Brendan Smialowski/AFP
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Análise: Desonestidade definiu presidência de Trump e consequências podem ser duradouras

Quer o presidente Trump ganhe ou perca, o que se corroeu foi o próprio conceito de confiança pública em um conjunto estabelecido de fatos, algo fundamental para o funcionamento de uma sociedade democrática

Peter Baker, The New York Times

02 de novembro de 2020 | 13h33
Atualizado 02 de novembro de 2020 | 16h18

WASHINGTON - Nascida em meio a multidões inventadas e “fatos alternativos”, a presidência de Donald Trump tem sido, desde o início, uma fábrica de falsidades, produzindo distorções, teorias da conspiração e mentiras descaradas em um ritmo industrial que desafia os verificadores de fatos e superou qualquer analogia histórica.

Mas agora, a um dia da eleição, as consequências de quatro anos de fabulações vêm à tona enquanto o presidente argumenta que a votação em si é inerentemente “fraudada”, destruindo a credibilidade do sistema. Se, depois de terça, a disputa entrar em turnos extras por meio de contestações legais, os desdobramentos podem deixar as pessoas com pouca fé no resultado – e em sua própria democracia.

O terrível cenário de dúvida generalizada e negação da legitimidade da eleição pode ser a cereja do bolo de um período da história americana em que a própria verdade ficou em jogo, sob um presidente que esgarçou tanto dos limites da normalidade que acabou por criar o que os aliados chamam de sua própria realidade.

Mesmo que a eleição termine com uma vitória ou uma derrota clara para Trump, tanto acadêmicos quanto autoridades dizem que o próprio conceito de confiança pública em um conjunto estabelecido de fatos necessários para o funcionamento de uma sociedade democrática foi corroído durante seu mandato, com implicações de longo prazo.

“Você pode mitigar os danos, mas não vai conseguir deixar as coisas cem por cento do jeito que eram antes”, disse Lee McIntyre, autor de Post-Truth e filósofo da Universidade de Boston. “E eu acho que este será o legado de Trump. Haverá, por décadas, danos permanentes aos processos pelos quais examinamos as verdades. As pessoas dirão: ‘Ah, isso é fake news’. A confusão entre ceticismo e negação, a ideia de que, se você não quer acreditar em alguma coisa, não precisa acreditar, tudo isso é muito prejudicial e ainda vai durar um bom tempo”.

De fato, a própria ideia de verdade é cada vez mais uma mercadoria intercambiável em um ambiente político que parece recompensar as vozes que gritam mais alto, e não as que são mais honestas. Em uma pesquisa recente para a Newsweek, 54% dos americanos concordaram que mentir se tornou algo mais aceitável na política americana nos últimos anos, enquanto apenas 13% disseram que mentir agora é menos aceitável, e o restante disse que é quase o mesmo ou não tinha uma opinião formada.

Nancy L. Rosenblum, professora emérita da Universidade de Harvard que escreveu A Lot of People Are Saying com Russel Muirhead, disse que a situação talvez não mude, mesmo que Trump deixe o cargo após um único mandato, porque ele provou as vantagens de fazer política distorcendo a verdade e ajudou a construir uma infraestrutura de informação em que a realidade é uma espécie de cardápio do qual os americanos podem escolher sua variante favorita.

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“Acusações de conspiração e uma certa quantidade de mentiras provaram ser boas armas numa luta política onde você tem divisões muito, muito profundas. E não há razão para pensarmos que outros atores não adotem essa mesma postura em circunstâncias desesperadoras”, disse ela. “Então a expectativa é que essa dinâmica continue, mas sem os mesmos efeitos”.

O impacto duradouro pode ficar ainda mais evidente no contexto de uma pandemia de coronavírus que já matou mais de 230 mil pessoas nos Estados Unidos. Mesmo com o surto atingindo novos picos, Trump vem insistindo, falsamente, que a pandemia está “virando a esquina” para ir embora e dizendo aos americanos para não se preocuparem, em vez de instá-los a tomar precauções.

A desconexão tem consequências tangíveis. Em pesquisas, os republicanos que apoiam Trump têm maior probabilidade de rejeitar a ameaça do vírus e menos probabilidade de usar máscaras ou manter distância social.

Uma pesquisa feita na semana passada pela Axios e pelo Ipsos descobriu que apenas metade dos americanos conseguia responder corretamente a seis perguntas factuais sobre o vírus, indicando até que ponto a desinformação ligada a comportamentos imprudentes se espalhou pela população.

Os cientistas concluíram que 130 mil vidas poderiam ser salvas nos Estados Unidos nos próximos meses se houvesse um uso universal de máscaras. Mas Trump zomba das proteções faciais e menospreza os especialistas médicos, minando sua credibilidade junto ao público, principalmente o Dr. Anthony S. Fauci, o epidemiologista-chefe do governo federal que agora precisa de uma escolta de segurança após ser objeto de difamações do presidente e de seus aliados.

Com a visão sobre o vírus se dividindo cada vez mais nas linhas partidárias, muitos americanos expressam desconfiança diante de uma possível vacina, o que poderá levar a uma resistência generalizada à inoculação.

Além da crise de saúde, o sucessor de Trump, seja no ano que vem ou em cinco anos, pode enfrentar uma crise ainda mais ampla, vendo-se obrigado a restabelecer a credibilidade junto a aliados e adversários estrangeiros, enquanto preside um país onde a verdade foi dividida em tribos e grande parte da população foi condicionada a desconfiar de instituições de todos os tipos.

Trump passou quatro anos dizendo aos americanos para não confiarem em ninguém além dele próprio, fossem especialistas em saúde pública, cientistas, jornalistas, juízes, funcionários de carreira do governo, investigadores, generais, agências de inteligência, autoridades eleitorais e até mesmo carteiros. “Nunca se esqueça”, disse ele a uma multidão, “o que você está vendo e o que está lendo não é o que está acontecendo”.

É difícil restaurar a confiança, uma vez perdida. “Sabemos muito sobre a deslegitimação das instituições democráticas nos últimos dois séculos”, disse Rosenblum. “Mas não sabemos nada sobre como você re-legitima instituições que perderam seu principal valor e autoridade para uma quantidade alarmante de pessoas. Esta é a verdadeira questão”. / Tradução de Renato Prelorentzou

 

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