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A desunião europeia

As seis décadas de Comunidade Europeia racharam como porcelana mal cozida

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2015 | 02h03

Se há uma constatação que merece a unanimidade dos países-membros da União Europeia é a desunião desta união. Já se suspeitava disso. Entretanto, o veredicto foi confirmado com estardalhaço pelo destino infeliz dos imigrantes que se obstinam em morrer nas costas da Itália ou a se espalhar às dezenas de milhares pelo sul da Europa.

E, entretanto, esta seria a ocasião mais apropriada para a Europa demonstrar que, apesar de seus altos e baixos, das caretas e das síncopes, ela existe de fato. Nada de mais prático do que uma grande tragédia e uma bela causa para mostrar os méritos da união sagrada. Mas o que vimos até agora é exatamente o contrário: desde o dia em que o fluxo dos imigrantes se tornou tão amplo a ponto de exigir uma resposta comum, digna, generosa por parte da União Europeia, esta união rachou, partiu-se em pedaços, como uma porcelana mal cozida.

No início da prova, o tom correto foi dado pela Alemanha, o país mais poderoso do continente, ao oferecer o exemplo da generosidade. Foi um bom presságio. Angela Merkel, tão maçante em algumas ocasiões, anunciou que seu país acolheria 800 mil refugiados em busca de asilo. Não só isso, o povo alemão, não se resignou a aceitar o fluxo de estrangeiros (principalmente sírios, iraquianos, eritreus, etc.), como os acolheu de braços abertos. A euforia durou alguns dias. Mal recebidos na maior parte dos países do Leste Europeu, todos os imigrantes dirigiram-se, então, para a Alemanha, a ponto de o governo de Berlim, numa situação de catástrofe, fechar suas fronteiras com a vizinha Áustria.

A chanceler, lamentando do fundo do coração, foi obrigada a suspender, provisoriamente, espera-se, o Espaço Schengen, a zona europeia na qual as pessoas têm garantida a livre circulação. Além disso, na noite de segunda-feira, os ministros da União Europeia reuniram-se em caráter de urgência em Bruxelas. Seu objetivo era repartir de maneira equitativa os imigrantes entre todos os países da comunidade, em vez de deixar a Alemanha carregando sozinha, ou quase, todo o enorme fardo. O resultado da reunião foi zero.

O continente parece dividido entre dois grandes blocos: o primeiro, liderado pela Alemanha, é o dos países desejosos de solucionar com equidade ou compaixão o drama dos refugiados políticos da Síria e de outros países. Ao lado da Alemanha, está a França, que, como sempre, se precipita em tomar a mesma decisão da Merkel, embora com cautela. Paris procura agir com calma, mas deverá receber certo número de imigrantes.

Repúdio. Os países do Leste, por outro lado, formam um verdadeiro "fronte de repúdio". República Checa, Hungria, Romênia, Eslováquia, Letônia e também Polônia, não querem saber dos imigrantes. Ponto final. A Hungria é a primeira do bloco, pois seu presidente, Viktor Orbán, é uma pessoa extremamente agressiva. Ele cercou a Hungria com uma "cortina de ferro" fechando totalmente sua fronteira com a Sérvia, 25 anos depois do desmantelamento, e precisamente na Hungria, da outra cortina de ferro!

Os outros países desta zona, embora menos provocadores, não são menos agressivos. A Eslováquia aceita receber migrantes. Quantos? Duzentos. E, atenção: somente se forem cristãos. Nas redes sociais da Eslováquia, multiplicaram-se as mensagens de prazer pela morte da criancinha síria cujo corpo, encontrado numa praia da Turquia, abalara o mundo todo.

Como sempre, os países do Norte são, em princípio, exemplares. Dezenas de milhares de homens e mulheres fizeram uma manifestação em Malmö, na Suécia, para que os imigrantes tivessem uma acolhida digna. Entretanto, há um país nórdico que, estranhamente, deu as costas à sua tradicional compreensão pelo outro. A Dinamarca fechou sua fronteira com a Alemanha para impedir que os imigrantes, a "peste", em resumo, penetrem no bem-aventurado reino.

É um panorama aflitivo. Seis décadas de Comunidade Europeia, de instituições e de discursos sobre a solidariedade, o trânsito através das fronteiras, a fraternidade, a paz universal, e com que resultados? Cercas de arame farpado, muros eriçados de lanças, polícia, Exército, fuzis, revólveres. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

*Gilles Lapouge é correspondente em Paris 

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