiga desconfiança que caracterizou por 50 anos as relações entre ambos.

"Nenhum dos lados demonstrou o mínimo interesse em aprender com as experiências do passado, limitando-se a repetir os erros que parecem condenados a cometer de novo e de novo", disse Robert Pastor, professor da Universidade Americana e consultor do ex-presidente Jimmy Carter para assuntos latino-americanos. "O problema não está apenas no pessoal do governo Obama. Os novos funcionários do governo castrista não cooperam."

Não é isso que os dois lados esperavam. O presidente Barack Obama defendeu em sua campanha um envolvimento mais direto com Cuba, ousando dizer aos eleitores de Miami, em maio de 2008, que estaria aberto a uma reunião com Fidel Castro e ao estabelecimento de relações mais amistosas.

Quatro meses após tomar posse, ele avançou nesta direção ao acabar com as restrições ao envio de dinheiro por americanos de origem cubana a seus parentes na ilha e às viagens para visitá-los.

O governo cubano respondeu rapidamente. As reuniões com representantes americanos tornaram-se mais frequentes no primeiro ano do governo Obama, incluindo uma visita a Havana feita pelo representante do mais alto escalão do Departamento de Estado americano desde 2002. Cuba também eliminou um imposto de 10% sobre as remessas de dinheiro à ilha por americanos.

Programa secreto. Mas o caso da detenção de Gross trouxe novas dúvidas sobre este relacionamento. Funcionário de uma empresa terceirizada financiada pela Agência de Desenvolvimento Internacional dos EUA, Gross foi detido em dezembro de 2009. Cuba o acusou de distribuir equipamento proibido, como parte de um programa parcialmente secreto para enfraquecer o governo cubano.

A prisão provocou arrepios nos diplomatas de ambos os países. O governo cubano queixa-se há anos dos "programas de difusão democrática", que acredita subverter sua autoridade e soberania. Ainda assim, representantes do governo americano não esperavam que a questão se arrastasse muito.

De fato, um mês depois as relações ainda eram suficientemente boas a ponto de serem estabelecidas as bases para aquilo que alguns funcionários dizem agora ter sido uma oportunidade desperdiçada - uma clínica médica administrada por ambos os países no Haiti. A ideia surgiu pouco depois do terremoto que arrasou a capital haitiana, Porto Príncipe, em janeiro de 2010.

Cuba logo aprovou o pedido americano de levar vítimas para a Flórida para receberem atendimento médico passando por uma rota que cruzava o espaço aéreo cubano. Isso levou à ideia de um novo hospital para a zona rural do Haiti, numa área posteriormente afetada pela epidemia de cólera. O projeto previa que a instalação fosse construída e mantida com o auxílio americano, mas operada por médicos cubanos.

De acordo com funcionários e ex-funcionários do governo americano, os debates avançaram bem durante meses e o acordo tinha quase sido concluído quando antigas questões vieram à tona. "Primeiro os cubanos disseram: "Queremos ir adiante com o projeto, mas vocês precisam parar de tentar recrutar nossas brigadas de médicos"", contou um funcionário americano que não tem autorização para fazer comentários públicos sobre o caso. Os cubanos irritaram-se com um programa pouco conhecido, iniciado por George W. Bush e prorrogado por Obama, que oferece auxílio aos médicos cubanos que desejem desertar.

Depois que o governo Obama deu a entender que não eliminaria o programa, representantes cubanos ficaram ainda mais indignados por causa de uma cerimônia na qual tiveram a impressão de que os médicos do país não receberam o devido crédito por seu trabalho no Haiti.

Finalmente, dias antes da data marcada para a assinatura do acordo, o governo cubano exigiu que uma segunda clínica fosse construída em Porto Príncipe, ao custo de milhões de dólares, pondo fim à possibilidade de um acordo.

A partir deste ponto, as relações entre EUA e Cuba só azedaram.

Representantes do governo americano dizem que os cubanos desperdiçaram uma oportunidade este ano, quando a Casa Branca e o senador John Kerry fizeram pressão para que fossem cortados recursos destinados aos programas de difusão democrática. Se Cuba tivesse libertado Gross naquele momento, disseram os representantes, os programas teriam sido menos voltados para o enfraquecimento do governo cubano e mais destinados à construção da sociedade civil no país. Em vez disso, o Congresso manteve tais programas relativamente intactos.

Para os americanos, já faz algum tempo que Cuba parece não ter interesse em libertar Gross. A ilha de 11 milhões de habitantes está passando pela maior reforma econômica já vista por lá desde o fim da União Soviética - e abrindo mais espaço para a iniciativa privada.

Especialistas em Cuba acreditam que os funcionários do governo estão travando uma guerra ideológica para definir até que ponto ir e qual deve ser o ritmo da transformação. Alguns dizem que as relações com os EUA parecem estar agora em segundo plano, perdendo espaço para preocupações domésticas. Dizem também que talvez sejam os linhas duras que estão ditando os rumos da política externa do país.

Fracasso. Assim, apesar de Richardson ter viajado com o apoio do Departamento de Estado americano, representantes do governo disseram não ter se surpreendido com o fracasso da iniciativa dele.

Richardson disse que foi convidado e esperava, no mínimo, ter uma oportunidade para se reunir com Gross.

Josefina Vidal Ferreiro, funcionária do ministro das Relações Exteriores para questões americanas, disse que Richardson tinha ido a Cuba "por conta própria". Ela não comentou o desgaste generalizado nas relações entre os dois países. Mas, dando a entender que tirar Cuba da lista de países patrocinadores do terrorismo e reduzir a sentença de um cubano acusado de espionagem não seriam medidas suficientes, ela disse que a libertação de Gross "nunca foi considerada". E as coisas devem continuar assim por algum tempo.

Um representante que participou das mais recentes negociações entre os dois países disse que Cuba pode ser convencida a mudar de ideia se a União Europeia reduzir as limitações ao país por causa de preocupações com o respeito aos direitos humanos.

Mas enquanto Cuba mantiver Gross sob custódia o país continuaria no isolamento. Por enquanto, a libertação dele - e as tantas outras questões envolvendo Cuba - parece estar presa a décadas de tentativas fracassadas de promover um degelo nas relações entre Cuba e os Estados Unidos. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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